AS IDEIAS NÃO TÊM CARGOS NEM IDADE
Há uma ideia que o Escutismo conhece bem: as melhores aprendizagens acontecem quando somos chamados a participar, a assumir responsabilidades e a fazer.
É assim que aprendemos a trabalhar em equipa, a tomar
decisões, a assumir compromissos e a descobrir que cada um de nós pode fazer a
diferença. É também assim que o Movimento cresce e se renova.
A correta aplicação do Método Escutista não depende
apenas da existência de boas sedes, campos, equipamentos ou materiais. Esses
recursos são importantes, mas, por si só, não fazem Escutismo. O que
verdadeiramente dá vida ao Método são pessoas disponíveis, motivadas e
comprometidas com a missão de educar os jovens.
São os dirigentes que criam condições para que os jovens
tenham espaço para experimentar, decidir, errar, aprender e crescer. São as
equipas que transformam ideias em projetos. São os agrupamentos, as regiões e
as estruturas associativas que dão corpo a uma comunidade que procura,
continuamente, fazer melhor.
Por isso, há uma afirmação que merece ser repetida:
“As ideias não têm cargos nem idade.”
Uma boa ideia não se torna melhor por vir de alguém que
ocupa um determinado cargo. E uma ideia não deve ser desvalorizada por vir de
alguém mais jovem, de alguém que acabou de chegar ou de alguém que não tem
responsabilidade formal na estrutura.
No Escutismo, escutar é também uma forma de servir.
Cada escuteiro, cada dirigente e cada dirigente de estrutura
pode contribuir para melhorar a forma como fazemos Escutismo. A experiência
acumulada é fundamental e deve ser valorizada. Mas a experiência não pode
transformar-se numa barreira à mudança. Ao conhecimento que vem do caminho
percorrido precisamos de juntar a criatividade de quem olha para o futuro.
Precisamos de cultivar a capacidade de perguntar:
E se fizéssemos de outra maneira?
A mudança não precisa de ser decretada
Um Movimento educativo e associativo não pode depender
exclusivamente de decisões tomadas nos níveis superiores da estrutura. Muitas
das mudanças que verdadeiramente transformam o Escutismo começam muito mais
perto do terreno.
Nascem numa Patrulha que encontra uma nova forma de
trabalhar.
Numa Equipa de Pioneiros que decide experimentar.
Num Clã que procura responder a uma necessidade da comunidade.
Numa Unidade que adapta uma atividade às características dos seus jovens.
Num Agrupamento que encontra uma nova forma de envolver as famílias.
Numa equipa de dirigentes que tem a coragem de questionar uma prática que
deixou de responder aos desafios atuais.
É aí, no quotidiano escutista, que muitas vezes começa a
inovação.
Não precisamos de esperar que a mudança seja decretada
para começar a transformar.
Precisamos, isso sim, de criar uma cultura em que
experimentar seja possível, em que as boas práticas sejam partilhadas e em que
os erros sejam encarados como oportunidades de aprendizagem.
Modernizar sem perder a identidade
Falar de modernização no Escutismo não significa correr
atrás de todas as novidades nem abandonar aquilo que nos define.
Modernizar é, antes de mais, saber distinguir entre a
essência e as formas através das quais a concretizamos.
O Método Escutista mantém uma enorme atualidade porque
assenta em princípios profundamente humanos: a vida em pequenos grupos, a
responsabilidade progressiva, o aprender fazendo, a relação com a Natureza, o
compromisso com a comunidade, o serviço e o protagonismo dos jovens.
Mas os jovens de hoje vivem num mundo diferente daquele em
que o nosso Movimento nasceu.
Os seus desafios são diferentes.
As suas formas de comunicar são diferentes.
As suas expectativas são diferentes.
A sociedade à sua volta também mudou.
Cabe-nos, por isso, encontrar novas formas de viver os
mesmos princípios, sem perder a identidade e a riqueza do Escutismo.
Como em tantas outras dimensões da nossa pedagogia, também
aqui importa aprender fazendo.
Experimentar. Avaliar. Corrigir. Voltar a experimentar.
As pessoas são o verdadeiro recurso
É fácil associar o crescimento de uma organização à
quantidade de recursos de que dispõe. Uma sede maior, mais equipamento,
melhores condições logísticas ou mais meios financeiros podem criar
oportunidades importantes.
Mas nenhum desses recursos substitui uma equipa motivada.
As estruturas escutistas mais fortes não são necessariamente
aquelas que possuem mais recursos ou os equipamentos mais sofisticados. São
aquelas que conseguem mobilizar pessoas em torno de uma missão comum,
criar confiança, distribuir responsabilidades e manter vivo o sentido de
pertença.
No fundo, o nosso maior recurso continua a ser humano.
São as pessoas que fazem acontecer.
É por isso que investir em dirigentes, em formação, em
acompanhamento, em trabalho de equipa e em espaços de participação não é um
complemento da missão escutista. É parte essencial dessa missão.
Liderança não é apenas ocupar um cargo
Também precisamos de repensar a forma como entendemos a
liderança no Escutismo.
Liderar não é apenas coordenar uma equipa, presidir a uma
estrutura ou tomar decisões. Liderar é servir, mobilizar, escutar, criar
condições e ajudar outros a crescer.
E essa liderança pode — e deve — existir em todos os níveis
do Movimento.
Na Patrulha.
Na Equipa.
Na Unidade.
No Agrupamento.
Na Região.
Nas estruturas associativas.
Precisamos de líderes capazes de escutar antes de decidir,
de envolver antes de impor e de confiar antes de controlar.
Líderes capazes de reconhecer que dar responsabilidade aos
outros não diminui a sua própria importância. Pelo contrário: uma liderança
escutista mede-se também pela capacidade de fazer crescer novos líderes.
É aqui que a experiência dos dirigentes se encontra com a
energia e a criatividade dos mais jovens.
Dar espaço ao “desassossego”
Um Movimento educativo não pode ter medo das perguntas.
Precisamos de espaço para a curiosidade, para a criatividade
e para aquilo a que poderíamos chamar “desassossego intelectual”: a
vontade saudável de não aceitar automaticamente que “sempre se fez assim”.
Perguntar não é desvalorizar o passado.
Questionar não é desrespeitar quem nos antecedeu.
Experimentar não é rejeitar a tradição.
Pelo contrário. É levar a sério a responsabilidade de
continuar a construir o Movimento.
Baden-Powell não nos deixou um método para ser simplesmente
repetido. Deixou-nos uma proposta educativa assente na observação, na
experiência, na autonomia e na capacidade de aprender fazendo.
Talvez seja essa uma das razões pelas quais o Escutismo
continua a ter tanto para oferecer: porque nos desafia a olhar para a
realidade, agir sobre ela e aprender com aquilo que fazemos.
A mudança começa em cada um de nós
A transformação do Escutismo não acontecerá apenas através
de novos regulamentos, na atualiazação de programas educativos, novas
estruturas ou novas ferramentas.
A transformação acontece quando alguém decide escutar uma
ideia que nunca tinha considerado.
Quando um dirigente confia mais num jovem.
Quando uma equipa aceita experimentar uma metodologia
diferente.
Quando um agrupamento partilha uma prática que funcionou.
Quando alguém tem coragem de dizer:
“Talvez possamos fazer melhor.”
É nesse momento que começa a mudança.
Por isso, não esperemos que alguém nos diga quando é a
altura certa para transformar.
Observemos. Escutemos. Experimentemos. Avaliemos.
Partilhemos.
E façamo-lo juntos.
Porque no Escutismo ninguém deve ser apenas espectador da
mudança.
Cada um de nós pode ser parte ativa da construção do
Movimento que queremos deixar às próximas gerações.
No final, talvez a pergunta mais importante não seja “Quem
tem autoridade para propor uma mudança?”, mas antes:
“Que podemos fazer, juntos, para que o Escutismo continue
a cumprir a sua missão?”
As respostas podem vir de qualquer lugar.
De qualquer secção.
De qualquer agrupamento.
De qualquer equipa.
De qualquer dirigente.
De qualquer jovem.
Porque, no Escutismo, as ideias não têm cargos nem idade.
E é precisamente por isso que temos de lhes dar espaço para
nascer, crescer e transformar.





