EM DEFESA DO LOBITISMO: QUE FORMAÇÃO ESCUTISTA DE DIRIGENTES PRECISAMOS?
Há uma pergunta que, talvez, devêssemos fazer mais vezes, sobretudo quando falamos de formação:
O que precisa realmente de saber um dirigente para estar
numa Alcateia?
Não estou a perguntar quantos cursos fez.
Nem quantas horas de formação tem.
Nem quantos certificados guarda numa pasta.
Estou a falar de outra coisa.
Estou a falar daquilo que acontece quando chega sábado, as
crianças começam a entrar e temos diante de nós uma Alcateia cheia de energia,
de perguntas, de histórias, de conflitos, de gargalhadas e, às vezes, de
algumas lágrimas.
Estamos preparados para fazer Lobitismo?
Esta é, para mim, a pergunta que importa.
Porque, se acreditamos que o Lobitismo tem um método
próprio, então também temos de acreditar que é preciso uma preparação própria
para o viver.
Os Lobitos não são apenas “os mais pequenos”.
E um dirigente de Lobitos não é apenas alguém que sabe
trabalhar com crianças.
Há uma diferença. E essa diferença é importante.
Não basta gostar de crianças
Gostar de crianças ajuda muito.
Ter paciência ajuda ainda mais.
Ser criativo é uma enorme vantagem.
E gostar de brincar... bom, numa Alcateia, é quase
obrigatório.
Mas não chega.
Podemos gostar muito de crianças e, mesmo assim, não
perceber verdadeiramente o que estamos a fazer quando estamos com elas.
Um dirigente precisa de saber porquê.
Porque usamos a Selva?
Porque temos Bandos?
Porque fazemos determinadas cerimónias?
Porque existe uma progressão própria?
Porque é que um jogo é adequado para aquela idade e outro,
apesar de ser excelente com Exploradores, não funciona com Lobitos?
Estas perguntas fazem toda a diferença.
Porque fazer uma atividade é relativamente fácil.
Fazer dessa atividade uma experiência educativa já é
outra coisa.
Já me aconteceu acabar uma atividade e pensar: “Foi
giro... mas e depois?”
Acho que muitos dirigentes já passaram por isto.
Preparamos uma atividade durante horas.
Pensamos no jogo.
Nos materiais.
Na história.
Na logística.
Chega o sábado.
Os Lobitos divertem-se imenso.
Correm.
Gritam.
Riem.
No final, estamos cansados, mas satisfeitos.
“Correu muito bem!”
E, às vezes, é verdade.
Mas há uma pergunta que pode faltar:
O que é que eles levaram daquela atividade?
Não precisam de sair de cada atividade com uma grande lição.
Nem tudo precisa de ser transformado numa moral.
Mas nós, dirigentes, precisamos de saber qual é a nossa
intenção.
O que queremos proporcionar?
O que queremos que descubram?
Que competências queremos ajudar a desenvolver?
Que experiência queremos que vivam?
É aqui que começa o papel do educador.
O Método não pode ficar fechado num manual
Há coisas que podemos ler.
Há coisas que podemos estudar.
Há conceitos que precisamos mesmo de conhecer.
Mas há outras coisas que só começamos a compreender quando
estamos no meio de uma Alcateia.
Só quando vemos um Lobito que não quer participar percebemos
o que significa dar espaço.
Só quando temos dois Lobitos a discutir percebemos a
importância de saber intervir sem resolver tudo por eles.
Só quando vemos aquele Lobito mais tímido ganhar coragem
para falar percebemos o valor de uma pequena oportunidade.
Só quando uma criança nos olha e diz “Eu consigo!”
percebemos que, às vezes, a nossa melhor intervenção foi simplesmente confiar.
É por isso que acredito que a formação de dirigentes tem de
sair da sala de formação e entrar na Alcateia.
É preciso aprender fazendo.
Observar.
Experimentar.
Errar.
Conversar.
Voltar a tentar.
E, sobretudo, aprender a perguntar:
“Porque fizemos isto assim?”
Precisamos de formação que seja verdadeiramente de
Lobitos
Se cada secção tem uma identidade própria, não podemos olhar
para a formação como se bastasse ensinar um conjunto de técnicas gerais e
depois mudar o nome da secção.
Um dirigente de Lobitos precisa de conhecer a criança que
tem à sua frente.
Precisa de perceber como ela aprende.
Precisa de saber usar o jogo.
Precisa de compreender a força do imaginário.
Precisa de saber viver a Selva sem transformar a Selva numa
simples animação.
Precisa de compreender a Alcateia.
Precisa de saber trabalhar com Bandos.
Precisa de conhecer a progressão.
Precisa de saber preparar atividades adequadas à idade.
Mas há ainda outra coisa que, para mim, é fundamental:
precisa de saber observar.
Observar uma criança que está sempre calada.
Observar aquela que quer mandar em todos.
Observar a que está sempre a ajudar.
Observar a que fica para trás.
Porque, antes de educarmos, precisamos de conhecer quem
temos à nossa frente.
Há coisas que só quem já viveu uma Alcateia consegue
ensinar
Nenhum manual nos prepara completamente para o barulho de
uma Alcateia cinco minutos antes de começar uma atividade.
Nem para aquele Lobito que decide, naquele preciso momento,
que não quer participar.
Nem para o que começa a chorar porque perdeu um jogo.
Nem para o que não quer largar a mão dos pais.
Nem para aquele que fala sem parar.
Nem para o outro que quase nunca fala.
E muito menos para o momento em que, de repente, tudo
funciona e percebemos que aquelas crianças estão a crescer diante dos nossos
olhos.
É por isso que precisamos de formação acompanhada.
Precisamos de dirigentes mais experientes disponíveis para
acompanhar quem começa.
Precisamos de observar outras Alcateias.
Precisamos de conversar depois das atividades.
Precisamos de ter coragem para dizer:
“Não sei como lidar com isto.”
E ouvir alguém responder:
“Já me aconteceu. Experimenta assim.”
Isso também é formação.
Talvez seja até uma das formas mais importantes de formação.
Menos animadores, mais educadores
Esta frase pode parecer dura, mas penso que merece ser dita.
Não precisamos apenas de dirigentes que saibam animar uma
Alcateia. Precisamos de dirigentes que saibam educá-la.
Claro que queremos crianças felizes.
Claro que queremos atividades divertidas.
Claro que queremos que os Lobitos saiam do nosso encontro a
dizer:
“Foi brutal!”
Mas isso, sozinho, não chega.
Queremos que também aprendam a esperar.
A partilhar.
A ajudar.
A assumir pequenas responsabilidades.
A lidar com a frustração.
A ganhar confiança.
A perceber que fazem parte de um grupo.
A descobrir que são capazes.
A diversão pode ser o caminho.
Mas a educação tem de continuar a ser o nosso propósito.
E se amanhã chegasse um dirigente novo à Alcateia?
Gosto de fazer este exercício.
Imaginemos que amanhã chega alguém novo à nossa equipa.
Essa pessoa sabe trabalhar com crianças.
É responsável.
Tem vontade.
Gosta do Escutismo.
Mas nunca esteve numa Alcateia.
Seríamos capazes de lhe explicar o que distingue o Lobitismo
de uma simples atividade para crianças?
Conseguiríamos explicar porque usamos a Selva?
Porque trabalhamos em Bandos?
Qual é o sentido da progressão?
Porque uma determinada atividade faz sentido para Lobitos?
E porque outra, apesar de ser excelente com Exploradores,
não deve ser simplesmente “encolhida” para caber numa Alcateia?
E mais importante ainda:
saberíamos ensinar-lhe a olhar para uma criança?
Não apenas para o grupo.
Não apenas para a atividade.
Para aquela criança.
Porque ela é.
Porque reage assim.
Porque precisa daquele espaço.
Porque naquele dia não conseguiu.
Ou porque, naquele dia, conseguiu finalmente.
Se não conseguirmos transmitir isto, talvez tenhamos de
olhar novamente para a nossa própria formação.
Formação não pode ser apenas cumprir requisitos
Quando falamos de formação, é fácil cairmos nos números.
Horas.
Cursos.
Módulos.
Certificados.
Requisitos.
Tudo isso pode ter o seu lugar.
Mas não podemos confundir formação com certificação.
Um certificado não nos ensina a lidar com uma criança que
está a chorar.
Um módulo não nos diz automaticamente quando devemos
intervir ou ficar em silêncio.
Uma formação não garante que saibamos transformar um jogo
numa experiência educativa.
A verdadeira formação acontece quando aquilo que aprendemos
começa a mudar a forma como olhamos para os nossos Lobitos.
Quando começamos a fazer perguntas que antes não fazíamos.
Quando percebemos que uma atividade que correu mal também
pode ensinar-nos alguma coisa.
Quando deixamos de procurar apenas “atividades giras” e
começamos a procurar experiências com sentido.
Em defesa do Lobitismo
Defender o Lobitismo não é defender tudo o que fazemos
apenas porque sempre foi assim.
Não é preservar tradições por nostalgia.
Não é dizer que os nossos métodos são perfeitos.
É reconhecer uma coisa muito simples:
os Lobitos estão numa etapa própria do seu crescimento.
E essa etapa merece ser respeitada.
A infância não é uma sala de espera para a adolescência.
Um Lobito não está simplesmente a preparar-se para ser
Explorador.
Está a ser criança.
Está a descobrir o mundo.
Está a descobrir os outros.
Está a descobrir-se a si próprio.
E nós temos o privilégio — e a responsabilidade — de estar
presentes durante uma pequena parte desse caminho.
Por isso, se queremos defender o Lobitismo, temos também de
defender uma formação de dirigentes que esteja à altura dele.
Uma formação que não ensine apenas a organizar atividades.
Que nos ensine a compreender crianças.
Que não apresente o Método como uma lista de palavras
bonitas.
Que nos ajude a vivê-lo.
Que não forme apenas pessoas capazes de tomar conta de uma
Alcateia durante duas horas.
Que forme educadores escutistas capazes de fazer
Lobitismo.
No final de cada sábado...
Quando os Lobitos vão embora, a sede fica finalmente em
silêncio.
Guardamos os materiais.
Arrumamos a sala.
Respiramos fundo.
E talvez pensemos:
“Hoje correu bem.”
Mas há uma pergunta que gosto mais de fazer:
“O que é que aquela criança levou consigo?”
Talvez tenha levado uma nova amizade.
Talvez tenha descoberto que consegue fazer uma coisa que
julgava impossível.
Talvez tenha aprendido a esperar pela sua vez.
Talvez tenha ajudado alguém.
Talvez simplesmente tenha passado uma tarde feliz num lugar
onde se sente segura e onde sabe que pertence.
Nós nem sempre vamos saber a resposta.
E está tudo bem.
Mas, se queremos ser verdadeiramente dirigentes de Lobitos,
temos de continuar a fazer essa pergunta.
Porque talvez seja aí que começa a verdadeira formação.
Não quando aprendemos a fazer mais coisas.
Mas quando aprendemos a compreender melhor aquilo que
fazemos.
E, sobretudo, para quem o fazemos.








