FAZER-SE NOTAR, PELA AUSÊNCIA…
Vivemos numa época em que a presença parece ter mais valor do que a consciência. No escutismo, como noutras tantas instituições, criou-se a ideia de que a presença é sempre uma virtude e a ausência um sinal de desinteresse, desalento ou falta de compromisso. Mas será mesmo assim?
Nem sempre.
Há ausências que falam mais alto do que qualquer intervenção. Há silêncios que denunciam mais do que longos discursos. E há momentos em que a ausência é a única forma de permanecer fiel à promessa feita um dia.
O escutismo não foi criado para formar seguidores obedientes. Foi concebido para formar cidadãos livres, capazes de pensar, discernir e agir de acordo com a sua consciência. Se assim é, então deve haver espaço para a discordância. Quando esse espaço desaparece, resta apenas uma alternativa: resistir.
Resistir não significa necessariamente levantar a voz, promover conflitos ou fomentar divisões. Há uma forma de resistir mais difícil, porque é invisível. A resistência de quem se recusa a legitimar situações que considera incompatíveis com os valores do movimento. A resistência de quem prefere não participar do que fingir que tudo está bem. É a resistência de quem compreende que a presença pode, por vezes, ser confundida com consentimento.
Estamos demasiado preocupados com fotografias cheias, salas repletas e atividades com muita afluência. Confundimos números com vitalidade e aplausos com razão. Esquecemo-nos de perguntar quem deixou de aparecer e, sobretudo, o motivo. Talvez porque algumas respostas sejam desconfortáveis.
A verdade é que nenhuma organização cresce quando transforma a crítica em incómodo ou a divergência em deslealdade. Cresce quando tem maturidade para ouvir quem pensa de forma diferente. Cresce quando compreende que a fidelidade aos princípios é mais valiosa do que a fidelidade às circunstâncias.
Quem opta pela ausência como forma de protesto, dificilmente procura o protagonismo. Pelo contrário. Sabe que muitas vezes será mal interpretado. Será acusado de desistir, de abandonar a causa ou de não colaborar. No entanto, há uma diferença profunda entre abandonar uma causa e recusar determinadas práticas em nome dessa mesma causa.
A história do escutismo está repleta de homens e mulheres que desafiaram o conformismo. Baden-Powell nunca sonhou com um movimento de pessoas que obedecessem cegamente. Pelo contrário, sonhou com jovens e adultos íntegros, capazes de decidir o que é justo, mesmo que para tal ficassem sozinhos.
Talvez tenha chegado o momento de deixar de considerar todas as ausências como derrotas. Algumas são gritos silenciosos. Outras são um apelo à mudança. E outras representam o último gesto de coerência daqueles que ainda acreditam profundamente no escutismo.
Porque há sempre alguém que resiste.
Há sempre alguém que simplesmente diz "não".
Talvez sejam precisamente esses os que mais acreditam que o escutismo pode e deve ser melhor.

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