MOVIMENTO SEGURO: E QUANDO O RISCO ESTÁ ENTRE OS PRÓPRIOS
JOVENS?
Uma reflexão sobre a dimensão esquecida da segurança no
escutismo: as relações entre pares
Quando falamos de segurança no escutismo, parece existir uma
imagem que rapidamente se instala: o adulto e o jovem.
O adulto que deve proteger.
O adulto que deve respeitar limites.
O adulto que deve ser formado.
O adulto que pode, em determinadas circunstâncias, exercer
poder sobre o jovem.
E, naturalmente, esta dimensão é fundamental.
Mas há uma pergunta que merece muito mais espaço no debate:
E quando o problema não está na relação adulto-jovem, mas
na relação jovem-jovem?
É uma questão incómoda porque obriga a alargar o próprio
conceito de segurança.
Grande parte das políticas de proteção concentra-se,
legitimamente, na prevenção de abusos praticados por adultos. Mas a vida
quotidiana de uma secção acontece também — e muitas vezes sobretudo — entre
os próprios jovens.
São eles que partilham patrulhas, equipas, tribos, tendas, quartos,
refeições, jogos, redes sociais, grupos de mensagens e momentos informais.
São eles que conhecem melhor as dinâmicas internas do grupo.
E são também eles que podem, intencionalmente ou não, tornar
a experiência de outro jovem profundamente insegura.
O jovem não é apenas alguém a proteger
Existe uma tendência natural para pensar o jovem como
destinatário de proteção.
É compreensível.
Quando falamos de abuso, segurança e responsabilidade, o
adulto ocupa uma posição de poder e o jovem encontra-se numa posição mais
vulnerável.
Mas esta visão pode tornar-se demasiado limitada se nos
fizer esquecer uma coisa essencial:
os jovens também têm relações de poder entre si.
Quem lidera a patrulha?
Quem é ouvido?
Quem é popular?
Quem define as regras do grupo?
Quem é frequentemente escolhido?
Quem fica de fora?
Quem é alvo das piadas?
Quem tem medo de contrariar os outros?
Quem consegue influenciar todo o grupo sem possuir qualquer
cargo formal?
Um jovem pode não ter autoridade institucional, mas pode ter
enorme poder social sobre os seus pares.
E esse poder também pode ser utilizado de forma abusiva.
Quando a brincadeira deixa de ser brincadeira
Há comportamentos que, no interior de um grupo, podem
facilmente ser normalizados como “brincadeiras”.
Uma alcunha.
Uma piada sobre o corpo.
Uma fotografia partilhada sem autorização.
Uma humilhação durante um jogo.
Uma exclusão deliberada.
Uma pressão para fazer algo que alguém não quer.
Uma mensagem enviada para um grupo inteiro com o objetivo de
ridicularizar alguém.
Um desafio que ultrapassa os limites de uma pessoa.
E há uma frase que muitas vezes encerra a discussão:
“Era só uma brincadeira.”
Mas quem decide se era brincadeira?
Quem fez a piada?
Ou quem a recebeu?
Uma cultura verdadeiramente segura precisa de ensinar os
jovens a perceber que a intenção não apaga o impacto.
Posso não ter tido intenção de magoar alguém e, ainda assim,
tê-lo magoado.
Posso considerar uma situação divertida e a outra pessoa vivê-la
como humilhação.
Posso pensar que estou a fortalecer o espírito de grupo e,
na realidade, estar a excluir alguém.
A educação para a segurança começa também aqui: aprender
a reconhecer os limites dos outros.
O poder da patrulha
Este tema é particularmente relevante no escutismo porque
trabalhamos com pequenos grupos.
A patrulha é uma das grandes riquezas do método escutista.
É nela que se aprende a cooperar, a liderar, a distribuir
tarefas, a tomar decisões e a assumir responsabilidades.
Mas precisamente por ser um grupo relativamente pequeno, a
patrulha também pode desenvolver fortes relações de influência.
Uma liderança informal pode ser mais poderosa do que
qualquer cargo.
Um jovem pode determinar quem participa, quem é aceite, quem
é ouvido e quem é marginalizado.
Por vezes, o dirigente nem sequer vê o que está a acontecer.
Quando chega à atividade, aparentemente tudo está bem.
Todos estão a sorrir.
A patrulha funciona.
A atividade decorre.
Mas existe alguém que está a sofrer em silêncio.
É aqui que uma cultura de segurança exclusivamente centrada
no adulto pode falhar.
O dirigente pode estar a cumprir todos os procedimentos e,
ainda assim, existir um jovem que não se sente seguro dentro do seu próprio
grupo.
O silêncio também pode ser uma forma de cumplicidade
Existe outra dimensão que merece atenção: o papel dos
espectadores.
Quando um jovem é humilhado, excluído ou intimidado,
raramente está completamente sozinho.
Normalmente há outros que veem.
Alguns riem.
Alguns ignoram.
Alguns não sabem o que fazer.
Outros podem até discordar do comportamento, mas têm medo de
se tornar eles próprios o próximo alvo.
Por isso, a educação para a segurança não pode limitar-se à
pergunta:
“O que fazemos quando somos vítimas?”
Tem de incluir outra:
“O que fazemos quando vemos alguém a ser tratado de forma
inadequada?”
Esta é uma questão profundamente escutista.
Porque o escutismo fala de serviço, responsabilidade,
fraternidade e compromisso com os outros.
Se vemos alguém ser excluído e nada fazemos, estamos também
a participar na construção daquele ambiente.
Nem sempre será possível intervir diretamente.
Nem sempre será seguro fazê-lo.
Mas podemos procurar ajuda.
Podemos apoiar quem está a ser vítima.
Podemos recusar participar.
Podemos falar com um dirigente.
Podemos dizer simplesmente:
“Isto não está bem.”
Segurança não é apenas proteção. É competência.
Talvez seja aqui que seja necessário mudar a forma como
pensamos o Movimento Seguro.
Não basta ensinar:
“Se acontecer alguma coisa, fala com um adulto.”
Isso é importante, mas é apenas uma parte da resposta.
Precisamos também de ensinar os jovens a reconhecer:
- o
que é bullying;
- o
que é exclusão;
- o
que é pressão de grupo;
- o
que é consentimento;
- o
que são limites pessoais;
- quando
uma brincadeira ultrapassa esses limites;
- como
pedir ajuda;
- como
apoiar alguém;
- quando
uma situação deve ser comunicada a um adulto;
- e
porque razão denunciar uma situação grave não significa “trair” um amigo
ou prejudicar a patrulha.
Isto é mais do que prevenção.
É educação para a cidadania.
Um jovem que sabe dizer “não”, respeitar o “não” de outro,
reconhecer uma situação abusiva e procurar ajuda está mais preparado não apenas
para o escutismo, mas para a vida.
Não devemos transformar os jovens em responsáveis pela
segurança dos outros
Há, naturalmente, um limite importante.
Dar responsabilidade aos jovens não significa transferir
para eles responsabilidades que pertencem aos adultos.
Uma criança ou adolescente não deve ser transformado em
investigador, mediador de casos graves ou responsável por resolver situações de
abuso.
Quando existe uma situação séria, os adultos têm de
assumir a responsabilidade que lhes compete.
O que podemos — e devemos — fazer é criar jovens capazes de
reconhecer sinais, apoiar os seus pares e procurar ajuda.
A diferença é enorme.
Não queremos jovens responsáveis por resolver problemas de
segurança.
Queremos jovens que não sejam indiferentes aos problemas
de segurança.
Uma nova arquitetura para a segurança
Talvez seja útil pensar a cultura de segurança em três
relações.
Adulto → Jovem
O adulto tem responsabilidades acrescidas de proteção,
supervisão, prevenção e intervenção.
Jovem ↔ Jovem
Os jovens aprendem a respeitar limites, gerir conflitos,
combater a exclusão e construir relações saudáveis.
Jovem → Adulto
Os jovens precisam de saber que podem questionar, pedir
ajuda e comunicar situações que considerem inadequadas.
Mas existe ainda uma quarta relação que talvez mereça ser
mais valorizada:
Jovem → Jovem → Adulto
Um jovem vê algo que não está bem.
Reconhece que não consegue ou não deve resolver sozinho.
E sabe a quem recorrer.
Este pequeno circuito pode ser uma das formas mais poderosas
de construir uma verdadeira cultura de segurança.
Do “Movimento Seguro” à “cultura segura”
Talvez esta seja a distinção fundamental.
Um Movimento Seguro pode ter regulamentos,
procedimentos, formações, responsáveis e canais de denúncia.
Uma cultura segura é algo mais profundo.
É um ambiente onde as pessoas sabem que podem falar.
Onde os jovens não têm medo de dizer que algo está errado.
Onde um dirigente pode ser questionado sem que isso seja
interpretado como uma ameaça à sua autoridade.
Onde uma denúncia é encarada como uma oportunidade de
proteção e não como uma traição ao grupo.
Onde a reputação da instituição nunca vale mais do que a
segurança de uma pessoa.
E onde os próprios jovens aprendem que cuidar dos outros
também faz parte da sua responsabilidade.
Talvez devêssemos fazer uma pergunta diferente
A discussão sobre segurança no escutismo não deveria ficar
limitada à pergunta:
“Como protegemos os jovens dos adultos?”
Essa pergunta continuará a ser essencial.
Mas talvez precisemos de acrescentar:
“Como ensinamos os jovens a construir ambientes seguros
entre si?”
E ainda uma terceira:
“Que condições criamos para que um jovem consiga falar
quando alguma coisa não está bem?”
Estas três perguntas juntas produzem uma visão muito mais
completa.
Porque o objetivo não deve ser criar um escutismo onde todos
têm medo de errar.
Nem um escutismo onde todos desconfiam de todos.
Nem sequer um escutismo onde cada situação é transformada
num procedimento burocrático.
O objetivo deve ser criar um Movimento onde as pessoas
cuidam umas das outras e sabem o que fazer quando esse cuidado falha.
No fundo, talvez seja essa uma das maiores oportunidades do Movimento
Seguro.
Não transformar o escutismo numa organização obcecada com o
risco.
Mas transformar a segurança numa competência coletiva.
Porque um escutismo verdadeiramente seguro não é aquele onde
os jovens estão simplesmente protegidos pelos adultos.
É aquele onde adultos e jovens sabem que a segurança de
cada pessoa é responsabilidade de todos — ainda que as responsabilidades de
cada um sejam diferentes.