SANTOS À PORTA DE CASA NÃO FAZEM MILAGRES!
Sem querer cair na tentação de generalizar, lembrei-me de uma conversa recente com um amigo de longa data que é escuteiro. Ele, que atualmente ocupa um cargo de direção, partilhou comigo os desafios com que se tem deparado no seu agrupamento, onde, por razões naturais, se rodeou de pessoas conhecidas: amigos, antigos companheiros de secção ou pessoas com quem criou laços fortes ao longo do tempo.
À partida, parecia uma combinação perfeita, pois conhecia os percursos, as competências e as motivações de cada um. No entanto, com o tempo, apercebeu-se de que a proximidade nem sempre é sinónimo de eficácia ou equilíbrio, principalmente quando se torna difícil distinguir a amizade pessoal da liderança educativa.
Ao recordar esta conversa, pus-me a pensar: quantas vezes já vivi ou observei situações semelhantes? A verdade é que, no seio do movimento escutista, onde o ambiente é, por natureza, familiar e acolhedor, as fronteiras entre a amizade e a responsabilidade educativa nem sempre estão bem definidas.
Não se trata de apontar dedos ou atribuir culpas. Acontece que, em determinado momento, alguém acaba por confundir os papéis: ou há um desinvestimento no compromisso associativo; ou há um excesso de informalidade nas decisões; ou há uma dificuldade em exercer autoridade e tomar decisões impopulares; ou há uma expectativa de lealdade que ultrapassa a exigência pedagógica.
O meu amigo confessava que, atualmente, seria mais rigoroso na forma como distribuía as responsabilidades na sua equipa. Não se trata de se afastar dos amigos, mas de procurar equilibrar afinidades com competência e clareza de papéis. Perguntava-me: "Como posso exercer liderança sem magoar alguém de quem gosto?"
Na altura, não soube dar-lhe uma resposta definitiva. No entanto, acredito que tudo começa na forma como lideramos. Por vezes, o problema está exatamente aí: ser demasiado amigo e demasiado pouco dirigente.
Claro que é desejável manter um ambiente de fraternidade, boa disposição e entreajuda, pois é isso que nos distingue. No entanto, como também se costuma dizer: "Trabalho é trabalho, escutismo é escutismo" (se me permitem a adaptação). Há objetivos educativos a alcançar, compromissos a cumprir e jovens que esperam coerência, inspiração e exemplo da nossa parte.
Por conseguinte, o primeiro passo poderá passar por avaliar, em equipa e de forma transparente, o desempenho de cada um. É possível que o dirigente em causa nem tenha noção de que está a gerar um desequilíbrio entre afetos e missão. Cabe ao responsável máximo ser claro nos sinais e honesto no seu descontentamento, sem deixar de ser fraterno.
Esta reflexão levou-me a alargar a perspetiva: como gerimos relações próximas dentro de uma estrutura que exige tanto compromisso?
E se tivermos de escolher entre manter alguém próximo, mas que não está alinhado connosco, ou proteger a saúde e o rumo do agrupamento?
Conseguimos recrutar e colaborar com amigos sem comprometer o essencial?
Como podemos salvaguardar um projeto educativo construído com o coração, mas que precisa da razão para avançar?


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