Entrevistador: Lorde Baden-Powell, como vê a atual preocupação com a segurança?
Baden-Powell: Acho-a profundamente tranquilizadora.
No meu tempo, a segurança consistia sobretudo em ensinar os
rapazes a serem prudentes.
Hoje, parece consistir em garantir que nunca tenham
oportunidade de a pôr em prática.
É um aperfeiçoamento notável.
Entrevistador: Não é importante minimizar os riscos?
Baden-Powell: Evidentemente.
No entanto, é importante salientar que há uma diferença
entre gerir riscos e abolir a realidade.
Uma fogueira que não queima, uma faca que não corta e uma
caminhada que não cansa... São conceitos pedagogicamente fascinantes.
Porém, de utilidade prática limitada.
Entrevistador: Então, o risco é necessário?
Baden-Powell: Absolutamente.
O carácter forma-se, em grande parte, através da proximidade
controlada do risco.
Um rapaz que nunca cai dificilmente aprende equilíbrio.
Um rapaz que nunca se perde dificilmente aprende a
orientar-se.
E um rapaz que nunca falha dificilmente aprende a ser
humilde.
Entrevistador: E qual é o maior risco atualmente?
Baden-Powell: Criar uma geração perfeitamente segura e
profundamente incapaz.
Entrevistador: Lorde Baden-Powell, que opinião tem sobre o
envolvimento crescente dos pais?
Baden-Powell: É fascinante.
No meu tempo, os pais entregavam-nos os filhos e iam
descansar.
Confiavam.
Hoje, alguns parecem considerar que o verdadeiro espírito de
aventura consiste em acompanhar cada passo através de mensagens e fotografias.
Entrevistador: Mas isso não demonstra preocupação?
Baden-Powell: Sem dúvida.
O problema é que a preocupação em excesso pode
transformar-se numa forma sutil de desconfiança.
Um jovem que nunca se sente verdadeiramente sozinho
dificilmente descobre quem é.
Entrevistador: É importante o afastamento dos pais?
Baden-Powell: Vital.
O campo é uma das poucas escolas onde um rapaz pode existir
sem o olhar constante da família.
É aí que se testa.
É aí que cresce.
É aí que aprende que é capaz.
Entrevistador: E o que diria aos pais de hoje em dia?
Baden-Powell: A resposta é muito simples: se querem ajudar
os vossos filhos a crescer, por vezes, a melhor forma de o fazerem é
afastarem-se um pouco.
Com discrição.
E sem pedir fotografias do pequeno-almoço.
Entrevistador: Lorde Baden-Powell, o que pensa do uso
constante do telemóvel pelos dirigentes?
Baden-Powell: É um prodígio.
Nunca imaginei que um objeto tão pequeno pudesse causar
tanta distração.
No meu tempo, para ignorar um rapaz, era necessário um
grande esforço.
Hoje, basta uma notificação.
Entrevistador: Acha isso tão grave assim?
Baden-Powell: O escutismo depende da atenção.
O dirigente observa.
Escuta.
Repara no silêncio estranho, no conflito discreto, na
hesitação do mais novo.
Tudo isso exige presença.
No entanto, é difícil estar verdadeiramente presente quando
metade da nossa atenção está num ecrã.
Entrevistador: Mas também pode ser útil.
Baden-Powell: Sem dúvida.
Tal como um apito.
Mas nunca vi um chefe a passar meia hora a olhar para o
apito.
Entrevistador: E qual seria a regra ideal?
Baden-Powell: É simples: quando estiverem no campo, estejam
no campo.
As mensagens podem esperar.
A infância dos vossos filhos, não.
Entrevistador: E se tivesse de resumir?
Baden-Powell: Um chefe que olhe demasiado para o telemóvel está a
ensinar, sem querer, que o mundo lá fora é mais importante do que a pessoa que
tem à sua frente.
E isso é uma lição desastrosa.
Entrevistador: Lorde Baden-Powell, o que pensa dos
acampamentos em que já não se acende fogo?
Baden-Powell: Depende.
Se o objetivo for evitar incêndios, parece-me uma solução
excelente.
Se o objetivo for aprender a viver no campo, já tenho mais
dúvidas.
Entrevistador: Mas há razões de segurança e ambientais.
Baden-Powell: Naturalmente.
Há também razões de segurança para não sair de casa e, no
entanto, a isso chamamos outra coisa que não escutismo.
O fogo sempre teve um papel curioso: aquece, ilumina e
ensina humildade.
Porque nada reduz tanto a arrogância de um grupo como tentar
cozinhar sob a chuva com madeira húmida.
Entrevistador: Então, o fogo é essencial?
Baden-Powell: Não, não é.
Mas é revelador.
Um acampamento sem fogo tende a ser demasiado perfeito.
E o Escutismo nunca se tratou de perfeição.
Trata-se de aprendizagem real, em condições reais, com
resultados reais, incluindo um pequeno-almoço ligeiramente queimado.
Entrevistador: Lorde Baden-Powell, há quem diga que
atualmente há pouca margem para o silêncio no escutismo. Concorda?
Baden-Powell: Concordo e lamento.
O silêncio era uma das nossas melhores ferramentas
educativas.
Não dizia nada, o que era precisamente o seu valor.
Entrevistador: Mas os jovens não se aborrecem?
Baden-Powell: Sim, e isso é excelente.
O tédio é muitas vezes o início da criatividade.
Um rapaz entediado olha à sua volta.
Um rapaz constantemente estimulado olha para dentro... do
ecrã.
Entrevistador: E o que acontece quando se remove o silêncio?
Baden-Powell: Perde-se o espaço interior.
E, sem espaço interior, não há reflexão.
Sem reflexão, não há aprendizagem profunda.
E sem aprendizagem profunda, sobra apenas atividade.
Entrevistador: Defende, então, mais silêncio nos
acampamentos?
Baden-Powell: Defendo que se tenha menos medo do silêncio.
Porque, ao contrário do que se pensa, o silêncio não é
vazio.
Está repleto de pensamentos.
Entrevistador: Lorde Baden-Powell, o escutismo moderno
parece muito focado nos resultados. Isso é positivo?
Baden-Powell: Os resultados sempre existiram.
A diferença é que, no meu tempo, consistiam em:
— Saber montar uma tenda;
— Saber orientar-se;
— Saber ajudar alguém em dificuldade.
Hoje, parecem ser:
— o número de atividades realizadas;
— as horas registadas;
— as competências demonstradas numa grelha.
É uma evolução fascinante da experiência para a estatística.
Entrevistador: Mas isso não melhora a qualidade?
Baden-Powell: Melhora a medição da qualidade.
Nem sempre a qualidade em si.
Entrevistador: Então, a produtividade é um problema?
Baden-Powell: Não necessariamente.
O problema começa quando nos esquecemos de perguntar:
"Isto formou caráter ou apenas gerou relatórios?"
O Escutismo sempre se caracterizou por ser pobre em
relatórios e rico em experiências.
Agora receio que esteja a acontecer o oposto.
Entrevistador: E qual seria o equilíbrio ideal?
Baden-Powell: Primeiro, fazer. Registar depois.
E nunca permitir que o registo se torne mais importante do
que aquilo que realmente aconteceu.
Entrevistador: Lorde Baden-Powell, há quem diga que o
escutismo se tornou mais institucional e organizado. Concorda?
Baden-Powell: Sim, e isso não é, por si só, um problema.
A organização é necessária.
O problema começa quando a organização se torna o objetivo.
Entrevistador: Poderia explicar melhor?
Baden-Powell: No início, o movimento era simples: rapazes,
natureza, responsabilidade e aprendizagem.
Hoje em dia, por vezes, parece tratar-se de estruturas,
níveis, estratégias, planos, relatórios e alinhamento institucional.
Entrevistador: Mas isso não garante a sustentabilidade?
Baden-Powell: Garante a continuidade administrativa.
Mas nem sempre garante a continuidade educativa.
Entrevistador: E o que mais se perde?
Baden-Powell: Perde-se a leveza.
Perde-se a capacidade de improvisar.
Perde-se a capacidade de um grupo de jovens decidir, cometer
erros, fazer ajustes e crescer sem ter de pedir autorização a três níveis
hierárquicos.
Entrevistador: E o que diria aos dirigentes?
Baden-Powell: "Lembrem-se disto: o Escutismo não nasceu
para ser bem gerido.
Nasceu para ser vivido.
Se um dia tudo estiver perfeitamente organizado, talvez
ninguém esteja realmente a ouvir os escuteiros.
Entrevistador: Lorde Baden-Powell, qual é a sua opinião
sobre a dimensão espiritual no Escutismo atualmente?
Baden-Powell: Vejo-a com respeito... e com alguma
dificuldade em encontrá-la.
No meu tempo, a espiritualidade era como o vento: não se
explicava muito, mas sentia-se.
Hoje, parece algo que precisa de uma definição, um
enquadramento, indicadores e, por vezes, um formulário próprio.
Entrevistador: Isso é um problema?
Baden-Powell: Só se acreditarmos que tudo o que é importante
pode ser medido.
Sempre pensei que o escutismo lidava com coisas que se vivem
mais do que se descrevem.
A amizade, o serviço, o silêncio perante a natureza... não
se encaixam facilmente em tabelas.
Entrevistador: Então, defende uma abordagem menos
estruturada?
Baden-Powell: Defendo uma abordagem menos ansiosa.
A espiritualidade não precisa de ser ensinada como uma
lição.
Tem de ser descoberta como uma experiência.
De preferência ao ar livre e não numa sala com projetor.
Entrevistador: E qual é o papel dos dirigentes?
Baden-Powell: Deixar espaço.
Não o preencher com demasiadas palavras.
Entrevistador: Lorde Baden-Powell, o escutismo é mais
disciplina ou liberdade?
Baden-Powell: Sempre achei curioso que isso seja tratado
como uma oposição.
Para mim, a disciplina sem liberdade não passa de
obediência.
E a liberdade sem disciplina não passa de desordem
bem-intencionada.
O Escutismo sempre se situou algures no meio.
Entrevistador: Hoje, há quem defenda um controlo mais
apertado.
Baden-Powell: E há quem defenda menos controlo.
Ambos têm boas intenções.
O problema surge quando nos esquecemos de que o objetivo não
é criar jovens obedientes ou desorganizados.
O que se pretende é formar jovens capazes de se governarem a
si próprios.
Entrevistador: E como se consegue isso?
Baden-Powell: Ao confiarmos-lhes pequenas responsabilidades
reais.
Não simulações.
Não exercícios com orientação constante.
Responsabilidade verdadeira com consequências reais.
É assim que a disciplina deixa de ser uma imposição e passa
a fazer parte da nossa personalidade.
Entrevistador: E se falharem?
Baden-Powell: Melhor.
Desde que não falhem sempre protegidos do seu próprio erro.
Entrevistador: Lorde Baden-Powell, muitos afirmam que a
patrulha deixou de desempenhar o papel central que outrora teve. Concorda?
Baden-Powell: Concordo, pois já não a reconheço facilmente.
Vejo o nome com frequência.
Vejo o conceito em apresentações.
Vejo-o em documentos muito bem elaborados.
No entanto, no terreno, por vezes, parece mais uma
referência teórica do que uma realidade viva.
Entrevistador: O que mudou?
Baden-Powell: A patrulha deixou de ser um pequeno grupo
autónomo.
Passou, em muitos casos, a ser um grupo que funciona sob
supervisão constante.
O que altera profundamente a sua natureza.
Entrevistador: Isso é um problema?
Baden-Powell: Depende do objetivo.
Se o objetivo for a eficiência adulta, então é uma melhoria.
Se o objetivo for a autonomia juvenil, então é uma perda
considerável.
Entrevistador: O que torna a patrulha tão importante?
Baden-Powell: O facto de não ser perfeita.
Uma patrulha verdadeira discute, comete erros, organiza-se,
falha e tenta novamente.
É um pequeno laboratório da sociedade.
Mas só funciona se for, de facto, dela própria.
Entrevistador: E qual é o seu conselho final?
Baden-Powell: Simples, como sempre: deixem as patrulhas
serem patrulhas.
E resistam à tentação de as transformarem em pequenos
projetos geridos por adultos.
O Escutismo sempre foi mais eficaz quando confiou mais nos
jovens do que nos manuais.
















