A presente "Entrevista Impossível" parte de um exercício de imaginação que consiste em convocar a figura histórica de Robert Baden-Powell para um diálogo fora do seu tempo, no qual as suas ideias originais são confrontadas com as práticas, os desafios e as transformações do Escutismo contemporâneo.
Mais do que um registo histórico ou
uma análise académica, este texto apresenta-se como uma conversa crítica e
provocadora em que o passado observa o presente, que, por sua vez, é forçado a
justificar-se. Entre a intenção educativa original e a realidade institucional
atual, entre a aventura vivida e a experiência organizada, abre-se um espaço de
tensão que serve de base a toda a entrevista.
O tom adotado é deliberadamente
reflexivo e irónico, não com o intuito de desvalorizar o movimento escutista,
mas sim de evidenciar as suas possíveis contradições, excessos e desvios ao
longo do tempo. Ao longo das respostas atribuídas a Baden-Powell, procuramos
recuperar os princípios fundadores — a simplicidade, a autonomia, o contacto
com a natureza e a aprendizagem através da experiência — e colocá-los em
diálogo (e, por vezes, em confronto) com a realidade moderna.
O resultado é um exercício de
reflexão não sobre aquilo que o escutismo foi ou é hoje, mas sobre o que poderá
deixar de ser caso se perca o essencial no meio do acessório.
Devido à sua extensão, dividimos em
3 “partes”, eis a primeira.
Entrevistador: Lorde Baden-Powell,
se pudesse observar o movimento escutista atual, qual seria a sua primeira
impressão?
Baden-Powell: Acho que a minha
primeira reação seria procurar as crianças. Pelo que tenho visto nos
documentos, regulamentos, planos estratégicos e grelhas de avaliação, desconfio
que ainda existam algures, embora estejam muito bem escondidas.
Entrevistador: Acha que o Escutismo
mudou muito?
Baden-Powell: Oh, imenso. No meu
tempo, um chefe levava seis rapazes para o campo e ensinava-lhes a viver. Hoje
em dia, parece que primeiro é necessário um plano anual, um projeto educativo,
três autorizações, quatro relatórios e uma avaliação de impacto.
Antigamente, acendíamos fogueiras.
Hoje, realizam-se reuniões.
Entrevistador: E quanto ao sistema
de patrulhas?
Baden-Powell: Ah, o sistema de
patrulhas... Esse pequeno pormenor que eu ingenuamente julgava ser o cerne do
método.
Vejo com satisfação que ainda é
mencionado. Frequentemente. Em documentos. Em apresentações. Em formações.
Na prática, contudo, parece ter sido
transformado numa mera sugestão.
Aparentemente, atribuir poder real
aos adolescentes é considerado demasiado arriscado.
Imagine o perigo: poderiam aprender
a liderar.
Entrevistador: Há quem diga que hoje
os dirigentes controlam demasiado.
Baden-Powell: Naturalmente. É uma
evolução lógica.
No meu tempo, o dirigente era como
um irmão mais velho.
Hoje, parece que são uma mistura de
gestor de projeto, técnico pedagógico, inspetor de segurança, assistente
administrativo e especialista em psicologia juvenil.
É notável que ainda encontrem tempo
para atar nós.
Entrevistador: E a burocracia?
Baden-Powell: Fascinante.
Quando criei o movimento, pensei que
o papel servia para fazer mapas.
Hoje, descobri que serve sobretudo
para justificar o motivo de ainda não se ter ido para o terreno.
Há unidades que passam mais tempo a
planear atividades do que a executá-las.
É uma forma muito eficiente de
evitar imprevistos. E aventuras.
Entrevistador: Fala-se muito de
inclusão e de adaptação dos métodos.
Baden-Powell: A inclusão é uma
excelente ideia. Sempre foi.
O problema começa quando, para
incluir todos, se exclui tudo o que caracterizava o escutismo. Escutismo.
Se retirarmos o risco, a autonomia,
a responsabilidade, a vida ao ar livre e a liderança entre pares, o que resta
é, sem dúvida, algo muito inclusivo.
Só não sei se isso ainda se pode
chamar Escutismo.
Entrevistador: E a relação com a
natureza?
Baden-Powell: Tenho observado que
muitos escuteiros modernos aprendem sobre a natureza através de apresentações
em PowerPoint.
É uma inovação curiosa.
No meu tempo, se queríamos estudar
árvores, íamos até elas.
Por vezes, até caíamos delas.
Era um método bastante memorável.
Entrevistador: E que opinião tem
sobre a tendência de hiperproteger os jovens?
Baden-Powell: Sempre achei
extraordinário que um rapaz só se aperceba de que consegue subir uma colina...
depois de a subir.
Hoje em dia, parece que se prefere
explicar-lhes detalhadamente a experiência, os riscos, os objetivos pedagógicos
e os critérios de sucesso antes de lhes permitir dar o primeiro passo.
É uma forma muito segura de impedir
a descoberta.
Entrevistador: Se pudesse dar um
conselho aos dirigentes de hoje, qual seria?
Baden-Powell: Menos secretária. Mais
campo.
Menos formulários. Mais fogueiras.
Menos controlo. Mais confiança.
Menos atividades para os rapazes.
Mais atividades com os rapazes.
O escutismo nunca foi uma teoria
complicada.
Juntem um pequeno grupo de amigos.
Confiemos-lhes responsabilidades.
Levem-nos para o mato.
Deixem-nos falhar, tentar novamente,
rir, cansar-se, ajudar os outros e evoluir.
O resto virá por acréscimo.
Entrevistador: E se tivesse de
resumir o estado atual do movimento numa frase?
Baden-Powell: "Diria o
seguinte: 'O Escutismo moderno corre o risco de se tornar tão bem organizado
que deixe de ser uma aventura.'"
Entrevistador: Lorde Baden-Powell,
qual é a sua opinião sobre o atual sistema de progresso pessoal?
Baden-Powell: Estou impressionado.
No meu tempo, um rapaz progredia porque queria aprender a fazer coisas.
Aprendia a cozinhar porque estava
com fome.
Aprendia orientação porque estava
perdido.
Aprendia primeiros socorros porque
alguém se magoava.
Era um sistema bastante rudimentar.
Hoje, compreendo que o verdadeiro
progresso consiste em definir objetivos, validar competências e registar
evidências.
Entrevistador: Então, não concorda
com o modelo atual?
Baden-Powell: Pelo contrário. Acho-o
extraordinariamente completo.
Tão completo, de resto, que por
vezes questiono-me sobre quando é que os rapazes têm tempo para viver as
experiências que estão a avaliar.
No meu tempo, o distintivo era
consequência da aventura.
Hoje, desconfio que a aventura se
tornou consequência do distintivo.
É uma inversão elegante.
Entrevistador: E a autoavaliação?
Baden-Powell: Excelente.
Sempre achei útil que um jovem
soubesse avaliar-se.
No entanto, nunca me ocorreu
pedir-lhe que o fizesse por escrito, com critérios e indicadores.
No meu tempo, bastava olhar para
ele.
Se conseguisse acender um fogo
debaixo de chuva, significava que estava a progredir.
Se ainda queimava o pequeno-almoço,
significava que ainda tinha margem para melhorar.
Entrevistador: Lorde Baden-Powell,
muitos dizem que o escutismo perdeu parte da sua mística. Concorda?
Baden-Powell: Receio que sim.
No meu tempo, havia símbolos,
segredos, histórias, tradições e cerimónias.
Tudo isso alimentava a imaginação.
E a imaginação é uma das grandes
forjas do carácter.
Hoje, noto um certo desconforto com
tudo o que não possa ser explicado num PowerPoint.
Entrevistador: Mas não se trata
apenas de modernização?
Baden-Powell: Talvez.
No entanto, há uma diferença entre
modernizar e dessacralizar.
Uma fogueira não é apenas combustão.
Uma promessa não é apenas um
compromisso verbal.
Uma insígnia não é apenas tecido
cosido.
São coisas pequenas, mas carregadas
de significado.
Se retirarmos o símbolo, resta
apenas o objeto.
E os objetos, por si só, raramente
inspiram.
Entrevistador: Então, a mística
continua a ser importante?
Baden-Powell: Vital.
Os jovens precisam de mistério, de
um ideal, de beleza.
Sem isso, o escutismo corre o risco
de se tornar apenas uma atividade extracurricular ao ar livre.
E isso seria um destino tristemente
eficiente.
Entrevistador: Lorde Baden-Powell,
tem-se falado muito sobre a crescente intervenção dos adultos no escutismo. É
um problema?
Baden-Powell: Bem, depende.
Se o objetivo for formar adultos
competentes na gestão de atividades para jovens, então está tudo a correr
maravilhosamente bem.
Se o objetivo for formar jovens
capazes de se governarem a si próprios, talvez haja margem para revisão.
Entrevistador: Em que sentido?
Baden-Powell: Tenho observado que
muitos acampamentos modernos são organizados em pormenor pelos adultos.
Os horários são feitos pelos
adultos.
As decisões são tomadas pelos
adultos.
Os conflitos são resolvidos pelos
adultos.
As refeições são supervisionadas
pelos adultos.
Por vezes, questiono-me se os jovens
estão lá como participantes ou como convidados.
Entrevistador: Mas não será que os
adultos garantem uma melhor qualidade?
Baden-Powell: Sem dúvida.
Um hotel também garante mais
conforto do que um acampamento.
Porém, o objetivo nunca foi o
conforto.
Foi crescimento.
E o crescimento exige espaço para
cometer erros.
O problema do adulto eficiente é que
tende a evitar o erro.
E, ao fazê-lo, muitas vezes impede a
aprendizagem.
Entrevistador: Qual seria, então, a
função ideal do dirigente?
Baden-Powell: Estar presente, mas
não dominar.
Guiar sem substituir.
Corrigir sem controlar.
É preciso ser o mínimo possível.
O melhor chefe é aquele que, passado
algum tempo, parece quase dispensável.
Infelizmente, isso vai contra o
instinto administrativo moderno.
- fim da 1ª parte de 3 -

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