QUANDO UM DIRIGENTE DEIXA DE SERVIR
Apesar de ser caricatural, há uma imagem que merece ser levada a sério: uma tenda de campanha repleta de voluntários atarefados a preparar alimentos para as patrulhas. De repente, um dirigente entra, observa o trabalho e, quando lhe pedem que ajude, responde com toda a solenidade: «Isto não é trabalho para mim, sou de trabalho intelectual!».
A frase provoca riso. Mas também incomoda. Talvez seja
precisamente por isso que é uma boa caricatura do que pode acontecer quando o
exercício da liderança se afasta demasiado da realidade quotidiana daqueles que
estão no terreno.
Num movimento como o Escutismo, dirigir não significa estar
acima das tarefas. Pelo contrário, significa estar disponível para servir,
assumir responsabilidades e, quando necessário, arregaçar as mangas. Há
momentos para planear, avaliar, formar, organizar e tomar decisões. No entanto,
há também momentos em que é preciso carregar uma caixa, preparar uma refeição,
limpar um espaço ou, simplesmente, fazer o que for necessário naquele momento.
O chamado "trabalho intelectual" não perde
dignidade por sujar as mãos. Pelo contrário. Um bom dirigente pensa e age.
Planeia e participa. Orienta e dá o exemplo.
Há também uma questão pedagógica. Os jovens observam muito
mais o que os adultos fazem do que o que lhes dizem para fazer. Assim, um
dirigente que fala constantemente de serviço, responsabilidade e espírito de
equipa, mas que se considera demasiado importante para realizar uma tarefa
simples, transmite uma poderosa lição, embora não seja a que pretendia ensinar.
A verdadeira autoridade no escutismo não nasce da distância.
Nasce da coerência.
É perfeitamente legítimo que um dirigente tenha funções de
organização, formação ou coordenação que exijam, sobretudo, trabalho
intelectual. O problema surge quando esta distinção é utilizada para considerar
determinadas tarefas como indignas ou inferiores. Numa equipa, nenhuma tarefa
essencial deve ser menosprezada apenas por ser manual, repetitiva ou pouco
prestigiada.
Enquanto uns separam alimentos para que as patrulhas possam
partir, é possível que o dirigente tenha realmente algo importante em que
pensar. No entanto, antes disso, poderia perguntar:
"Em que posso ajudar?"
Esta é, provavelmente, uma das formas mais simples — e mais
escutistas — de exercer liderança.
Porque, afinal, liderar não significa encontrar um lugar
onde não seja necessário trabalhar. É estar presente onde o trabalho é
necessário.

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