ENTREVISTA IMPOSSÍVEL PARTE 2 DE #3
Baden-Powell: Em primeiro lugar, devo dizer que não sou contra a convivência entre rapazes e raparigas. A civilização assenta largamente nesse princípio.
O que me intriga é a convicção moderna de que, por pertencerem à mesma espécie, ambos devem funcionar da mesma forma.
Entrevistador: Está a sugerir que existem diferenças?
Baden-Powell: Sempre observei algumas.
Por exemplo, um grupo de rapazes com catorze anos, se forem abandonados num bosque, tende a organizar-se em torno de desafios absurdos e perigosos.
Um grupo de raparigas da mesma idade tende a organizar-se de forma diferente.
Ambos os comportamentos são perfeitamente válidos.
O erro está em fingir que não há diferenças e depois admirar-se com os resultados.
Entrevistador: Então, é contra patrulhas mistas?
Baden-Powell: Não necessariamente.
Sou contra qualquer sistema imposto em nome de uma teoria sem ter em conta as inclinações naturais.
No meu tempo, observávamos os jovens e adaptávamos o método à realidade.
Hoje, por vezes, parece que se constrói a realidade à volta do método.
É intelectualmente elegante, mas biologicamente exaustivo.
Entrevistador: E qual seria o seu princípio?
Baden-Powell: É muito simples.
Deixem os jovens criar laços onde naturalmente os criam.
E intervenham o mínimo possível.
A amizade espontânea continua a ser uma pedagogia subestimada.
Entrevistador: Lorde Baden-Powell, faz ainda sentido o uniforme?
Baden-Powell: Naturalmente.
Sempre achei curioso que se discuta tanto o uniforme, precisamente numa época em que todos vestem uniformes invisíveis.
No meu tempo, chamávamos-lhes "roupas".
Hoje, chamam-lhes "tendências".
Entrevistador: Mas há quem diga que o uniforme está ultrapassado.
Baden-Powell: A honra, a cortesia e a pontualidade também o são.
No entanto, continuam a ser úteis.
O uniforme nunca foi uma questão de moda.
É um sinal visível de pertença.
É uma lembrança constante de que o indivíduo faz parte de algo maior.
Entrevistador: E a informalidade atual?
Baden-Powell: Compreendo-a.
Tudo o que exige disciplina tende a parecer pesado.
No entanto, a verdade é que, quando o uniforme se torna opcional, a identidade também o é.
E um movimento sem sinais visíveis de si próprio começa, lentamente, a esquecer-se de quem é.
Entrevistador: Então, o lenço é importante?
Baden-Powell: Mais do que parece.
Um rapaz que veste algo com orgulho acaba muitas vezes por querer merecê-lo.
É uma pequena vaidade com excelentes efeitos morais.
Entrevistador: Lorde Baden-Powell, atualmente, muitos jovens parecem menos atraídos pelo escutismo. Porquê?
Baden-Powell: Talvez porque tentamos competir no mercado errado.
O Escutismo nunca foi entretenimento.
Era aventura.
E há uma diferença profunda.
O entretenimento é algo que se consome.
A aventura é algo que se conquista.
Entrevistador: Mas os jovens não precisam de atividades atraentes?
Baden-Powell: Certamente.
Mas atraentes para quê?
Hoje em dia, vejo atividades concebidas para manter os jovens ocupados, impressionados e constantemente estimulados.
É um esforço admirável.
No entanto, o objetivo nunca foi evitar o tédio.
Foi formar caráter.
Entrevistador: Então, divertir-se não basta?
Baden-Powell: Divertir-se é excelente.
Porém, o Escutismo não foi criado para entreter os jovens.
Foi criado para os desafiar.
Uma caminhada difícil, uma noite fria, uma refeição falhada, uma responsabilidade real...
Tudo isto é muito mais do que vinte jogos brilhantes preparados por adultos.
Entrevistador: E quais são os riscos do entretenimento?
Baden-Powell: O risco é simples.
Se habituarmos um jovem a receber estímulos constantes, ele deixará de procurar significado.
E o Escutismo, no fundo, sempre foi uma escola de significado.
Não de distração.
Entrevistador: Como resumiria isso?
Baden-Powell: "Muito simplesmente: se o rapaz regressar a casa apenas divertido, falhámos metade do trabalho.
Se regressar cansado, orgulhoso e um pouco transformado, então talvez tenhamos acertado."

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