segunda-feira, 28 de setembro de 2026

E SE, SEM DARMOS CONTA, ESTIVERMOS A PROTEGER DEMASIADO OS NOSSOS FILHOS?

Ser pai ou mãe é querer proteger. É querer que os nossos filhos sejam felizes, que não sofram, que não tenham medo e que nunca lhes falte nada.
Se pudéssemos, estaríamos sempre ao lado deles, prontos para evitar uma queda, resolver um problema ou afastar qualquer dificuldade.
Fazemo-lo por amor. Mas, por vezes, é precisamente esse amor que nos torna tão difícil dar-lhes espaço para crescer.
Porque há coisas que os nossos filhos só aprendem quando lhes damos a oportunidade de experimentar por si próprios. Quando os deixamos tentar, errar, sujar a roupa, enfrentar pequenos desafios e descobrir que são capazes de muito mais do que imaginavam.
E é aqui que o Escutismo pode ter um papel tão importante nas suas vidas.
Ser Escuteiro é muito mais do que vestir uma farda, ir a acampamentos ou participar em jogos e caminhadas. É fazer parte de um grupo onde se criam amizades, se partilham experiências e se aprendem lições que dificilmente se esquecem.
É aprender a dividir o que se tem, a respeitar os outros, a ouvir opiniões diferentes e a trabalhar em equipa. É perceber que nem tudo corre sempre como queremos e que, às vezes, é preciso ter paciência, encontrar soluções e voltar a tentar.
É passar uma noite longe de casa e descobrir que afinal se consegue. É preparar uma refeição, montar uma tenda, orientar-se num percurso ou ajudar um amigo que está com dificuldades.
São pequenas experiências que, vistas de fora, podem parecer simples, mas que fazem uma enorme diferença na vida de uma criança ou de um jovem.
E talvez seja essa uma das coisas mais bonitas do Escutismo: os nossos filhos crescem sem sequer se aperceberem de que estão a crescer.
Entre brincadeiras, aventuras, desafios e amizades, vão ganhando autonomia, confiança e sentido de responsabilidade. Aprendem a cuidar de si, a preocupar-se com os outros e a perceber que fazem parte de algo maior.
E, quando regressam a casa, trazem muito mais do que roupa suja e histórias para contar.
Trazem novas experiências, pequenas conquistas e aquele orgulho tão especial de quem conseguiu fazer alguma coisa pela primeira vez.
Por vezes, basta olhar para os seus olhos enquanto contam, entusiasmados, tudo o que viveram para perceber que aquela experiência valeu a pena.
Mas o Escutismo não faz crescer apenas os filhos. Também nos faz crescer a nós, pais.
Porque não é fácil deixá-los ir. Não é fácil vê-los partir para um acampamento, saber que vão dormir longe de casa ou aceitar que terão de resolver algumas dificuldades sem a nossa ajuda.
Ficamos preocupados. Perguntamo-nos se estarão bem, se terão frio, se comeram o suficiente ou se sentirão a nossa falta.
E, no entanto, quando regressam felizes, cheios de histórias e ansiosos pela próxima atividade, percebemos que aquele espaço que lhes demos era precisamente aquilo de que precisavam.
Aprendemos, pouco a pouco, que proteger os nossos filhos não significa evitar-lhes todas as dificuldades. Significa prepará-los para que saibam enfrentá-las.
E isso exige confiança. Neles, nas suas capacidades e nas pessoas que os acompanham nesta caminhada.
Um dia, os nossos filhos vão crescer. Vão tomar as suas próprias decisões, seguir os seus caminhos e enfrentar desafios nos quais já não poderemos estar sempre presentes.
Não conseguiremos evitar todas as quedas, nem resolver todos os problemas. Mas podemos ajudá-los a construir algo que levarão consigo para o resto da vida: a confiança de que são capazes de encontrar o seu próprio caminho.
É por isso que, se os vossos filhos ainda não conhecem o Escutismo, talvez valha a pena dar-lhes essa oportunidade.
Deixem-nos experimentar. Fazer novos amigos. Viver aventuras. Descobrir o mundo para lá da segurança de casa.
E depois observem.
Observem a alegria com que regressam de uma atividade, a vontade de voltar no fim de semana seguinte, as amizades que vão construindo e a confiança que começa a aparecer nas pequenas coisas do dia a dia.
Talvez descubram que aquilo que começou por ser apenas uma atividade de sábado se transformou numa das experiências mais importantes do seu crescimento.
Porque os nossos filhos precisam do nosso colo, do nosso carinho e da segurança de saber que estaremos sempre aqui para eles. Mas também precisam de espaço para arriscar, experimentar, falhar e recomeçar.
Precisam de descobrir que conseguem caminhar com os seus próprios pés, mesmo sabendo que podem contar connosco quando precisarem.
E nós, pais, precisamos de aprender a dar-lhes essa liberdade, mesmo quando o nosso primeiro impulso é protegê-los de tudo.
No fundo, é também isso que significa vê-los crescer: sentir um enorme orgulho por cada conquista, mesmo que cada uma delas os torne um bocadinho mais independentes de nós.
Porque educar também é aprender a largar a mão, sem nunca deixar de estar presente.
E talvez não haja alegria maior do que ver um filho regressar de uma aventura, com um sorriso no rosto, mil histórias para contar e aquela confiança de quem acabou de descobrir que é capaz.
Afinal, quando damos aos nossos filhos espaço para crescer, crescemos todos com eles.
TODOS, TODOS, TODOS… MAS MESMO TODOS!
Há coisas que não se explicam muito bem. Sentem-se.
O carinho que tenho pelos meus escuteiros é uma dessas coisas.
Por todos. Todos, todos, todos.
Durante grande parte da minha vida escutista, o meu caminho foi feito sobretudo com adultos. Foram muitos anos a trabalhar com dirigentes, a partilhar responsabilidades, a organizar, decidir, resolver problemas, pensar projetos e tentar, muitas vezes, fazer o melhor que sabíamos.
E gosto muito dessa parte do Escutismo. Faz parte de mim.
Mas estar mais próxima dos jovens trouxe-me uma coisa diferente. Trouxe-me outras perguntas, outros desafios e, acima de tudo, uma outra forma de olhar para o que significa ser Chefe.
Porque com eles não basta preparar uma atividade bonita ou ter tudo planeado.
É preciso estar.
Estar quando estão felizes. Estar quando estão zangados. Quando fazem barulho. Quando nos tiram do sério. Quando nos fazem rir até às lágrimas. Quando não querem participar. Quando nos surpreendem. Quando achamos que não estão a ouvir absolutamente nada… e, de repente, percebemos que afinal ouviram.
É também aprender a conhecê-los um a um.
Perceber que cada um tem o seu tempo, a sua maneira de ser, as suas inseguranças, os seus sonhos e as suas capacidades. Uns precisam de mais atenção, outros de mais espaço. Uns falam pelos cotovelos, outros dizem tudo num olhar.
E é aí que percebemos que ser Chefe é muito mais do que ensinar.
É acompanhar.
É caminhar ao lado deles durante uma pequena parte da vida. É tentar ajudá-los a crescer, sem querer escolher por eles o caminho que vão seguir.
E talvez uma das coisas mais bonitas seja vê-los mudar.
Ver aquele Lobito, Explorador, Pioneiro ou Caminheiro que chegou cheio de energia, tímido, desajeitado ou sem saber muito bem onde se encaixava… e, algum tempo depois, vê-lo mais seguro, mais autónomo, a ajudar os outros e a descobrir aquilo de que é capaz.
São pequenas coisas.
Um sorriso.
Um “Chefe, olha o que consegui fazer!”
Um abraço, tão tímido, como de inesperado.
Uma conversa no final de uma atividade.
Uma mensagem anos depois.
E são essas pequenas coisas que ficam.
Nem sempre conseguimos acompanhar todos até ao fim. Alguns seguem outros caminhos, deixam o Agrupamento, mudam de residência, crescem, fazem as suas escolhas. E é assim que deve ser.
O nosso papel nunca foi prendê-los a nós.
Foi ajudá-los a ganhar asas.
E quando partem, levamos connosco um bocadinho deles. E esperamos que eles levem também um bocadinho de nós.
Por isso, quando digo que tenho carinho pelos meus escuteiros, não é apenas uma frase bonita.
É mesmo isso.
Tenho carinho por todos. Pelos que estão. Pelos que já estiveram. Pelos que passaram rapidamente pela minha caminhada e pelos que ficaram muitos anos. Pelos fáceis e pelos difíceis. Pelos que me fizeram rir e pelos que me fizeram respirar fundo… muitas vezes.
Todos deixaram qualquer coisa.
E todos, sem exceção, fazem parte da minha história no Escutismo.
Talvez seja esta uma das maiores riquezas de ser Chefe: perceber que aquilo que damos nem sempre fica visível naquele momento. Às vezes só muitos anos depois percebemos que uma palavra, um gesto, uma atividade ou simplesmente termos estado presentes fez diferença.
E isso vale tudo.
Aos meus escuteiros, de ontem, de hoje e aos que ainda vou conhecer, no próximo, Ano Escutista que agora começa:

obrigada.
Obrigada por me desafiarem, por me ensinarem, por me fazerem crescer também.
E, sobretudo, obrigada por me deixarem caminhar convosco.
Porque, no fundo, é isso que fazemos no Escutismo.
Caminhamos juntos.
Durante um tempo.
Mas, de alguma maneira, para sempre.

Uma vez escuteiro, sempre escuteiro. 

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

O RESPEITO TAMBÉM SE APRENDE NOS PEQUENOS GESTOS

Uma reflexão sobre o trabalho dos dirigentes, o valor das pequenas atitudes e aquilo que significa viver verdadeiramente o Escutismo.

É sexta-feira à noite. Depois de um longo dia de trabalho, de tratar da família e de resolver as mil e uma coisas do quotidiano, há um dirigente sentado à mesa da cozinha a preparar a atividade do dia seguinte.

Ainda falta terminar um jogo, imprimir algumas folhas, preparar pistas e confirmar os últimos pormenores. O sono começa a apertar, mas há sempre qualquer coisa que pode ser melhorada. Afinal, no sábado, os miúdos merecem uma atividade bem preparada.

Chega o dia. Os escuteiros aparecem, o entusiasmo toma conta da sede e a atividade começa. Há brincadeiras, desafios, aprendizagens e alguns imprevistos, porque uma atividade escutista também é feita disso.

No final, quando chega a hora de arrumar, lá estão algumas das folhas preparadas na noite anterior, amachucadas, esquecidas em cima de uma mesa ou espalhadas pelo chão.

E quem as preparou não consegue deixar de sentir alguma tristeza. Não pelo papel em si, mas por tudo aquilo que está por detrás dele.

Há muito trabalho que ninguém vê

Quem está no Escutismo sabe que uma atividade não começa quando os escuteiros chegam à sede, nem termina necessariamente quando regressam a casa.

Antes de cada reunião, jogo, caminhada ou acampamento, há horas de preparação que passam despercebidas à maioria dos jovens e, muitas vezes, também às suas famílias.

Há dirigentes que aproveitam a hora de almoço para tratar de assuntos do agrupamento, trocam mensagens até tarde para acertar os últimos pormenores ou dedicam parte do fim de semana à preparação de atividades. Tudo isto enquanto procuram conciliar o Escutismo com o trabalho, a família e a vida pessoal.

Fazem-no porque gostam, porque acreditam no Movimento e, sobretudo, porque acreditam nos jovens que acompanham.

Não esperam grandes recompensas nem agradecimentos constantes. Mas isso não significa que o seu trabalho não mereça ser respeitado.

Aquela folha abandonada no chão pode representar tempo retirado ao descanso, momentos passados longe da família e o esforço de alguém que procurou proporcionar uma experiência enriquecedora.

É natural que estas situações provoquem alguma desilusão. No entanto, também nos recordam uma parte fundamental da nossa missão: educar.

São apenas miúdos? Sim, mas é também por isso que estamos aqui

As crianças e os jovens nem sempre têm consciência do trabalho que existe por detrás de uma atividade. Para muitos, os jogos simplesmente aparecem, os materiais já estão preparados e os acampamentos acontecem quase por magia.

Quando deixam uma folha para trás ou se esquecem de arrumar alguma coisa, não significa necessariamente que estejam a desrespeitar alguém. Podem estar distraídos, entusiasmados com o que vem a seguir ou simplesmente ainda não ter desenvolvido esse sentido de responsabilidade.

E é precisamente aqui que entra o nosso papel enquanto educadores.

Em vez de nos limitarmos a chamar a atenção para os papéis espalhados pelo chão, podemos aproveitar esses momentos para conversar com eles. Explicar que alguém dedicou parte do seu tempo à preparação daquele jogo, que os materiais têm custos e que aquilo que é desperdiçado poderia ser utilizado noutra atividade.

Não precisamos de grandes discursos, nem de fazer os escuteiros sentirem-se culpados pelo tempo que dedicamos ao Movimento. Precisamos de os ajudar a compreender que as suas atitudes têm consequências e que viver em comunidade implica respeitar o trabalho de todos.

O Escutismo também se vive quando a atividade acaba

Gostamos de recordar os grandes momentos escutistas: os acampamentos que ficam na memória, as caminhadas que nos levam ao limite, os jogos que nos fazem rir e as amizades que levamos para a vida.

Mas o Escutismo também acontece quando chega a hora de arrumar a sede e ninguém tem muita vontade de o fazer. Quando encontramos lixo que não fomos nós que deixámos ou quando alguém precisa de ajuda e decidimos ficar mais cinco minutos, em vez de irmos imediatamente embora.

É nestas pequenas escolhas que os valores escutistas ganham vida.

A Lei do Escuta recorda-nos que «O Escuta é útil e pratica diariamente uma boa ação» e que «O Escuta é sóbrio, económico e respeitador do bem alheio».

São princípios que devem estar presentes nas nossas atitudes quotidianas, muito para além das cerimónias em que renovamos a Promessa.

E isto também se aplica aos dirigentes.

Não podemos pedir aos jovens que cuidem dos materiais se nós próprios os deixamos espalhados, nem exigir que valorizem o trabalho dos outros quando nos esquecemos de reconhecer o contributo de quem está ao nosso lado.

Os escuteiros aprendem muito com aquilo que nos veem fazer. Por isso, o exemplo continua a ser uma das nossas ferramentas educativas mais importantes.

Talvez precisemos de os envolver mais

Uma das melhores formas de compreender o esforço dos outros é experimentar a responsabilidade de preparar alguma coisa para alguém.

E se, de vez em quando, deixássemos os nossos escuteiros organizar uma parte da atividade?

Uma patrulha poderia preparar um jogo para as restantes. Os mais velhos poderiam organizar uma atividade para os mais novos. Cada elemento teria a oportunidade de participar, assumir responsabilidades e descobrir o trabalho necessário para transformar uma ideia numa experiência partilhada.

Provavelmente, depois de passarem algum tempo a pensar nas regras, a reunir materiais e a tentar que tudo corra bem, começariam a olhar de outra forma para aquilo que os seus dirigentes fazem.

Talvez até sentissem aquela pequena desilusão quando alguém não prestasse atenção ao jogo que prepararam com tanto entusiasmo.

E essa experiência poderia ensinar-lhes algo que nenhum discurso consegue transmitir da mesma maneira.

Afinal, uma das grandes riquezas do Método Escutista é precisamente esta: aprender fazendo, experimentando, errando e assumindo responsabilidades.

O objetivo não é que os jovens se sintam em dívida para com os dirigentes, mas que aprendam a reconhecer o valor da dedicação de cada pessoa.

Um simples obrigado pode fazer a diferença

Quem é dirigente conhece aqueles dias em que tudo parece correr mal.

O jogo que demorou horas a preparar termina em dez minutos. Começa a chover precisamente quando estava prevista uma atividade ao ar livre. Falta material, surgem alterações de última hora e, quando finalmente chegamos a casa, estamos completamente esgotados.

Mas também conhecemos os momentos que nos recordam por que razão continuamos aqui.

Um Lobito que vem ter connosco, de sorriso aberto, para dizer que adorou o jogo. Um Explorador que, sem ninguém lhe pedir, fica para ajudar a arrumar. Um Pioneiro que reconhece o esforço da equipa de animação. Um Caminheiro que, anos depois, nos conta que determinada atividade o ajudou a ultrapassar uma dificuldade ou a descobrir algo sobre si próprio.

São gestos simples, mas que podem significar muito para quem dedica parte da sua vida ao voluntariado.

Também nós devemos saber agradecer aos outros dirigentes, aos pais, aos colaboradores e aos próprios escuteiros. O respeito tem de ser recíproco e deve incluir a atenção às opiniões, às dificuldades e às necessidades de cada criança e jovem.

É assim que se constrói uma comunidade educativa onde todos se sentem valorizados.

Afinal, que mundo queremos deixar?

Baden-Powell desafiou-nos a deixar o mundo um pouco melhor do que o encontrámos.

Habitualmente, associamos esse ideal a grandes projetos solidários, à proteção da natureza ou à ajuda a quem mais precisa. Mas também podemos concretizá-lo nas situações mais simples do nosso quotidiano.

Da próxima vez que terminarmos uma atividade, talvez valha a pena olhar um pouco melhor à nossa volta. Não apenas para verificar se ficou tudo arrumado, mas para perceber se estamos realmente a viver os valores que prometemos seguir.

E, se encontrarmos aquela folha amachucada no chão, em vez de nos limitarmos a apanhá-la com um suspiro de frustração, podemos aproveitar a oportunidade para ensinar algo importante.

Porque, no fundo, não estamos aqui para preparar jogos perfeitos, imprimir folhas ou organizar acampamentos sem falhas. Estamos aqui para ajudar crianças e jovens a crescer, a respeitar os outros e a tornarem-se pessoas melhores.

E se, um dia, aquele escuteiro que hoje deixa os materiais espalhados pelo chão for o primeiro a ficar para ajudar a arrumar, talvez tenhamos conseguido transmitir uma das lições mais importantes do Escutismo.

Uma lição que não estava escrita em nenhuma das folhas que preparámos na noite anterior.

A CANÇÃO DA PROMESSA

As suas raízes, a herança de Jacques Sevin e a homenagem a Baden-Powell

Uma canção que atravessa gerações

Há cânticos que não se limitam a ser cantados. Vivem na memória, despertam emoções e acompanham-nos muito para além dos momentos em que os aprendemos.

A Canção da Promessa é um desses cânticos.

Nascida no seio do escutismo católico francês, tornou-se uma das expressões musicais mais significativas do compromisso escutista. A sua história remonta a 1921, quando o Padre Jacques Sevin, jesuíta francês e um dos grandes pioneiros do escutismo católico, escreveu a letra do Chant de la Promesse, também conhecido pelas palavras Sur mon honneur — «Pela minha honra».

Sevin procurou traduzir para a vivência cristã os princípios educativos que Robert Baden-Powell havia apresentado ao mundo. Na Canção da Promessa, essa visão encontra uma expressão particularmente profunda: o compromisso assumido perante Deus, a fidelidade à Pátria, a disponibilidade para ajudar o próximo e a determinação de viver segundo a Lei do Escuta.

A composição original francesa compreende cinco estrofes, organizadas em torno desses compromissos fundamentais. A melodia, proveniente de um cântico tradicional francês de Natal, foi posteriormente trabalhada por Gustave Daumas.

Ao longo dos anos, a canção ultrapassou as fronteiras francesas, conheceu adaptações e passou a integrar o património musical de diferentes movimentos escutistas católicos.

Em Portugal, a versão que começa por «Minha promessa atende» adquiriu uma identidade própria, preservando a inspiração espiritual da composição de Sevin, embora com alterações relativamente à letra originaL.

O laço invisível da fraternidade escutista

Entoar a Canção da Promessa é muito mais do que recordar uma tradição. É unir a nossa voz à de sucessivas gerações de escuteiros que, em diferentes épocas e lugares, assumiram o compromisso de viver segundo a Lei do Escuta, servir o próximo e deixar o mundo um pouco melhor do que o encontraram.

É recordar que, independentemente da cor do lenço, da associação a que pertencemos ou da língua que falamos, existe um ideal que nos une e uma fraternidade que ultrapassa fronteiras.

Cada vez que a cantamos, renovamos simbolicamente a palavra que um dia demos. Recordamos que a Promessa não é uma fórmula destinada a ficar guardada na memória, mas um compromisso livre e consciente, que se manifesta nas nossas atitudes e nas escolhas de todos os dias.

No contexto do escutismo católico português, particularmente do Corpo Nacional de Escutas, esta canção adquire um significado espiritual especial. É uma oração de confiança, de entrega e de fidelidade, na qual o escuteiro reafirma a vontade de caminhar com Cristo e de transformar a fé em serviço.

Uma homenagem ao Fundador

Embora não tenha sido escrita especificamente como uma homenagem a Baden-Powell, a Canção da Promessa constitui uma expressão do legado que o Fundador deixou ao Movimento Escutista.

Quando Baden-Powell reuniu os jovens participantes no acampamento experimental da ilha de Brownsea, em 1907, lançou as sementes de um movimento educativo que viria a espalhar-se pelo mundo.

Jacques Sevin encontrou nesse projeto uma proposta educativa que procurou integrar na vivência da fé católica. A Canção da Promessa é uma expressão dessa ligação entre a espiritualidade cristã e os princípios fundamentais do escutismo.

Cantar a Promessa é, por isso, também recordar Baden-Powell e a sua confiança na capacidade dos jovens para construírem um mundo melhor.

É honrar o seu legado através da fidelidade à palavra dada, do sentido de responsabilidade, da fraternidade e da disponibilidade permanente para servir.

Mais do que uma homenagem feita de palavras, é uma homenagem que se concretiza na vida.

A chama que nunca se apaga

Há momentos que permanecem connosco para sempre.

Uma noite de campo. O silêncio da floresta. Uma fogueira cujas chamas iluminam os rostos dos nossos irmãos escutas. E, de repente, alguém começa a cantar a Canção da Promessa.

As vozes juntam-se, umas mais seguras, outras quase sussurradas. Por instantes, parece que o tempo deixa de existir.

Naquela fogueira estão simbolicamente presentes todos os que nos antecederam: os que nos ensinaram a fazer os primeiros nós, os que nos acompanharam nas primeiras caminhadas, os dirigentes que nos ajudaram a crescer e os irmãos escutas com quem partilhámos alegrias, dificuldades e aventuras.

É como se cada voz dissesse a Baden-Powell que a semente lançada em Brownsea continua a dar fruto.

Que o seu ideal permanece vivo nos campos, nas sedes, nas caminhadas, nas vigílias e, sobretudo, no coração de cada escuteiro que procura cumprir a sua Promessa.

Porque o verdadeiro legado do Fundador não está apenas nos livros, nas tradições ou nos símbolos que preservamos. Está na forma como vivemos, nas escolhas que fazemos e na fidelidade à palavra que um dia demos.

A palavra que demos um dia

E tu?

Quando escutas os primeiros acordes da Canção da Promessa, não sentes aquele arrepio que te faz regressar ao dia em que, de braço erguido, perante a Bandeira Nacional, o teu Agrupamento e os teus irmãos escutas, pronunciaste solenemente a tua Promessa?

Não regressam à memória os rostos, as vozes, a emoção e o orgulho daquele momento?

Talvez já tenham passado muitos anos. Talvez o lenço que então recebeste esteja hoje cuidadosamente guardado, marcado pelo tempo e pelas recordações de tantas aventuras.

Mas a palavra que deste continua a acompanhar-te.

E, nesse instante, quando a canção termina, o silêncio regressa e apenas as brasas continuam a crepitar, não sentes que aquela Promessa permanece tão viva como no primeiro dia?

É essa a verdadeira força da Canção da Promessa.

Recorda-nos que o escutismo não termina quando abandonamos o campo, guardamos a mochila ou deixamos de usar regularmente o uniforme.

Continua presente na forma como ajudamos quem precisa, na coragem de defender aquilo em que acreditamos, na honestidade das nossas decisões e na disponibilidade para servir sem esperar recompensa.

A Promessa não é apenas um momento da nossa vida escutista. É um compromisso que levamos connosco para toda a vida.

Uma vez escuteiro, sempre escuteiro.

Sempre Alerta para Servir!

Nota histórica e de autoria

Para acompanhar o texto numa publicação, num cancioneiro ou numa cerimónia, sugiro a seguinte identificação:

Canção da Promessa

Chant de la Promesse — Sur mon honneur (1921)

Letra original: Padre Jacques Sevin (1882–1951)

Melodia: De origem tradicional francesa, posteriormente trabalhada por Gustave Daumas.

Versão portuguesa: Adaptação da composição francesa, tradicionalmente atribuída ao Padre Sevin e à Associação de Guias e Escuteiros da Europa, sem identificação documental segura do primeiro tradutor.

Há ainda duas correções a ter em conta nos textos iniciais. A estrofe «Prometo neste dia, cumprir a lei» não consta da versão portuguesa habitual encontrada nos cancioneiros consultados, pelo que não deve ser apresentada como parte comprovada da letra original. Além disso, não há fundamento para atribuir a Sevin a criação da Promessa Escutista: a sua contribuição foi dar-lhe uma expressão musical cristã.

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

UMA VIDA, MIL CAMINHOS: A AVENTURA DE SER ESCUTEIRO

Há caminhos que nunca chegaremos a percorrer, aventuras que ficarão por viver e pessoas que talvez nunca venhamos a conhecer. Mas há uma certeza: o Escutismo dá-nos a oportunidade de fazer de cada dia uma aventura e de cada experiência uma história que vale a pena contar.

Às vezes, dou por mim a pensar em tudo aquilo que ainda gostaria de fazer no Escutismo. Nos lugares que gostava de conhecer, nas montanhas que ainda não subi, nos acampamentos em que gostaria de participar e nas pessoas com quem ainda não tive oportunidade de me cruzar. Penso nas noites à volta da fogueira, nas caminhadas que parecem não ter fim, nas conversas que se prolongam pela noite dentro e naquelas aventuras que, mesmo antes de acontecerem, já nos fazem sonhar.

E depois apercebo-me de uma coisa: por mais anos que passe de lenço ao pescoço, nunca vou conseguir viver tudo aquilo que gostaria.

Nunca vou conhecer todos os escuteiros com quem gostava de partilhar histórias, aprender todas as técnicas que me despertam curiosidade ou participar em todos os acampamentos que me fazem sonhar. Haverá sempre mais um trilho para descobrir, mais uma atividade a acontecer algures, mais uma oportunidade de aprender qualquer coisa nova.

E sabem que mais? Talvez seja precisamente isso que torna o Escutismo tão especial. A sensação de que há sempre algo por descobrir, alguém com quem aprender e uma nova aventura à nossa espera.

O mundo não cabe numa mochila

Quem já preparou uma mochila para um acampamento sabe bem como é. Começamos por querer levar tudo. Afinal, nunca se sabe quando é que aquela peça de roupa, aquele utensílio ou aquele objeto nos pode fazer falta. Mas chega uma altura em que temos de fazer escolhas. A mochila tem um limite e, se queremos chegar ao fim da caminhada, não podemos carregar o mundo inteiro às costas.

Com a vida acontece mais ou menos o mesmo.

Por muito que queiramos, não podemos estar em todo o lado, aceitar todos os desafios ou participar em todas as atividades. Há fins de semana em que temos de escolher entre dois acampamentos, encontros a que não conseguimos ir e aventuras que ficam adiadas para uma próxima oportunidade.

E, por vezes, custa. Sobretudo quando vemos as fotografias dos outros, ouvimos as histórias de quem lá esteve e pensamos que também gostaríamos de ter feito parte daquela experiência.

Mas, com o tempo, vamos percebendo que não é preciso estar em todo o lado para viver verdadeiramente o Escutismo.

Há momentos aparentemente simples que acabam por ficar connosco para sempre. Uma noite de campo em que quase ninguém conseguiu dormir de tanto rir. Uma caminhada em que alguém esteve prestes a desistir, mas acabou por chegar ao fim com a ajuda dos companheiros. Um jantar improvisado que correu pessimamente, mas que ainda hoje dá conversa quando nos voltamos a encontrar.

São estas pequenas histórias, muitas vezes inesperadas, que acabam por fazer parte de nós.

E talvez seja essa uma das grandes lições do Escutismo: não importa tanto a quantidade de aventuras que vivemos, mas aquilo que levamos de cada uma delas.

Ser escuteiro é nunca deixar de aprender

Uma das coisas de que mais gosto no Escutismo é a possibilidade de experimentar um pouco de tudo.

Num acampamento podemos ser cozinheiros, no seguinte estamos a construir uma mesa de campo e, quando damos por nós, estamos a tentar orientar uma equipa no meio de um trilho que parecia muito mais simples quando o vimos no mapa.

Há dias em que tudo corre bem e nos sentimos capazes de enfrentar qualquer desafio. Noutros, descobrimos que afinal não sabemos fazer um nó tão bem como pensávamos, que nos esquecemos de algum material importante ou que aquela construção que parecia perfeita na nossa cabeça não funciona assim tão bem na realidade.

E ainda bem que é assim.

Porque o Escutismo também se faz de tentativas falhadas, de erros que nos ensinam e de companheiros que aparecem no momento certo para nos dar uma ajuda.

Ao longo dos anos, vamos descobrindo que não precisamos de saber fazer tudo. Precisamos, isso sim, de manter a curiosidade, de não ter vergonha de perguntar e de estar disponíveis para aprender com os outros.

Há sempre alguém que sabe fazer melhor aquele nó, que conhece uma forma diferente de resolver um problema ou que tem uma experiência para partilhar. E, muitas vezes, são precisamente as pessoas de quem menos esperamos que nos acabam por ensinar as maiores lições.

Também nós, quase sem darmos conta, vamos passando aquilo que sabemos aos que chegam depois de nós.

Um dia somos nós a precisar de ajuda para montar a tenda. Anos mais tarde, estamos a explicar a um escuteiro mais novo como o fazer. E é nesses pequenos momentos que percebemos como crescemos.

A maior aventura é aquela que partilhamos

Quando pensamos nas grandes aventuras escutistas, é natural lembrarmo-nos dos acampamentos nacionais, das atividades internacionais, das grandes caminhadas ou daqueles projetos que exigiram meses de preparação.

São experiências que nos marcam e que, naturalmente, gostaríamos de viver tantas vezes quanto possível.

Mas, quando olho para trás, apercebo-me de que muitas das melhores recordações que guardo do Escutismo não estão necessariamente ligadas aos lugares por onde passei. Estão, sobretudo, às pessoas com quem partilhei o caminho.

Aos amigos que me acompanharam quando a mochila parecia pesar o dobro. Àqueles que conseguiram fazer-me rir depois de um dia particularmente difícil. Aos companheiros que ficaram acordados comigo a conversar junto à fogueira, mesmo quando sabíamos que teríamos de nos levantar cedo na manhã seguinte.

E também àqueles que, em determinado momento, precisaram de nós.

Porque há uma satisfação muito especial em perceber que fizemos a diferença na vida de alguém. Que uma palavra de incentivo ajudou um companheiro a continuar, que uma pequena ajuda tornou o dia de outra pessoa mais fácil ou que o nosso exemplo despertou num escuteiro mais novo a vontade de experimentar algo novo.

Nem sempre temos consciência do impacto que deixamos nos outros. Muitas vezes, são gestos tão simples que nem nos lembramos deles. Mas quem os recebeu pode guardá-los durante anos.

É por isso que acredito que algumas das nossas maiores aventuras não se medem em quilómetros percorridos, nem em noites passadas em campo, mas nas amizades que construímos e nas pessoas que ajudámos a crescer.

Há etapas que não se repetem

Há uma coisa que só começamos a compreender verdadeiramente à medida que os anos passam: o tempo no Escutismo parece nunca ser suficiente.

Quando somos mais novos, temos a sensação de que haverá sempre outro acampamento, outra atividade, outro verão e mais uma oportunidade para repetir aquela aventura de que tanto gostámos.

Mas os anos passam. Mudamos de secção, de equipa, de responsabilidades. Alguns amigos seguem outros caminhos, outros deixam o movimento e há dirigentes que, depois de nos acompanharem durante tantos anos, acabam por passar o testemunho a quem vem a seguir.

De repente, damos por nós a recordar um acampamento de há dez ou vinte anos como se tivesse acontecido ontem.

Lembramo-nos de pormenores que julgávamos esquecidos. Da chuva que entrou pela tenda, das canções que cantávamos à volta da fogueira, daquela caminhada interminável ou de uma conversa que, sem sabermos muito bem porquê, nunca mais nos saiu da memória.

E sentimos saudades.

Não apenas das atividades, mas das pessoas que éramos naquela altura, da forma como olhávamos para o mundo e da sensação de que tínhamos uma vida inteira pela frente.

Talvez por isso seja tão importante aproveitar cada etapa enquanto a estamos a viver.

Não estar sempre à espera da próxima grande atividade, da próxima insígnia ou da próxima aventura. Saber desfrutar também dos pequenos momentos, das reuniões de rotina, dos preparativos que parecem não ter fim e até daqueles dias em que nada corre como estava planeado.

Porque, um dia, são precisamente esses momentos que vamos querer recordar.

E se não conseguir viver todas as aventuras?

É uma pergunta que, de vez em quando, me ocorre.

E se nunca conseguir fazer aquela grande caminhada com que sonho? E se não tiver oportunidade de participar naquele acampamento internacional? E se houver lugares que nunca venha a conhecer, pessoas com quem nunca me cruze e experiências que acabem por ficar apenas na minha imaginação?

Provavelmente, será assim.

A vida tem os seus compromissos, as suas prioridades e as suas limitações. Nem sempre temos tempo, disponibilidade ou condições para fazer tudo aquilo que gostaríamos.

Mas isso não significa que devamos deixar de sonhar.

Quero continuar a olhar para um mapa e a imaginar os caminhos que ainda posso percorrer. Quero continuar a sentir aquele entusiasmo que antecede um acampamento, a curiosidade de conhecer novos escuteiros e a vontade de experimentar coisas que nunca fiz.

Quero continuar a aprender, mesmo quando achar que já sei o suficiente. A aceitar desafios, mesmo quando me obrigarem a sair da minha zona de conforto. E, acima de tudo, quero continuar a encontrar no Escutismo razões para crescer e oportunidades para servir.

Talvez nunca consiga viver todas as aventuras com que sonho. Mas não quero deixar passar aquelas que estão ao meu alcance por estar demasiado ocupado a pensar nas que me faltam.

Uma vida, mil caminhos

No fundo, aquilo que desejo é bastante simples: chegar ao fim desta caminhada com a sensação de que aproveitei verdadeiramente o tempo que tive.

Não preciso de ter participado em todos os grandes acampamentos, de conhecer todos os trilhos ou de ter uma coleção interminável de insígnias. Gostava, isso sim, de olhar para trás e recordar as pessoas com quem partilhei bons momentos, os desafios que consegui superar e as ocasiões em que tive a oportunidade de ajudar alguém.

Gostava de continuar a ter histórias para contar, mas, sobretudo, de ter pessoas com quem as recordar.

E gostava que, um dia, quando alguém me perguntasse o que significou o Escutismo na minha vida, não tivesse de pensar muito para responder.

Que pudesse falar das amizades, das aventuras, dos erros, das aprendizagens e daqueles momentos em que uma simples atividade acabou por me ensinar muito mais do que alguma vez imaginei.

Não sei quantos trilhos ainda terei oportunidade de percorrer, quantos acampamentos me esperam ou quantas noites passarei à volta de uma fogueira. Também não sei quantas pessoas se cruzarão ainda comigo nesta caminhada.

Sei apenas que quero continuar a partir com a mesma curiosidade de sempre, com vontade de descobrir o que está para lá do próximo monte e com a certeza de que, por mais caminhos que percorra, haverá sempre algo novo à minha espera.

Jamais poderei viver todas as vidas que gostaria de viver, nem todas as aventuras que gostaria de experimentar. Mas posso fazer com que esta vida, a minha, seja feita de caminhos que valham a pena percorrer, de pessoas que valham a pena conhecer e de momentos que valham a pena recordar.

E, enquanto tiver vontade de colocar a mochila às costas, apertar o lenço e partir para mais uma aventura, sei que ainda tenho muito Escutismo pela frente.

Porque, no final, não são os quilómetros que contam, nem o número de acampamentos em que participámos. São as pessoas com quem caminhámos, aquilo que aprendemos e o que deixámos de nós pelo caminho.

Sempre Alerta para Servir!

terça-feira, 22 de setembro de 2026

QUANDO O DIRIGENTE TAMBÉM DIZ: "NÃO SEI"

“Enganei-me.”
“Preciso de ajuda.”
“Não tenho todas as respostas.”

Serão estas frases compatíveis com o papel de um dirigente escutista?

Durante muito tempo, talvez tenhamos associado liderança à ideia de segurança absoluta: o dirigente que sabe o que fazer, que tem sempre uma resposta pronta, que consegue resolver qualquer problema e que nunca demonstra dúvidas. Mas será realmente isso que os nossos jovens precisam de encontrar em nós?

Um dirigente não é alguém que sabe tudo. É alguém que acompanha, aprende, orienta e cresce com os outros.

Reconhecer um erro não nos torna menos dirigentes. Pedir ajuda não significa falta de capacidade. Admitir que não sabemos pode, muitas vezes, ser o primeiro passo para encontrarmos juntos uma resposta.

A coragem de mostrar vulnerabilidade

Mostrar vulnerabilidade exige coragem. Significa deixar cair, ainda que por momentos, a imagem de quem tem sempre tudo sob controlo.

Quando um dirigente consegue dizer “enganei-me”, transmite uma mensagem poderosa: errar faz parte do caminho e assumir a responsabilidade é uma forma de crescer.

Quando diz “preciso de ajuda”, mostra que ninguém caminha sozinho — uma ideia profundamente ligada ao espírito escutista.

E quando admite “não tenho todas as respostas”, abre espaço para que outros pensem, contribuam e descubram soluções.

É precisamente aí que a liderança pode ganhar uma dimensão diferente: em vez de estar centrada em ter todas as respostas, passa a estar centrada em criar condições para que todos possam participar na procura das respostas.

O exemplo que ensinamos sem palavras

No Escutismo, educamos sobretudo através do exemplo.

Se queremos que os nossos jovens tenham coragem para experimentar, precisamos de lhes mostrar que também podemos experimentar. Se queremos que aceitem os seus erros, temos de ser capazes de reconhecer os nossos. Se queremos que peçam ajuda quando precisam, talvez seja importante que nos vejam fazer o mesmo.

Um jovem que vê o seu dirigente dizer “não sei, vamos descobrir” aprende algo que nenhum discurso consegue ensinar da mesma forma: não é preciso saber tudo para continuar a avançar.

E talvez seja esta uma das formas mais bonitas de exercer liderança: não estar sempre à frente com todas as respostas, mas, por vezes, caminhar ao lado, fazer perguntas e descobrir em conjunto.

Vulnerabilidade não é fraqueza

Ser vulnerável não significa deixar de assumir responsabilidades, evitar decisões ou transferir os problemas para os outros.

Significa reconhecer os próprios limites sem deixar de procurar soluções.

Um dirigente pode dizer “não sei” e, logo depois, acrescentar:

“Mas vou procurar saber.”

Pode dizer:

“Enganei-me, e vou corrigir.”

Ou simplesmente:

“Preciso de ajuda. Quem me acompanha?”

Estas frases não diminuem a liderança. Podem torná-la mais humana, mais próxima e mais confiável.

Porque, no final, talvez os nossos jovens não precisem de dirigentes perfeitos.

Precisam de adultos verdadeiros, capazes de aprender, reconhecer erros, pedir ajuda, escutar e continuar a crescer.

E talvez um dos maiores gestos de confiança que podemos oferecer a uma equipa seja precisamente este:

ter a coragem de dizer “não tenho todas as respostas”.

Porque liderar também é aprender. E, no Escutismo, ninguém cresce sozinho.

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

ENTRE O ACOLHIMENTO E O TESTEMUNHO

No Escutismo, aprendemos desde cedo que ninguém caminha sozinho.

Um Agrupamento é feito de pessoas. Pessoas com histórias bonitas, histórias difíceis, famílias diferentes, alegrias, perdas, erros, recomeços e, naturalmente, também fragilidades.

Os dirigentes não são exceção.

Também eles têm as suas histórias. Alguns passaram por um divórcio. Outros enfrentam dificuldades familiares. Outros atravessam momentos de afastamento ou de procura na sua relação com a Igreja. E isso não os torna menos humanos, nem deve ser motivo para os afastar ou humilhar.

Mas, sendo um Agrupamento de Escutismo Católico, há uma pergunta que não podemos evitar:

Como acolher cada pessoa na sua realidade e, ao mesmo tempo, continuar a oferecer aos jovens um verdadeiro testemunho cristão?

Talvez a resposta não seja simples. E talvez seja precisamente por isso que devemos falar dela com serenidade.

Ninguém é chamado por ser perfeito

Um dirigente não é um santo acabado.

É alguém que também está a fazer caminho.

Pode ter dúvidas. Pode ter cometido erros. Pode ter passado por situações que nunca imaginou viver. Pode carregar feridas que os outros desconhecem.

E talvez seja importante que os nossos jovens percebam isso.

A fé cristã não é a história de pessoas perfeitas. É a história de pessoas que procuram Deus, que caem, que se levantam e que voltam a caminhar.

Por isso, um dirigente divorciado não deve ser automaticamente olhado como alguém que deixou de ter lugar na comunidade escutista.

A sua história merece ser conhecida, respeitada e acompanhada.

Mas o testemunho também conta

Ao mesmo tempo, não podemos esquecer que ser dirigente é aceitar uma responsabilidade perante os jovens.

Eles olham para nós.

Às vezes mais do que imaginamos.

Reparam se vamos à Missa. Reparam se rezamos. Reparam na maneira como tratamos os outros. Reparam se aquilo que dizemos nas atividades corresponde àquilo que fazemos na nossa vida.

Não estão à procura de dirigentes perfeitos.

Estão à procura de adultos em quem possam confiar.

E é aqui que a questão do testemunho se torna importante.

Não basta dizer aos jovens que a Eucaristia é importante. É preciso, tanto quanto possível, que eles nos vejam viver essa importância.

Não basta falar de perdão. É preciso que nos vejam perdoar.

Não basta falar de serviço. É preciso que nos vejam servir.

Não basta falar de fé. É preciso que percebam que a nossa própria vida procura ser iluminada por essa fé.

E quando a vida não é simples?

É precisamente aqui que precisamos de mais humanidade.

A situação de cada dirigente pode ser diferente. Um divórcio pode ter acontecido há muitos anos. Pode haver filhos envolvidos. Pode existir uma nova relação. Pode haver sofrimento, arrependimento, esperança ou simplesmente uma longa caminhada de reconstrução pessoal.

Não cabe aos outros dirigentes fazer julgamentos sobre a vida dessa pessoa.

A Igreja tem uma orientação própria e dispõe de acompanhamento pastoral precisamente para estas situações.

O importante é que o Agrupamento não transforme a fragilidade de alguém numa arma contra essa pessoa.

Mas também não deve fingir que a questão não existe.

Acolher não significa dizer que tudo é indiferente.

Acompanhar não significa abandonar aquilo em que acreditamos.

E falar de coerência cristã não significa condenar ninguém.

Talvez seja aqui que precisamos de conversar mais

Por vezes, temos medo de falar destes assuntos.

Tememos magoar alguém. Tememos criar conflitos. Tememos parecer demasiado exigentes ou, pelo contrário, demasiado permissivos.

E acabamos por não falar.

Mas uma comunidade saudável precisa de conseguir conversar sobre estas coisas.

Com respeito.

Sem apontar dedos.

Sem criar “bons” e “maus” cristãos.

Sem transformar situações pessoais em motivos de exclusão.

E, sobretudo, sem esquecer os jovens.

Porque eles também merecem adultos que levem a sério aquilo que lhes ensinam.

O que esperamos de um dirigente?

Talvez não devêssemos esperar um dirigente sem passado, sem problemas ou sem fragilidades.

Talvez devêssemos esperar alguém que seja capaz de dizer:

“Esta é a minha história. Não é perfeita. Mas continuo a procurar fazer caminho, continuo a procurar Deus e continuo disponível para aprender.”

Isso também é testemunho.

Um dirigente pode ensinar muito aos jovens quando mostra que a vida nem sempre corre como planeámos e que, mesmo assim, podemos procurar recomeçar.

Mas há uma condição essencial: que esse caminho seja vivido com verdade.

Que exista vontade de crescer.

Que exista abertura para ser acompanhado.

Que exista respeito pela Igreja que se escolheu servir.

E que exista consciência de que, ao colocarmos o lenço, não estamos apenas a assumir tarefas. Estamos também a aceitar ser referência para alguém.

No fundo, é uma questão de coerência

Talvez a questão não seja perguntar simplesmente:

“Pode um dirigente divorciado continuar a ser dirigente?”

A pergunta talvez deva ser mais profunda:

“Como pode este dirigente viver a sua situação concreta de forma coerente com a missão educativa e cristã que assumiu?”

Essa é uma pergunta que merece ser feita com respeito e, muitas vezes, em diálogo com o Assistente de Agrupamento, o pároco e a própria pessoa.

Porque o Escutismo Católico não deve ser uma comunidade de pessoas perfeitas.

Deve ser uma comunidade de pessoas que procuram caminhar.

E caminhar significa, algumas vezes, parar, reconhecer que nos desviámos, pedir ajuda e escolher novamente o caminho.

Acolher. Acompanhar. Corrigir quando necessário. Perdoar. Recomeçar. E, acima de tudo, procurar testemunhar Cristo com a própria vida.

Talvez seja isso que significa, verdadeiramente, ser uma comunidade escutista e cristã.