LOBITISMO NÃO É ESCUTISMO EM PONTO PEQUENO
Há uma frase que, de vez em quando, ouvimos no Escutismo e que merece alguma reflexão:
“Os Lobitos são os mais pequenos, por isso fazem uma versão mais simples do que fazem os Exploradores.”
Parece lógico. Mas será mesmo assim?
Talvez não.
Os Lobitos não são Exploradores mais pequenos. São Lobitos.
E esta diferença, que pode parecer apenas uma questão de palavras, muda muito a forma como olhamos para uma Alcateia.
Uma criança não é um adulto em miniatura
Quem já esteve algum tempo com crianças sabe disso.
Uma criança não aprende da mesma maneira que um adolescente. Não olha para o mundo da mesma forma, não enfrenta os desafios da mesma maneira e, sobretudo, não precisa que lhe antecipemos aquilo que só fará sentido mais tarde.
O Lobito precisa de brincar. Precisa de imaginar. Precisa de experimentar. Precisa de repetir. Precisa de se sentir seguro para arriscar.
E precisa, acima de tudo, de viver experiências que façam sentido para a sua idade.
É aqui que começa o verdadeiro Lobitismo.
A Selva não é só uma decoração
Às vezes, usamos a Selva porque “fica giro”.
Chamamos às crianças Lobitos, damos-lhes nomes de personagens, contamos uma história e depois fazemos uma atividade que poderia perfeitamente acontecer sem Selva nenhuma.
Mas será que estamos realmente a viver o imaginário da Selva?
A Selva é muito mais do que uma decoração para uma atividade.
É a linguagem através da qual conseguimos falar com a criança.
Akela, Baloo, Baguera, Cá e as restantes personagens ajudam-nos a contar histórias, a transmitir valores e a criar situações que a criança consegue compreender e, sobretudo, viver.
Uma criança pode não perceber imediatamente uma longa explicação sobre responsabilidade.
Mas pode perceber que Baloo confiou nela para determinada tarefa.
Pode perceber que, na Alcateia, todos têm um papel.
Pode perceber que um companheiro precisa da sua ajuda.
E, sem darmos conta, aquela criança está a aprender.
Brincar é coisa séria
Há quem ainda olhe para o jogo como uma espécie de intervalo entre os momentos “a sério” do Escutismo.
No Lobitismo, penso que devemos olhar para isso de outra maneira.
Brincar é uma das formas mais sérias que uma criança tem de aprender.
Quando corre, imagina, representa uma personagem, resolve um desafio ou joga com os outros, está a experimentar o mundo.
Está a aprender a perder.
A esperar.
A ouvir.
A cooperar.
A tomar decisões.
A tentar outra vez quando não consegue à primeira.
E é precisamente aí que está uma enorme riqueza educativa.
Por isso, uma boa atividade de Lobitos não é necessariamente aquela que parece mais complexa ou mais parecida com aquilo que fazem os mais velhos.
É aquela em que conseguimos perceber:
“O que é que esta criança vai levar daqui?”
Pequenas responsabilidades também fazem crescer
Ser Lobito não significa fazer tudo pelo Lobito.
Pelo contrário.
Uma criança precisa de sentir que é capaz.
Arrumar o seu material.
Ajudar um companheiro.
Cuidar de alguma coisa.
Participar numa decisão.
Assumir uma pequena tarefa.
São coisas simples.
Para um adulto, podem parecer insignificantes.
Para uma criança, podem ser enormes.
Porque naquele momento está a descobrir:
“Confiam em mim.”
E talvez não haja melhor forma de começar a construir autonomia.
Não precisamos de apressar o crescimento
Por vezes, temos tanta vontade de preparar os Lobitos para aquilo que vem a seguir que nos esquecemos de lhes dar tempo para viver aquilo que estão a viver agora.
Queremos que saibam orientar-se.
Que saibam montar.
Que saibam fazer.
Que saibam decidir.
Que sejam autónomos.
Tudo isso terá o seu tempo.
O Lobitismo não precisa de ser uma antecipação dos Exploradores.
Não precisamos de transformar Lobitos em pequenos Exploradores para os preparar para serem bons Exploradores.
Precisamos de lhes dar boas experiências enquanto Lobitos.
É assim que crescem.
E nós, dirigentes?
Talvez esta reflexão seja também para nós.
É muito fácil pegar numa atividade que fizemos com Exploradores, simplificá-la um pouco e dizer:
“Agora vamos fazê-la com os Lobitos.”
Mas talvez a pergunta devesse ser outra.
Em vez de perguntarmos:
“Como podemos adaptar isto aos Lobitos?”
experimentemos perguntar:
“O que é que faz sentido para estes Lobitos?”
Parece uma pequena diferença.
Na prática, pode mudar tudo.
Porque nos obriga a conhecer as crianças que temos à nossa frente.
A perceber o que gostam.
O que as desafia.
O que as entusiasma.
O que ainda não conseguem fazer.
E aquilo que já são capazes de fazer, quando lhes damos espaço.
É aí que começa o trabalho verdadeiramente educativo.
Ser Lobito é viver o presente
Um dia, estes Lobitos serão Exploradores.
Depois serão Pioneiros.
Mais tarde, talvez Caminheiros.
Mas hoje não são nada disso.
Hoje são Lobitos.
E merecem viver essa etapa sem pressa.
Merecem uma Alcateia onde possam brincar, imaginar, fazer disparates, aprender, cair, levantar-se, fazer amigos e descobrir, pouco a pouco, o seu lugar no grupo.
Merecem a Selva.
Merecem o jogo.
Merecem as histórias.
Merecem responsabilidades à medida deles.
Merecem dirigentes que compreendam que educar uma criança não é simplesmente baixar a dificuldade daquilo que fazemos com os mais velhos.
É pensar de outra maneira.
Por isso, talvez seja importante dizê-lo sem medo:
Os Lobitos não são mini-Exploradores.
E ainda bem.
Porque o Lobitismo não precisa de ser uma versão pequena do Escutismo.
Precisa de ser verdadeiramente Lobitismo.
E quando conseguimos isso, quando vemos uma criança entrar na Alcateia tímida e, meses depois, vê-la participar, ajudar um companheiro, assumir uma responsabilidade e sorrir porque conseguiu...
percebemos que não estamos apenas a fazer atividades.
Estamos a ajudar alguém a crescer.
E é isso que torna o Lobitismo tão especial.

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