terça-feira, 15 de setembro de 2026

ENTRE A IDENTIDADE E A PORTA ABERTA: QUE ESCUTISMO QUEREMOS OFERECER?

Há assuntos que nos ficam na cabeça.

Falamos deles uma vez, depois outra. Pensamos que talvez alguém os vá resolver. Esperamos que apareça uma solução. A vida continua, surgem outras preocupações, outras reuniões, outras atividades… e aquele assunto fica ali, num canto da nossa cabeça.

Até voltar.

É assim que me sinto em relação a este tema.

Não tenho uma resposta pronta. Nem sei se tenho sequer uma resposta.

Mas penso muitas vezes nele.

E, sinceramente, incomoda-me.

Há momentos em que me sinto mesmo angustiado e impotente, porque gostava de ajudar a encontrar uma solução e não sei como. E talvez seja precisamente por não saber como resolver que decidi escrever.

Não escrevo para criticar quem está no terreno.

Não escrevo contra a Igreja.

Não escrevo contra o escutismo católico.

Escrevo porque gosto do escutismo.

E porque acredito que, quando gostamos verdadeiramente de alguma coisa, também temos o dever de olhar para aquilo que nos preocupa e fazer perguntas.

Mesmo quando são perguntas difíceis.

 

Uma criança que quer ser escuteira

Imaginem uma criança.

Vê os amigos de farda.

Ouve falar dos acampamentos, das caminhadas, das atividades, das noites passadas numa tenda, das aventuras e das histórias que ficam para sempre.

Fica curiosa.

“Eu também quero ser escuteira.”

Os pais procuram o agrupamento mais próximo.

Vão falar com os dirigentes.

Perguntam como funciona.

E depois aparece a questão da catequese.

A criança não frequenta.

Pode ser porque a família não é católica praticante.

Pode ser porque pertence a outra religião.

Pode ser porque não tem religião.

Pode simplesmente ser porque a família nunca sentiu necessidade de frequentar a catequese.

E então surge a resposta:

“Talvez seja melhor procurarem um grupo não confessional.”

A intenção pode até ser boa.

Mas fico a pensar:

E se não houver nenhum?

E se naquela terra não existir outro grupo?

E se o grupo mais próximo estiver a muitos quilómetros?

E se os pais não tiverem possibilidade de levar a criança para outro local?

O que acontece?

A criança simplesmente não entra.

E é aqui que começo a sentir aquele desconforto.

Porque aquela criança não deixou de querer ser escuteira.

Não deixou de gostar da natureza.

Não deixou de querer fazer amigos.

Não deixou de querer aprender.

Não deixou de querer ajudar os outros.

A única coisa que mudou foi a resposta que recebeu à porta.

 

Não quero que me interpretem mal

Antes de continuar, quero deixar uma coisa muito clara.

Não estou a dizer que uma associação escutista católica deve deixar de ser católica.

Não acho isso.

Aliás, se uma associação tem uma identidade, deve assumi-la.

Deve ter orgulho na sua história.

Deve viver a sua fé.

Deve manter a sua ligação à Igreja.

Deve rezar, celebrar e transmitir os valores cristãos.

Tudo isso faz parte da sua identidade.

E acho que é importante que quem entra num agrupamento saiba exatamente onde está a entrar.

O que me pergunto é outra coisa.

Será que para mantermos a nossa identidade temos necessariamente de exigir que todos tenham a mesma vivência religiosa?

É uma pergunta.

Não é uma acusação.

E gostava que pudéssemos conversar sobre ela sem que isso fosse entendido como falta de respeito pela Igreja ou pela nossa identidade.

 

Talvez estejamos a confundir duas coisas

Talvez seja aqui que esteja uma parte do problema.

Uma coisa é dizer:

“Somos uma associação escutista católica.”

Outra coisa é dizer:

“Só pode fazer parte quem vive a fé exatamente da mesma maneira.”

Não sei se são necessariamente a mesma coisa.

Uma criança muçulmana pode aprender a trabalhar em equipa.

Uma criança protestante pode fazer uma caminhada e ajudar um companheiro.

Uma criança ortodoxa pode participar numa atividade de serviço.

Uma criança sem religião pode aprender a cuidar da natureza.

Todas podem aprender a ser responsáveis.

Todas podem descobrir o valor da amizade.

Todas podem aprender a servir.

Todas podem crescer.

E todas podem viver aquilo que nós chamamos de espírito escutista.

Sem deixarem de ser quem são.

E talvez isto seja importante lembrar:

acolher alguém não significa obrigá-lo a deixar de ser quem é.

 

E a nossa fé?

A nossa fé continua lá.

Ninguém precisa de a esconder.

Podemos explicar porque rezamos.

Podemos falar de Jesus.

Podemos explicar o significado das nossas celebrações.

Podemos transmitir os valores do Evangelho.

Podemos mostrar, através do nosso exemplo, o que significa servir o próximo.

Uma criança que não é católica pode ouvir.

Pode conhecer.

Pode respeitar.

Pode participar de acordo com aquilo que a sua consciência lhe permite.

Mas isso não significa que tenha de acreditar.

Porque:

conhecer não é acreditar.

respeitar não é aderir.

estar presente não é renunciar àquilo em que acreditamos.

Talvez esta diferença seja importante.

E talvez nos permita encontrar um caminho.

 

O problema não é apenas o recrutamento

Quando falamos disto, é muito fácil pensar imediatamente no recrutamento.

“Precisamos de mais crianças.”

“Precisamos de mais jovens.”

“Os agrupamentos estão a envelhecer.”

“Há secções com poucos elementos.”

Tudo isso é verdade.

Mas penso que estamos perante uma questão maior.

Estamos a falar de uma oportunidade educativa.

Uma criança que entra no escutismo pode descobrir coisas que nenhuma sala de aula consegue ensinar da mesma forma.

Pode aprender a desenrascar-se.

Pode aprender a ouvir.

Pode aprender a liderar.

Pode aprender a obedecer.

Pode aprender a trabalhar com alguém de quem não gosta.

Pode aprender a pedir desculpa.

Pode aprender a cuidar de um companheiro.

Pode descobrir que é capaz de muito mais do que pensava.

Pode aprender que servir os outros também nos faz crescer.

Será que queremos perder tudo isto por causa de uma condição religiosa?

Esta pergunta custa-me.

Porque não estou a falar de estatísticas.

Estou a falar de crianças.

 

E continuamos a adiar

Talvez aquilo que mais me incomode seja isto.

Nós sabemos que este assunto existe.

Ele aparece.

Falamos dele.

Há opiniões diferentes.

Há argumentos de um lado e do outro.

E depois… a vida continua.

E muitas vezes fazemos aquilo que todos fazemos quando não sabemos muito bem como resolver alguma coisa:

empurramos com a barriga.

Não digo isto para culpar ninguém.

Compreendo perfeitamente.

Há tantas coisas para resolver.

Há dirigentes cansados.

Há falta de voluntários.

Há problemas financeiros.

Há atividades para organizar.

Há reuniões.

Há famílias.

Há crianças.

Há uma associação inteira para gerir.

É muito mais fácil dizer:

“Um dia destes temos de falar disto.”

E esse “um dia destes” pode nunca chegar.

Só que, entretanto, as crianças crescem.

E algumas deixam de bater à nossa porta.

 

É isso que me deixa angustiado

Talvez seja esta a parte mais pessoal deste texto.

Eu não sei resolver isto.

Gostava de saber.

Gostava de conseguir apresentar uma solução simples, equilibrada e que todos aceitassem.

Mas não consigo.

E isso deixa-me, algumas vezes, impotente.

Penso:

“Será que estou a ver isto da forma certa?”

“Será que estou a ser injusto?”

“Será que estou a pôr em causa algo que não devia?”

“Será que existe outra forma de olhar para este problema?”

E volto a pensar.

E volto à mesma pergunta.

E aquela criança?

Aquela criança que queria ser escuteira.

Que tinha vontade.

Que tinha curiosidade.

Que talvez tivesse muito para dar.

Será que não poderíamos ter encontrado uma forma de a acolher?

 

Não precisamos de ter todas as respostas

Talvez seja isso que tenho aprendido.

Nem sempre precisamos de saber imediatamente qual é a solução.

Às vezes precisamos apenas de ter coragem para reconhecer que existe uma questão.

E falar dela.

Sem medo.

Sem culpas.

Sem apontar o dedo.

Sem dizer que uns estão certos e outros estão errados.

Podemos simplesmente sentar-nos à mesma mesa.

Dirigentes.

Pais.

Jovens.

Responsáveis da associação.

Comunidades cristãs.

E perguntar:

O que podemos fazer melhor?

Talvez possamos criar formas diferentes de acolhimento.

Talvez possa existir um período inicial de integração.

Talvez seja possível separar algumas atividades da frequência da catequese.

Talvez seja possível criar formas de participação diferentes.

Talvez não seja possível.

Não sei.

Mas gostava de experimentar pensar nisso.

Porque pior do que não termos ainda uma solução é convencermo-nos de que não vale a pena procurar uma.

 

Afinal, que escutismo queremos?

Esta é talvez a pergunta que está por detrás de tudo isto.

Que escutismo queremos deixar às crianças que vêm depois de nós?

Um escutismo fechado sobre si próprio?

Ou um escutismo fiel às suas raízes, mas capaz de olhar para o mundo à sua volta?

Um escutismo que tenha uma identidade forte, mas que saiba acolher quem é diferente?

Um escutismo onde uma criança possa dizer:

“Eu sou diferente de vocês, mas sinto que há aqui um lugar para mim.”

Eu gostava que fosse esse.

Porque não acredito que abrir uma porta nos faça perder a nossa identidade.

Pelo contrário.

Talvez uma identidade verdadeiramente forte seja aquela que consegue dizer:

“Eu sei quem sou. Sei no que acredito. E não tenho medo de caminhar ao lado de quem acredita de maneira diferente.”

 

Uma porta

Às vezes imagino mesmo uma porta.

De um lado, nós.

A nossa história.

A nossa farda.

A nossa fé.

As nossas tradições.

Os nossos acampamentos.

As nossas canções.

Tudo aquilo que amamos.

Do outro lado, uma criança.

Talvez tímida.

Talvez acompanhada pelos pais.

Talvez sem saber muito bem o que vai encontrar.

Mas com vontade de experimentar.

Ela bate.

E nós abrimos a porta.

Podemos dizer-lhe quem somos.

Podemos explicar-lhe aquilo em que acreditamos.

Podemos dizer-lhe que somos católicos.

Podemos falar da nossa fé.

Podemos dizer-lhe que há coisas que são importantes para nós.

Mas talvez também possamos dizer:

“Tu és bem-vindo.”

Talvez seja isso que eu gostava que conseguíssemos fazer.

Não deixar de ser quem somos.

Não abandonar a nossa identidade.

Não deixar de ser uma associação católica.

Mas encontrar espaço para mais pessoas.

Porque talvez aquela criança não esteja a pedir que mudemos o escutismo.

Está apenas a pedir uma oportunidade para fazer parte dele.

 

Não tenho a solução. Mas não quero deixar de pensar nisto.

Talvez este texto não resolva nada.

É bem possível.

Talvez algumas pessoas discordem de mim.

É normal.

Talvez outras pensem exatamente da mesma maneira.

Também espero que sim.

Mas se este texto conseguir que alguém pare cinco minutos e pense nesta questão, já terá valido a pena escrevê-lo.

Eu continuo sem saber qual é a resposta.

Continuo com dúvidas.

Continuo incomodado.

Continuo, algumas vezes, angustiado por sentir que não consigo ajudar como gostaria.

Mas há uma coisa que não quero fazer:

deixar de pensar no assunto só porque é difícil.

Porque, quando falamos de crianças e jovens, talvez não tenhamos esse direito.

E talvez seja precisamente aqui que o escutismo nos possa ensinar mais uma vez.

A coragem para enfrentar dificuldades.

A humildade para reconhecer que não sabemos tudo.

A capacidade de ouvir.

E a vontade de caminhar juntos até encontrarmos um caminho.

Por isso, deixo apenas uma pergunta.

Não uma acusação.

Não uma resposta.

Apenas uma pergunta que continua comigo:

Quando uma criança bater à nossa porta e disser “eu quero ser escuteira”, estaremos preparados para abrir a porta e conhecê-la primeiro — ou vamos começar por perguntar em que acredita?

Eu não sei qual é a resposta certa.

Mas sei que não quero continuar a empurrar esta pergunta com a barriga.

Porque, algures, pode estar uma criança à espera de uma oportunidade.

E talvez essa oportunidade comece simplesmente quando alguém decidir abrir a porta.

  

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