A ALCATEIA ORGANIZA UMA CAÇA AOS GAMBUZINOS
INDABA - REGRESSO ÀS ORIGENS é um espaço de partilha, reflexão e reencontro com a essência do Escutismo. Dirigido a todos os Dirigentes Escutistas, este blog propõe uma viagem ao coração dos valores fundadores do movimento, inspirando-se no espírito dos primeiros acampamentos e nos ensinamentos de Baden-Powell.
domingo, 2 de agosto de 2026
segunda-feira, 26 de janeiro de 2026
TEXTO DE OPINIÃO
OS LOBITOS: A SECÇÃO ESQUECIDA DA FORMAÇÃO DE ADULTOS
Há uma contradição silenciosa no modo como o Escutismo tem vindo a organizar a formação dos seus adultos: enquanto proclamamos que a infância é a base de todo o percurso educativo, negligenciamos precisamente a secção onde essa base é construída. Os Lobitos tornaram-se, de forma quase estrutural, a secção esquecida da formação escutista de adultos.
A omissão começa cedo — logo na fase inicial da formação.
Muitos dirigentes iniciam o seu percurso sem qualquer contacto sério com a
pedagogia específica da Alcateia, sem compreensão profunda do método próprio da
infância, sem preparação real para trabalhar com crianças num período decisivo
do seu desenvolvimento pessoal, emocional e espiritual.
Existem, é certo, algumas tentativas ténues de correção:
cursos de educadores para Chefes de Lobitos, módulos ocasionais, formações
pontuais. Mas são respostas insuficientes, irregulares e, sobretudo, raras. Por
razões estruturais, organizativas e, muitas vezes, de prioridade política
interna, estes cursos não se realizam em número adequado — nem com a
regularidade que a missão exigiria.
O resultado é preocupante. A secção mais delicada do
movimento, aquela onde se formam os primeiros hábitos, as primeiras imagens do
Escutismo, os primeiros vínculos com a Lei e a Promessa, é frequentemente
entregue a dirigentes de boa vontade… mas sem formação específica. Educadores
generosos, mas desarmados pedagogicamente. Muitos “recrutados”, com vivência
nos Exploradores, Pioneiros e Caminheiros… e outros que vêm do exterior que
sempre viram o Escutismo do “lado de fora”!
E isto não é um problema menor. Trabalhar com Lobitos não é
“mais simples” nem “mais fácil”. Pelo contrário: exige competências finas de
pedagogia infantil, domínio do simbolismo, capacidade de linguagem adequada,
sensibilidade emocional, conhecimento profundo do método. Um erro aqui não se
corrige facilmente mais tarde. Uma experiência pobre na infância marca, afasta,
fragiliza todo o percurso escutista futuro.
Ao negligenciar a formação dos educadores da infância, o
movimento compromete silenciosamente a qualidade de todo o seu futuro. Porque
não há Clã sólido sem Comunidade estruturada. Não há Expedição viva sem
Alcateia saudável. E não há Alcateia saudável sem Àkêlás, Balú(s) ou Baguera(s…
) e outros, preparado(a)s.
A questão, portanto, não é técnica. É política e
estratégica.
Enquanto a formação de adultos continuar orientada sobretudo
para formar “genéricos” e não “especializados” — formar depressa para ocupar
lugares — e não para garantir qualidade educativa onde ela é mais necessária,
continuaremos a construir um movimento com bases frágeis. Muito ativo… mas
pouco profundo. Muito organizado… mas pedagogicamente desigual.
Investir seriamente na formação de Chefes de Lobitos não é
um luxo. É uma urgência educativa.
Porque é na infância que se decide, muitas vezes em
silêncio, se o Escutismo será para aquela criança um espaço de crescimento… ou
apenas uma memória passageira.
sábado, 8 de novembro de 2025
A CHUVA TAMBÉM FAZ PARTE DA AVENTURA
Retirar os escuteiros das actividades ao ar livre apenas porque está ou vai chover é, muitas vezes, uma decisão bem-intencionada, mas que acaba por lhes retirar uma parte essencial da experiência escutista: a vivência da aventura em todas as suas dimensões. O escutismo nasceu precisamente do contacto directo com a natureza, do aprender fazendo, do enfrentar desafios reais — e a chuva, o vento ou o frio são, inevitavelmente, parte desse caminho.
Quando decidimos cancelar um Hyke / Raid porque o céu escureceu, ou encurtar um acampamento porque se prevê chuva, estamos a perder uma oportunidade educativa de grande valor. É nessas circunstâncias que se aprende a planear melhor, a prever dificuldades, a cuidar do equipamento e dos companheiros. A verdadeira aprendizagem acontece quando o jovem percebe que o impermeável afinal não era assim tão impermeável, mas que, mesmo molhado, consegue montar a tenda, preparar o jantar e rir com o grupo à volta de uma fogueira abrigada sob uma lona.
São essas experiências que criam recordações duradouras — e não apenas os dias de sol e céu limpo. A chuva ensina a paciência, a adaptabilidade e o sentido de entreajuda. Quando a patrulha /equipa, em conjunto, encontra uma solução para proteger o material, reorganiza o programa e segue com boa disposição, reforça-se o espírito de equipa e o verdadeiro sentido do “sempre alerta”.
Por exemplo, um simples jogo de pista pode tornar-se uma aventura memorável sob uma chuva leve: a parulha / equipa aprende a proteger o mapa, a planear abrigos intermédios e a gerir o tempo com inteligência. Um acampamento em tempo incerto pode transformar-se num exercício prático de logística e resiliência, onde cada um tem um papel activo na superação das condições adversas. E, claro, há sempre a recompensa de um chá quente, preparado com esforço e partilhado em espírito de camaradagem.
É importante, naturalmente, garantir a segurança — ninguém defende expor os jovens a riscos desnecessários. Mas entre o conforto excessivo e o perigo existe um espaço de desafio saudável, onde se aprende e cresce. Cabe aos dirigentes saber reconhecer esse equilíbrio e preparar os escuteiros para lidar com o desconforto com responsabilidade, sem o evitar por completo.
Em última análise, mais do que proteger os jovens da chuva, devemos ensiná-los a acolhê-la como parte integrante da aventura. Porque o escutismo não é feito apenas de actividades bem planeadas e condições ideais — é feito de superação, de descoberta e de momentos em que, mesmo encharcados, os sorrisos brilham mais do que o sol.
terça-feira, 28 de outubro de 2025
"PÃO-POR-DEUS", VIVER É PARTILHAR"
Destinatários: Lobitos e Exploradores
Duração: 1h30 a 2h
Objetivos:
- Valorizar
as tradições portuguesas e compreender o seu significado cultural.
- Promover
o espírito de partilha e solidariedade.
- Estimular
a criatividade e o trabalho em equipa.
1. Introdução (15 min)
Um dirigente explica, de forma simples e participativa, o
que é o Pão-por-Deus, as suas origens e a sua ligação ao Dia
de Todos os Santos.
Perguntas orientadoras:
- Sabem
o que é o Pão-por-Deus?
- Já
participaram alguma vez?
- Que
diferenças há entre o Pão-por-Deus e o Halloween?
2. Oficina Criativa – “O meu saco de Pão-por-Deus” (30
min)
Cada Lobito ou Explorador cria o seu saco ou cestinho
decorado, usando materiais reciclados (sacos de pano, papel, fitas, folhas
secas, etc.). Pode incluir frases ou desenhos alusivos à tradição.
3. Aprender e Cantar (15 min)
Ensinar uma cantiga tradicional do Pão-por-Deus,
como:
“Pão, pão por Deus,
Fiel de Deus,
Bolinho no saco,
Andai com Deus!”
Os Lobitos e Exploradores podem adaptar a letra ou criar uma
nova versão divertida.
4. Ação de Partilha (30 min)
Em pares ou pequenos grupos, podem:
- Entregar
“bolinhos dos santos” ou frutos secos a pessoas da comunidade
(vizinhos, lares, instituições).
- Deixar
uma mensagem de amizade ou oração junto das oferendas.
(Se não for possível sair, pode-se fazer uma encenação ou
um “mercadinho solidário” no grupo.)
5. Reflexão Final (10 min)
Em roda, conversar sobre o que sentiram ao partilhar e o que
aprenderam sobre a tradição e a importância de ajudar os outros.
Sugestão extra: confecionar em grupo Bolinhos dos
Santos (broas de batata-doce) para oferecer às famílias ou instituições
locais.
Uma das cantigas tradicionais do Pão por Deus
é: "Pão por Deus ou um bolinho, P'ra levar neste saquinho. Bolinhos
ou bolinhós, P'ra levarmos aos avós". Outra variante popular é:
"Pão por Deus, Fiel de Deus, Bolinho no saco, Andai com
Deus". Estas cantigas são usadas por crianças que batem às portas a 1
de novembro para pedir doces e guloseimas.
Exemplos de cantigas
Pão por Deus ou um bolinho:
Pão por Deus ou um bolinho,
P'ra levar neste saquinho.
Bolinhos ou bolinhós,
P'ra levarmos aos avós.
Pão por Deus, Fiel de Deus:
Pão por Deus,
Fiel de Deus,
Bolinho no saco,
Andai com Deus.
Outras rimas:
Se dão doces: "Esta casa cheira a broa, Aqui mora gente boa."
Se não dão: "Se não der mesmo nadinha, Cheira mal nesta cozinha."
"Truz, Truz! Para vir dar um tostãozinho."
Canção “Pao por Deus” - https://www.youtube.com/watch?v=a6w5YsFGzjg
domingo, 5 de outubro de 2025
ÀKÊLÁ — A LUZ QUE GUIA A ALCATEIA
Àkêlá é mais do que uma chefe — é uma inspiração viva. Comprometida e dedicada, conduz a sua Alcateia com um amor que ultrapassa o uniforme e as reuniões de sede ou os acampamentos, Acredita profundamente que cada Lobito é único, e é com respeito, empatia e paciência que faz florescer o melhor de cada um.
Criativa e curiosa, transforma cada atividade em uma aventura
de aprendizagem, onde o brincar e o descobrir andam de mãos dadas. Está
sempre disposta a aprender, a investigar, a crescer — uma verdadeira eterna
aprendiz.
Apaixonada pelo que faz, Àkêlá enche a Alcateia de energia e
alegria, mostrando que educar é, antes de tudo, um ato de amor e esperança.
É justa, ética e resiliente, guiando com sabedoria e coração aberto.
Com sensibilidade e carinho, ouve, compreende e apoia — dos
Lobitos aos pais, dos chefes aos amigos — criando uma teia de confiança e união
que faz da Alcateia um verdadeiro lar.
Àkêlá é aquela que lidera com o exemplo, com um
sorriso sereno e a certeza de que o escutismo transforma vidas. A sua presença
é farol, o seu gesto é abrigo, e o seu coração, um verdadeiro espírito de
serviço.
sábado, 4 de outubro de 2025
É A FAZER O BEM QUE SE CURA O MAL
Quando fazemos o bem — mesmo nas pequenas coisas — ajudamos a tornar o mundo e o nosso coração melhor.
No percurso escutista de um Lobito, aprendemos que o
mal (como a zanga, a tristeza ou a desobediência) não se vence com mais mal,
mas sim com ações boas, alegres e amigas.
O fazer o bem é como uma magia escutista: transforma
tudo à nossa volta!
Como explicar aos Lobitos
Podes dizer assim:
“Lobitos, todos nós às vezes sentimos coisas más — ficamos
tristes, chateados ou fazemos asneiras. Mas o melhor remédio é fazer o bem!
Quando ajudamos alguém, pedimos desculpa ou partilhamos um sorriso, o mal
desaparece e o bem cresce dentro de nós.”
Exemplos práticos para o bando
- Quando
um Lobito magoa outro sem querer
Em vez de fugires ou fingir que nada aconteceu, pede desculpa e ajuda o amigo a sentir-se melhor. O bem que fazes apaga o mal do erro. - Quando
um Lobito fica zangado por perder num jogo
Podes dar os parabéns ao vencedor e ajudar a arrumar o material. Assim transformas a zanga em alegria e respeito. - Quando
alguém no Bando está triste ou sozinho
Como Lobito podes ir brincar com ele ou ofereceres um desenho ou uma flor. Fazer o bem cura o mal da solidão. - Quando
o campo está desarrumado ou sujo
Em vez de reclamares, como Lobito podes juntar-te aos teus amigos para ajudar a limpar e arrumar. O bem que faz deixa o espaço bonito e o grupo feliz. - Quando
sentes inveja de um amigo
Podes elogiar o que o teu amigo fez bem e tentar aprender com ele. Isso transforma o mal da inveja no bem da amizade.
Mensagem final para os Lobitos
“Lobito, o bem que fazes é como uma semente: cada vez que
ajudas, sorris ou partilhas, nasce uma flor no teu coração e no mundo à tua
volta.”
DIA DO LOBITO 2026
quarta-feira, 1 de outubro de 2025
O DESAFIO…
A Áquêlá deu à sua Alcateia um desafio com apenas uma pergunta, e a resposta mudou completamente a forma como os jovens passaram a ver o Escutismo/Lobitismo e até a própria vida.
No papel, havia apenas um desenho simples: uma tenda
montada e a pergunta:
"Qual é a parte mais importante desta tenda?"
Os jovens escreveram respostas:
- A
lona!
- As
estacas!
- As
cordas!
- O
mastro!
Quando alguns responderam “as paredes da tenda”, o Dirigente
sorriu e disse:
– Nenhum de vocês acertou! A parte mais importante não é a que se vê: são os pequenos
nós, cordéis e estacas que mantêm tudo firme. Sem eles, a tenda cai.
No Escutismo/Lobitismo e na vida, é assim também: nem
sempre são as coisas grandes e visíveis que mais importam. O que sustenta
verdadeiramente o caminho de cada um são os apoios muitas vezes invisíveis – a Lei
da Alcateia e a Promessa, o espírito dentro do Bando, a amizade, a família, a
fé, a confiança no futuro.
Nunca subestimem os “parafusos invisíveis” da vossa vida,
porque são eles que vos mantêm de pé e fazem com que o acampamento da vossa “jornada”
não desmoronar.
domingo, 7 de setembro de 2025
O ÚLTIMO FOGO DE CONSELHO… COMO LOBITA
O céu sobre o Acampamento da Serra da Estrela era um manto escuro salpicado de estrelas cintilantes. O ar fresco da noite, perfumado pelo pinhal, trazia consigo o cheiro doce da lenha a arder e o murmúrio contido de dezenas de vozes. No grande Fogo de Conselho, o coração do acampamento batia com luz e calor: era o Fogo de Conselho.
A Leonor, sentada num dos troncos mais afastados, ainda
dentro do círculo dos lobitos, puxou o casaco azul-escuro mais junto do corpo.
Não era de frio, mas de uma emoção profunda que lhe agitava a alma. Aquele era
o seu último Fogo de Conselho como Lobita. Dentro de poucos dias, iria fazer a
sua Promessa de Exploradora perante a Bandeira Nacional.
Os chefes, iniciaram o ritual. A tocha foi trazida com
solenidade, e a grande fogueira ganhou vida, crepitando e lançando faíscas que
pareciam querer competir com as estrelas. As canções começaram, cada uma mais
alegre do que a outra: “Bendita seja, luz mensageira, a tua chama no lar.
Alumia e aquece, o fogo tem graça e cor, ritmo da vida que cresce,
fonte de paz e amor. Sobe ...
Leonor cantou com toda a força, a sua voz misturando-se com
a da Alcateia, pela última vez.
Enquanto cantava, os olhos dela percorreram o círculo
iluminado pelo fogo. Viu os Exploradores, confiantes, a apresentar um “sketch”
divertido sobre uma patrulha desorientada numa expedição. Viu os Pioneiros, já
mais sérios, a entoar uma canção de perseverança. E viu os Caminheiros, quase
adultos, com o olhar brilhante de quem já sonha com novos horizontes. “Em
breve, estarei ali”, pensou Leonor, e um frio na barriga juntou-se ao calor das
chamas.
Chegou a hora das histórias. O Chefe Miguel, homem de barba
grisalha e olhar bondoso, pediu silêncio.
— Hoje não vos trago uma história de grandes heróis — disse
ele, a sua voz grave ecoando na noite. — Quero falar de pegadas. As pegadas que
deixamos e as que estamos prestes a seguir.
Leonor sentiu cada palavra como se fosse dirigida apenas a
ela.
— Há alguns anos — continuou o chefe —, uma pequena lobita
chegou ao nosso agrupamento. Tinha medo do escuro, não sabia dar um nó simples
e escondia-se atrás da mãe na hora da canção. Mas tinha um brilho nos olhos,
uma curiosidade. E passo a passo, foi deixando pegadas. Aprendeu a cozinhar no
fogão “Palheirão”, a montar a sua tenda, a seguir uma pista na mata. Deixou
pegadas de coragem na primeira noite longe de casa, pegadas de amizade quando
ajudou uma irmã de Alcateia, pegadas de honra ao tentar sempre fazer o seu “Da
Melhor Vontade”.
Leonor baixou o olhar. Uma pontada de saudade apertou-lhe o
peito. Recordou o cheiro da sua primeira tenda, o sabor do refresco de limão
espremido à mão, o medo superado numa noite de histórias à volta da fogueira.
— Agora — prosseguiu o chefe —, essa lobita está prestes a
dar um passo maior. As suas pegadas vão a levar a novos trilhos, cheios de
desafios, aventuras e descobertas. Até aqui foi uma jornada de aprendizagem.
Agora começa uma de crescimento.
Ele olhou diretamente para Leonor e sorriu.
— Mas as pegadas que deixou na nossa Alcateia nunca se
apagarão. São a base, a raiz. E, para onde quer que vá, este fogo, esta
Alcateia, esta família escutista, estará sempre aqui a torcer por ela.
As palmas ecoaram. Júlia, a sua melhor amiga, apertou-lhe a
mão com força. Tinha os olhos marejados, mas um sorriso cheio de orgulho.
O Fogo seguiu, mas para Leonor cada música, cada gargalhada,
parecia um filme a passar na memória. Vivia a sua própria cerimónia silenciosa
de despedida.
Quando o fogo já estava em brasas, todos se levantaram e
deram as mãos, formando um grande círculo. Era a hora da canção de despedida.
As vozes uniram-se, emocionadas, e a melodia subiu ao céu
estrelado:
"Chegou a hora do adeus, irmãos, vamos partir, / No
abraço dado em Deus, irmãos, vamos nos despedir". Seguem-se
geralmente os versos "Partimos com a esperança, irmãos, de um dia aqui
voltar, / Com fé e confiança, irmãos, partimos a cantar". Por fim, a
canção pede: "A Deus, que fez bela a amizade, nós vamos pedir, / Nos
guarde em unidade e que nos torne a reunir..”
Leonor cantou, com a voz embargada. Olhou para os rostos
iluminados — os amigos, os chefes, o seu irmão mais novo, que agora começava
também o caminho escutista. E entendeu: não era um fim, mas um começo.
No final, todos ergueram as vozes numa só exclamação, forte
como um juramento:
“UMA VEZ ESCUTEIRO, ESCUTEIRO PARA SEMPRE! O NOSSO LEMA
É: SEMPRE ALERTA!”
Leonor gritou com toda a força. O frio na barriga
desapareceu, substituído por uma coragem quente e luminosa.
Não deixava nada para trás. Levava consigo tudo: o cheiro da fogueira, o calor
da amizade, as lições vividas.
Sempre Lobita, agora também Escuteira.
quarta-feira, 3 de setembro de 2025
ELAS CHEGARAM AGORA À TUA ALCATEIA
Elas pensavam que o mundo cabia inteiro nas paredes da sua casa, e que a sua família era a única tribo que existia. Cabe-te mostrar-lhes que não é bem assim.
Elas têm poucas palavras para nomear o que as rodeia. Terás
de as ajudar a encontrar novas palavras: o nome das árvores, o som do rio, a
luz das estrelas.
Elas vão descobrir o mundo com as cores que tu colocares em
cada canção, em cada história da Selva, em cada gesto de fraternidade.
Elas vão olhar para ti, aprender o teu nome, diferente Àquêlá,
Baloo, Baghera…, chamar-te por tudo e por nada, geralmente por nada. E esse
nada é sempre tudo.
Vais mostrar-lhes como se vive em Alcateia: como se partilha
o pão, como se aceita quem não é igual a nós, tal como se aceita um desenho
feito com todas as cores do arco-íris.
Vais aprender a ter de lhes dizer muitas vezes “não”, mesmo
quando o beicinho parece irresistível. Mas vais também dizer muitas vezes
“sim”, e sentir que é a ti que elas sorriem e que estendem as mãos cheias de
confiança.
Vais levá-las à clareira quando brilha o sol, vais ajudá-las
a subir às árvores, a saltar nas poças de água, vais remendar calças rasgadas
em jogos, a devolver as jarreteiras, vais cantar ao redor da fogueira, vais
ensinar-lhes a comer a sopa do acampamento e a ouvir histórias que falam de
lobos, de coragem e de amizade.
Elas vão ser, no pequeno universo da Alcateia, os filhos que
tens em casa, ou na escola, ou não tens, ou talvez venhas a ter um dia.
E, por vezes, poderás sentir um ligeiro remorso por lhes
dares o tempo que falta aos teus. Mas lembra-te: o que partilhas com elas
também chega a casa, transformado em paciência, alegria e amor.
Elas levam-te nos olhos quando ao final do dia regressam aos
pais. E tu esperas que te levem também no coração.
Elas vão acreditar em ti como acreditam no Grande Uivo, no(a)
Akelá, na magia da Selva e no Espírito Escuista.
Elas vão pôr-te os nervos à flor da pele, vão desafiar a tua
paciência e, às vezes, vão fazer-te esquecer a calma que julgavas inesgotável.
Elas vão fazer-te suspirar pela hora de arrumar o material,
mas também vão dar-te gargalhadas que enchem a clareira.
Porque elas são os Lobitos.
E porque tu és Velho Lobo.
Resumindo: elas vão-te fazer feliz para o resto da tua
vida.
UM CONTO DA ALCATEIA
A Diplomacia do Acampamento de Lobitos
O sol começava a desaparecer atrás das serras, pintando o céu com cores de fogo: laranja, vermelho e roxo. O ar da tarde cheirava a pinhal e a terra molhada. Dentro da minha tenda, eu, A Akelá, estava a aproveitar uns minutos de silêncio depois de um dia inteiro a correr atrás da alcateia. O estômago já barulho… estava na hora do jantar.
Para mim, o plano era simples: para cada Lobito, abrir uma
lata de sardinhas, aquecer no próprio óleo e meter dentro de um pão. Rápido,
quentinho, sem loiça para lavar. O jantar perfeito!
Mas nesse momento, a entrada da tenda abriu-se e lá estava a
Bárbara, a Lobita de olhos brilhantes. Não vinha só conversar. Vinha com uma
missão.
— Akelá — disse ela, muito séria, como quem apresenta um
grande projeto —, hoje vamos fazer pão de caçador!
Eu olhei para ela, meio atrapalhado. O pão de caçador é uma
aventura: amassar a massa, enrolar no espeto, rodar com calma para não queimar…
Demora imenso tempo, e o meu estômago e os dos miúdos, já pediam comida rápida!
— Mas, Bárbara — respondi eu —, olha a hora! A sardinha é
muito mais prática: fica pronta num instante e já ficamos com energia. O pão de
caçador é para quando temos mais tempo.
Mas os olhos dela não se apagaram. Pelo contrário, brilharam
ainda mais.
— Mas eu já tenho a farinha pronta! Eu amasso, com a ajuda
do meu Bando e preparamos os paus, ficamos depois a rodar o espeto… Vais ver,
Akelá, vai ficar delicioso!
Eu já estava quase a ceder quando apareceu a Sofia, a nossa “Baguera”,
que ouviu a nossa conversa e disse com calma:
— E porque não… os dois?
Fiquei a pensar.
— Como assim, os dois? — perguntei.
— Tu abres as latas da sardinha, eu abro os pães... Enquanto
isso, a Bárbara e Bando dela começam o pão de caçador. Quando acabares,
sentas-te ao pé deles e ajudas a vigiar o espeto. Assim, todos ficam felizes.
Parecia tão simples… e era mesmo genial! O rosto da Bárbara
encheu-se de alegria.
— Está bem, está bem — disse eu, a fingir que resmungava. —
Mas depois és tu que lavas a bacia de plástico da massa!
— Combinado! — gritou ela, já a correr para o fogareiro.
Pouco depois, o acampamento cheirava maravilhosamente: de um
lado, sardinha quente e saborosa; do outro, pão de caçador a dourar nas brasas.
Depois sentei-me junto à fogueira com a Bárbara e os restantes
Lobitos. Eles giravam os espetos com muita concentração. Falámos do dia, das
pegadas que tínhamos visto no trilho pedestre que nos levava ao Piódão, e das
estrelas que começavam a aparecer no céu.
Quando o pão ficou pronto, douradinho e estaladiço, ela
tirou-o com cuidado e disse:
— Para ti, Akelá.
Depois de comer uma maçã, para aguentar a fome, provei
aquele pedaço de pão quente e macio. Tinha o sabor da paciência, do esforço e
da partilha. Era, sem dúvida, muito melhor que só a sardinha.
No fim, como era de esperar, metade do pão ficou para mim e
a outra metade para ela. E a Bárbara ficou orgulhosíssima.
Moral do Conto
E assim terminou o nosso “Jantar da Alcateia”. Nesse
momento, lembrei-me de algo importante: o verdadeiro espírito escutista não
está apenas nos livros, nas regras ou nas insígnias. Está nestes momentos em
que conseguimos trabalhar juntos, encontrar soluções, partilhar tarefas e
repartir a comida à volta da fogueira.
Fazer “Da Melhor Vontade” nem sempre é escolher entre
isto ou aquilo. Muitas vezes, é descobrir uma forma de todos ficarem felizes,
ajudando-nos uns aos outros e partilhando o que temos.
segunda-feira, 1 de setembro de 2025
LOBITISMO: UMA ETAPA DECISIVA QUE NÃO PODE SER ESQUECIDA
O Lobitismo, destinado às crianças dos 6 aos 10 anos, representa o início da caminhada escutista. No entanto, muitas vezes é tratado como uma etapa menor, quase como uma “pré-escola” do Escutismo, e não como um ciclo formativo autónomo, com valor e identidade próprios. Este é, talvez, o maior erro e a maior ameaça à sua preservação.
A realidade mostra que o Lobitismo é frequentemente
desvalorizado dentro dos próprios agrupamentos. Muitos dirigentes concentram-se
mais nas secções posteriores — exploradores, pioneiros, caminheiros — deixando
os Lobitos como um simples ponto de partida, um tempo de “espera” até ao
verdadeiro Escutismo. Porém, é preciso afirmar, sem receio: o Lobitismo
ainda não é Escutismo, mas é precisamente por isso que exige maior cuidado,
maior atenção pedagógica e uma formação específica.
É nesta fase que se criam as primeiras impressões, que se
cultivam hábitos, que se despertam valores. Se o Lobito não encontrar aqui um
espaço atrativo, educativo e estimulante, corre-se o risco de perder, logo à
partida, a ligação vital ao movimento. E isso significa comprometer todo o
futuro escutista.
O problema maior está na formação dos próprios dirigentes.
Falta, em muitos casos, uma preparação sólida e contínua para orientar o
Lobitismo com qualidade. A mística da Selva, o jogo simbólico, a pedagogia da
fantasia e da descoberta exigem mais do que boa vontade: exigem técnica,
criatividade, paciência e sobretudo a consciência de que educar crianças
pequenas é uma responsabilidade complexa. É necessário, por isso, recordar
constantemente aos dirigentes que o Lobitismo não pode ser improvisado.
O desafio é claro: preservar esta etapa, desenvolvê-la com novos recursos pedagógicos, aprimorar a formação dos chefes e investir seriamente no Lobitismo como alicerce da vida escutista. Não podemos permitir que continue a ser visto como um apêndice, quando, na verdade, é a raiz. Sem um Lobitismo forte, o Escutismo cresce frágil.
domingo, 31 de agosto de 2025
OS LOBITOS OU «WOLF CUBS»
(…) Avançam em fila, leves como sombras, sobre as pontas dos pés – a passo de lobo. A certa altura, a linha dobra-se, descreve uma curva, fecha-se num círculo em torno do chefe da alcateia. De repente, tudo pára. O silêncio suspende o movimento. Os mais pequenos agacham-se sobre os calcanhares, as mãos pousadas na terra, e então ecoa um uivo prolongado, ritmado em cada sílaba: «Á-Ké-Lá! Da melhor vontade».
As palavras extinguem-se e, num instante, reina uma quietude densa, quase sagrada. Eis que, num salto súbito, todos se erguem de pé. As mãos levantam-se à altura da cabeça; dois dedos afastados em cada uma delas transformam-se em orelhas de lobo. Firmes, direitos, imóveis – assim saúdam o seu chefe, Akela. (Pronuncia-se Áquélá – embora se encontrem diversas variantes, adoptámos esta forma).
Não entendeu? Então abra o Livro da Selva, de Kipling. Lá encontrará Mogli, o rapazinho salvo da morte pelas presas de um tigre, acolhido pela mãe loba e criado entre lobinhos. A partir dessas páginas, compreenderá a razão deste nome estranho e desta encenação que, a um olhar adulto, poderá parecer pueril ou até grotesca, mas que às crianças oferece pura alegria, sem reservas nem disfarces. É nesse jogo inocente, nessa imaginação que se torna rito, que repousa a verdadeira originalidade da descoberta de Sir Robert Baden-Powell (…)
sábado, 30 de agosto de 2025
É HORA DE CONVIDAR OS AMIGOS!
A porta de entrada no movimento escutista
A infância é uma fase de descobertas, crescimento e aprendizagens únicas. A partir dos 6 anos, muitas crianças começam a viver novas experiências que marcam profundamente o seu futuro: a escola torna-se um espaço de socialização e conhecimento, a catequese abre caminhos para a espiritualidade e os valores da fé, e o escutismo surge como uma oportunidade extraordinária de aprender a viver em comunidade, respeitar a natureza e desenvolver competências para a vida.
Chegou o momento de abrir a porta do movimento escutista e convidar novos amigos para embarcar nesta aventura!
Uma estratégia de recrutamento e integração
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Recrutar com alegria – O convite deve ser simples e cheio de entusiasmo. Crianças convidam crianças, famílias falam com famílias. O testemunho pessoal é a melhor forma de mostrar o que significa ser escuteiro.
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Acolher com carinho – O primeiro contacto deve transmitir proximidade e amizade. É importante que cada criança se sinta valorizada e parte de algo maior desde o início.
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Integrar com propósito – As primeiras atividades devem ser pensadas para despertar curiosidade, espírito de equipa e sentido de pertença. Jogos, canções e pequenas aventuras ajudam a quebrar barreiras e a criar laços fortes.
A nova realidade das crianças
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Na escola, aprendem a crescer no saber e na convivência.
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Na catequese, descobrem os valores da fé e do amor ao próximo.
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No escutismo, encontram o espaço onde tudo isto se une: amizade, serviço, responsabilidade, alegria e aventura.
Ser escuteiro é muito mais do que usar um uniforme ou participar em atividades. É viver valores, construir amizades duradouras e aprender a ser melhor todos os dias.
Por isso, é hora de convidar os amigos: vizinhos, colegas da escola, primos ou conhecidos da paróquia. Cada criança é bem-vinda nesta nova realidade que transforma vidas e prepara cidadãos mais responsáveis, solidários e felizes.
O escutismo não é apenas um movimento — é uma família que cresce quando alguém diz: “Queres vir comigo?”















