sexta-feira, 3 de julho de 2026

É EM VIDA…

Cresci numa família simples, onde nunca houve lugar para heranças materiais ou privilégios. Desde cedo que percebi que, se quisesse progredir, realizar os meus sonhos e deixar uma marca positiva no mundo, teria de o fazer com esforço próprio, dedicação, compromisso e mérito. Foi esta atitude que me moldou e que, acredito, me ligou de forma tão natural ao escutismo.
No escutismo, desde lobito ou explorador até dirigente, aprendi que o progresso vem do mérito, do trabalho responsável, perseverante e com espírito de serviço. A progressão pessoal, o sistema de patrulhas, a atribuição de insígnias e o reconhecimento do esforço e da superação valorizam a meritocracia de forma saudável, com base nos valores que nos orientam: a lealdade, a entrega, a justiça e a fraternidade.
Talvez por isso, enquanto escuteiro e, mais tarde, como dirigente, sempre senti que era meu dever cultivar e defender esta cultura do mérito nas equipas com que trabalho. Acredito profundamente que, quando cada elemento sente que o seu contributo é valorizado, isso gera motivação, sentido de pertença e vontade de dar o seu melhor — e é assim que se constroem equipas fortes, coesas e capazes de concretizar a missão educativa do CNE.
No entanto, não se pode falar de mérito no escutismo sem prestar atenção à formação dos adultos. É essencial que os dirigentes estejam preparados para orientar, acompanhar e reconhecer o percurso dos jovens, mas também para cuidarem uns dos outros, crescerem em conjunto e melhorarem continuamente enquanto educadores. A formação contínua é um pilar fundamental para a qualidade educativa do nosso movimento e cada dirigente deve sentir que o seu crescimento é valorizado e apoiado.
É igualmente importante não esquecermos as pessoas que colaboraram connosco ao longo do nosso percurso: os auxiliares, os pais, os antigos dirigentes, os membros do agrupamento e os da comunidade local. O reconhecimento deve ocorrer em vida, de maneira justa e oportuna. Quantas vezes adiamos um agradecimento, um gesto ou uma homenagem? É urgente valorizar aqueles que fazem o escutismo acontecer todos os dias, de forma discreta e com dedicação silenciosa.
Tal como nas empresas, o movimento escutista também tem os seus momentos de avaliação e de reconhecimento, como os planos individuais de progresso, as avaliações das atividades, a distribuição de funções, as insígnias e as nomeações. No entanto, os sistemas por si só não bastam: são as pessoas que lhes conferem significado, através da escuta, do acompanhamento e da coragem para decidir com justiça.
Identifico os três momentos-chave para manter viva a cultura do mérito no escutismo:
- Definição de objetivos pessoais e de patrulha/secção: tal como no conto de Alice no País das Maravilhas, se não soubermos para onde vamos, qualquer caminho serve; É essencial envolver os jovens e os dirigentes nos seus próprios objetivos para que se sintam comprometidos e responsáveis. Planear com e não apenas para.
- Acompanhamento contínuo: reuniões regulares, feedback, celebrações e momentos de escuta são essenciais; O progresso não acontece apenas em cerimónias; constrói-se dia a dia na relação entre o escuteiro e o dirigente, entre os pares e no seio de uma comunidade que aprende e caminha junta.
- Reconhecimento justo e transparente: ao atribuir insígnias, responsabilidades ou funções, é importante agir com clareza, justiça e verdade. O reconhecimento genuíno, e não meramente simbólico, reforça a confiança, inspira e mantém vivo o espírito escutista.
Criar uma cultura de mérito no movimento escutista significa garantir que todos os jovens, adultos e colaboradores sintam que o seu esforço é valorizado, que vale a pena continuar e que estão a crescer como pessoas e cidadãos. Significa viver plenamente o nosso ideal: "Deixar o mundo um pouco melhor do que o encontramos", começando por reconhecer e cuidar daqueles que nos ajudam a alcançar esse objetivo.



quinta-feira, 2 de julho de 2026

DESENVOLVER RECURSOS E FORTALECER O AGRUPAMENTO

O crescimento de um agrupamento não acontece por acaso. É o resultado de um trabalho contínuo, de uma visão partilhada e de um compromisso sério com a missão educativa do escutismo. Desenvolver os recursos de um agrupamento significa mais do que garantir meios financeiros: significa investir nas pessoas, nomeadamente nos jovens que dão vida ao movimento e nos adultos voluntários que tornam possível a sua caminhada.
Num tempo em que os desafios sociais e educativos se transformam rapidamente, é essencial adotar uma visão ampla e estratégica dos recursos do agrupamento. Falar de recursos é falar de liderança, formação, organização, motivação e capacidade de adaptação.
Crescer é sinal de vitalidade.
No Escutismo, crescer não significa apenas ter mais elementos inscritos. Significa estar vivo, ativo e capaz de responder às necessidades da comunidade. Um agrupamento em crescimento leva os valores escutistas a mais crianças e jovens, amplia o seu impacto educativo e reforça a sua presença na sociedade.
Ao mesmo tempo, o crescimento traz renovação. Cada novo elemento representa energia, ideias novas e perspetivas diferentes. Esta renovação é fundamental para evitar a estagnação e preservar o dinamismo característico da vida escutista.
Além disso, um agrupamento forte e ativo tende a conquistar a confiança de mais famílias e o reconhecimento de mais instituições locais, fortalecendo a sua rede de apoio.
Atrair e reter os jovens.
As crianças e os jovens estão no centro do Escutismo. São eles que dão sentido à missão educativa e transformam cada atividade numa oportunidade de descoberta.
Para garantir um crescimento sustentável, é fundamental saber acolher novos elementos e criar condições para que estes permaneçam no agrupamento. Isso implica, desde logo, a realização de atividades abertas, apelativas e bem comunicadas. Os acampamentos, as caminhadas, os jogos de aventura e as iniciativas comunitárias podem funcionar como portas de entrada para aqueles que ainda não conhecem o movimento.
No entanto, captar é apenas o primeiro passo. Para permanecer, é necessária qualidade. Os programas educativos devem ser atuais, relevantes e capazes de responder aos interesses das novas gerações. Mais importante ainda, devem proporcionar oportunidades reais de participação e liderança, em que cada jovem se sinta ouvido, valorizado e parte integrante do grupo.
O papel essencial dos adultos.
Nenhum agrupamento cresce sem dirigentes e adultos voluntários devidamente preparados e motivados. São estes que acompanham, orientam e garantem a qualidade da proposta educativa.
Por conseguinte, é importante encarar o recrutamento de adultos como um processo intencional. Os pais, os antigos escuteiros e os membros da comunidade podem contribuir com competências valiosas, que vão desde a gestão até à animação e da logística à formação.
No entanto, para que o voluntariado seja sustentável, é fundamental gerir bem as expetativas. Funções bem definidas, objetivos concretos e tarefas ajustadas à disponibilidade de cada um contribuem para a criação de um ambiente saudável e motivador. Acima de tudo, é importante cultivar uma cultura de reconhecimento. Um simples agradecimento pode fazer toda a diferença.
Ferramentas que apoiam a missão.
O trabalho educativo precisa de apoio. Recursos pedagógicos atualizados, planos de atividades bem estruturados e canais de comunicação eficazes são instrumentos fundamentais para o bom funcionamento das secções e do agrupamento.
Atualmente, as ferramentas digitais também assumem um papel importante. Facilitam a comunicação, simplificam a organização e aproximam as equipas. Quando utilizadas corretamente, tornam-se aliadas valiosas.
Da mesma forma, o acompanhamento entre dirigentes experientes e novos dirigentes continua a ser uma das formas mais eficazes de aprendizagem. A experiência partilhada é um recurso muito valioso.
A formação contínua é um caminho necessário.
No escutismo, a flexibilidade faz parte do percurso. Um dirigente pode mudar de secção, assumir novas responsabilidades ou transitar de funções administrativas para funções educativas.
Cada mudança traz novas exigências. Por conseguinte, é fundamental avaliar as competências exigidas e identificar possíveis lacunas. Esta avaliação não deve ser encarada como um processo formal ou burocrático, mas sim como uma oportunidade de crescimento.
O diálogo, a reflexão e a elaboração conjunta de planos de desenvolvimento contribuem para a formação de líderes mais competentes e seguros. A realização de workshops, a realização de leituras orientadas, a participação em ações de formação prática e o acompanhamento em contexto real são formas possíveis de reforçar competências.
É uma responsabilidade de todos.
Desenvolver os recursos de um agrupamento é uma tarefa coletiva. Não depende apenas da chefia ou dos dirigentes mais experientes. Trata-se de um compromisso partilhado por toda a comunidade escutista.
Ao investirmos nas pessoas, estamos a investir no futuro. Ao fortalecermos os recursos humanos, educativos e organizacionais de um agrupamento, garantimos que a missão do escutismo continua viva, relevante e capaz de transformar vidas.
Porque, no fundo, crescer não significa apenas aumentar o número de pessoas. Significa crescer em qualidade, impacto e capacidade de servir.



O QUE FAZ UMA UNIDADE (UL) CRESCER? (*)

Em cada canto do país, o escutismo é vivido de forma única. Há Unidades Locais (UL) em que os jovens aderem com entusiasmo, participam ativamente e encontram no escutismo um espaço de crescimento, amizade e descoberta. Noutras, o desafio de os motivar e envolver é maior. Mas porquê?
A resposta não está apenas no número de atividades ou na dimensão dos agrupamentos (UL). Está sobretudo na forma como o escutismo é vivido e sentido.
Uma unidade local forte constrói-se com líderes capazes de inspirar. Os dirigentes que sabem ouvir, acompanhar e desafiar os jovens criam um ambiente em que todos se sentem importantes. Mais do que organizar atividades, é fundamental estabelecer laços.
O sentimento de pertença é outro pilar essencial. Quando um jovem veste o uniforme e coloca o lenço ao pescoço com orgulho e sente que faz parte de uma comunidade, a motivação surge de forma natural. O escutismo não se resume a um conjunto de reuniões, eventos da paróquia/freguesia ou acampamentos; é um espaço de identidade, valores e partilha.
É igualmente importante refletir sobre as atividades que propomos. Os jovens de hoje procuram desafios, aventura, contacto com a natureza, oportunidades para ajudar os outros e experiências que tenham significado no seu quotidiano. Manter a tradição é importante, mas inovar é indispensável.
Talvez o maior segredo esteja em dar voz aos próprios jovens. Ao participarem nas decisões e ao ajudarem a sonhar e a construir o caminho, deixam de ser meros participantes para se tornarem protagonistas.
Embora cada Unidade Local enfrente realidades diferentes, todas partilham a mesma missão: educar para a vida, formar cidadãos ativos e deixar o mundo um pouco melhor do que o encontramos.
O crescimento de uma unidade local não se mede apenas pelos números, mas pela sua capacidade de transformar vidas. E esta continua a ser a maior força do escutismo: formar pessoas com coragem, espírito de serviço e vontade de construir um futuro melhor.
Porque, afinal, o escutismo prospera onde há entusiasmo, compromisso e a convicção de que vale a pena prosseguir em conjunto.
*(UL), consideremos como sendo o “agrupamento”.

“DICAS” IMPORTANTES
1. Qualidade da liderança
Os dirigentes têm um impacto enorme. Quando estão próximos dos jovens, são inspiradores e sabem ouvir, estes tendem a sentir-se valorizados e envolvidos. A forma como comunicam, concedem autonomia e reconhecem o esforço faz toda a diferença.
2. Sentido de pertença
O escutismo assenta em grande medida na identidade do grupo. Os agrupamentos que criam uma cultura forte de amizade, tradição e orgulho geram um maior compromisso. O jovem sente que "faz parte de algo".
3. Atividades relevantes e atrativas: nem todos os programas de atividades correspondem aos interesses atuais dos jovens. As atividades dinâmicas, desafiantes e alinhadas com aquilo que procuram (aventura, impacto social, competências práticas e contacto com a natureza) tendem a gerar uma maior adesão.
Participação real dos jovens: quando os jovens têm voz ativa na construção das atividades, em vez de apenas executarem o que os adultos planeiam, a sua motivação aumenta. Isto está muito relacionado com o método escutista: aprender através da prática e assumir progressivamente um papel de liderança.
5. Capacidade de adaptação ao contexto local: uma zona de implantação urbana e uma zona rural vivem realidades diferentes. Os programas que conseguem adaptar horários, formatos e estratégias à realidade social, económica e cultural do território tendem a ter mais sucesso.
6. Rede social e reputação: o "efeito boca a boca" é poderoso. Se um agrupamento tiver uma boa imagem junto das famílias, das escolas e da comunidade, atrairá mais facilmente. A reputação constrói-se com consistência.
7. Equilíbrio entre tradição e inovação: o escutismo vive de símbolos e tradição, mas, se ficar preso ao passado, corre o risco de perder relevância. Os agrupamentos mais fortes costumam preservar a sua identidade, ao mesmo tempo que inovam na forma de a viver.
8. Continuidade e estabilidade: mudanças frequentes de liderança, conflitos internos ou falta de visão podem enfraquecer a motivação coletiva. A estabilidade cria confiança e permite a realização de projetos a longo prazo.
9. Reconhecimento e progressão: sistemas claros de progressão, insígnias, responsabilidades e oportunidades de crescimento ajudam os jovens a compreenderem que o seu esforço tem impacto.
10. Ambiente emocional
Mais importante do que a atividade em si, para muitos jovens é o ambiente: segurança psicológica, amizade, diversão e aceitação.
Na verdade, os agrupamentos que melhor motivam costumam oferecer, em simultâneo, três coisas: aventura, pertença e propósito. Quando uma destas coisas falta, o envolvimento tende a diminuir.

quarta-feira, 1 de julho de 2026

ERRAR TAMBÉM, FAZ PARTE…

No escutismo, a perfeição é algo que dificilmente fica na memória e, de facto, não deveria ficar. Os escuteiros não se lembram de atividades impecáveis, em que cada minuto está cronometrado e em que tudo corre exatamente como planeado. O que levam consigo, anos depois, são as experiências vividas com intensidade: o frio de uma noite ao ar livre, a gargalhada inesperada numa atividade que correu mal, a superação de um desafio aparentemente impossível e a união que surge quando algo corre mal.
Lembram-se mais facilmente de uma caminhada em que se perdeu o trilho e foi necessário encontrar o caminho novamente em conjunto do que de uma caminhada perfeitamente linear. Lembra-se mais facilmente da tenda que caiu com o vento e que a patrulha teve de reconstruir de noite do que da montagem perfeita feita em teoria na reunião. Ficamos com a recordação da sopa que quase queimou, mas que todos ajudaram a salvar e a partilhar com orgulho, mais do que de qualquer refeição perfeita.
As melhores lições do escutismo não nascem da execução perfeita dos planos, mas dos imprevistos. São os momentos em que a chuva altera os planos, o material falha, o tempo é escasso ou alguém se perde no raciocínio da patrulha que proporcionam as verdadeiras aprendizagens: a capacidade de adaptação, a comunicação, a liderança partilhada, a paciência e o sentido de responsabilidade.
Ser dirigente escutista não significa evitar que estes momentos aconteçam. Pelo contrário, é criar espaço para que estes aconteçam em segurança. Significa planear com intencionalidade, mas aceitar que o crescimento não decorre dentro de um guião fechado. Significa saber dar um passo atrás quando a patrulha precisa de cometer erros para aprender e dar um passo de lado para permitir que os jovens encontrem as suas próprias soluções.
Quando um jovem falha a primeira vez ao tentar acender uma fogueira e, após uma nova tentativa, consegue fazê-lo com a ajuda discreta da sua patrulha, não está apenas a aprender uma técnica. Está a descobrir a persistência. Da mesma forma, quando uma equipa de pioneiros se perde num jogo de orientação e tem de se reorganizar e comunicar melhor, não se trata apenas de um jogo: trata-se de aprender a confiar uns nos outros.
Na verdade, o escutismo não se baseia na perfeição dos programas, mas sim na riqueza das experiências vividas. São precisamente essas experiências, por vezes caóticas, imprevisíveis e imperfeitas, que contribuem para a formação de adultos mais conscientes, resilientes e humanos.



LETARGIA E SILÊNCIO NA LIDERANÇA ESCUTISTA (*)

Há contextos em que a vida dos escuteiros parece perder parte da sua energia essencial. Não por falta de atividades ou de um calendário, mas por algo mais sutil e profundo: a ausência de partilha.
Dirigentes que não se documentam, não comunicam experiências, não registam vivências nem trocam ideias. Um funcionamento quase automático em que cada um segue o seu caminho dentro do mesmo sistema, mas sem que haja uma verdadeira circulação de conhecimentos. O resultado é um ambiente amorfo, alinhado na forma, mas silencioso na essência. Uma atitude de "deixa andar" que se instala como normalidade.
Este tipo de dinâmica não surge de um dia para o outro. Geralmente, é o resultado de anos de rotina, de desgaste acumulado, de falta de tempo, de ausência de uma cultura de reflexão ou, simplesmente, da crença de que "sempre foi assim". Aos poucos, a energia da inovação é substituída pela gestão do imediato.
O valor perdido da experiência partilhada.
No escutismo, a experiência é um dos maiores patrimónios existentes. Cada atividade, cada erro e cada solução encontrada deveriam contribuir para o coletivo. No entanto, quando a experiência não é partilhada, perdemos muito mais do que informação: perdemos evolução.
Sem documentação nem troca de práticas:
- Repetem-se ações já realizadas, sem que haja uma verdadeira aprendizagem;
- Reduz-se a criatividade metodológica;
- Os dirigentes isolam-se no seu próprio "modo de fazer";
- A identidade coletiva do agrupamento, da unidade enfraquece.
As consequências não são apenas organizacionais, mas também culturais.
O silêncio entre os dirigentes nem sempre significa ausência de opinião. Muitas vezes, é uma questão de não haver um espaço seguro para a expressão ou de estar instalado o hábito de não questionar. As reuniões tornam-se operacionais, centradas no calendário e na logística, deixando de ser momentos de reflexão educativa.
Com o tempo, instala-se uma forma de conformismo funcional: tudo funciona suficientemente bem para não haver necessidade de mudança.
A normalização do "deixa andar".
Talvez o aspeto mais delicado seja a aceitação progressiva deste estado de coisas como se fosse normal. Quando ninguém questiona, documenta ou propõe nada, o sistema adapta-se à inércia.
Nesse ponto, a organização deixa de ser um espaço de crescimento coletivo e torna-se apenas um mecanismo de repetição.
Como quebrar este ciclo?
A mudança não exige necessariamente grandes revoluções. Muitas vezes, começa com pequenos gestos, mas consistentes:
- Registar e partilhar uma atividade com breves notas de aprendizagem;
- Criar breves momentos de reflexão real nas reuniões;
- Incentivar a partilha de erros, e não apenas de sucessos;
- Construir uma cultura de feedback entre dirigentes;
- Trazer referências externas para questionar práticas habituais.
Mais do que ferramentas, trata-se de cultura. A cultura constrói-se com repetição intencional.
Uma escolha coletiva.
O escutismo vive da transmissão de experiências e da construção contínua de pessoas e comunidades. Quando essa transmissão abranda, o movimento perde uma parte essencial da sua identidade.
Sair da letargia não depende apenas da vontade individual. É necessário fazer uma escolha coletiva: continuar com o status quo ou voltar a valorizar aquilo que sempre foi central no escutismo: a partilha viva, consciente e transformadora da experiência.
Porque, sem isso, sobra apenas a organização. Mas falta escutismo.
(*) também lhe chamam “falta de massa crítica”.



ATINGIMOS TODOS OS OBJECTIVOS?

A verdade é que sim. E não.
Há crianças e jovens que, pela primeira vez, chegaram ao escutismo de mão dada com os pais ou amigos, os olhos cheios de curiosidade e o coração apertado pelo medo do desconhecido.
E hoje?
Hoje, correm para a sede, para o campo, para a aventura, tal como se corressem para casa.
Há quem tenha chegado sem conhecer ninguém e, pelo caminho, tenha encontrado amigos, e talvez o(a) futuro(a) companheiro(a), irmãos de caminhada e memórias para toda a vida.
Aprenderam a esperar, a ouvir, a partilhar, a pedir desculpa e a compreender que crescer é também saber viver com os outros.
Há quem tenha descoberto que é mais forte do que pensava.
Que consegue ir mais longe, subir mais alto, enfrentar o frio, a chuva, a saudade e até os próprios medos.
Que consegue falhar e tentar de novo.
Aprendeu a montar uma tenda.
A carregar a mochila.
A cuidar do material.
A viver com muito menos e a dar mais valor.
No meio de tudo isto, aprendeu coisas ainda mais importantes.
Aprendeu a confiar.
A ter coragem.
A perder sem desistir.
A esperar.
A cuidar.
A servir.
E a descobrir que ser escuteiro não se resume a usar um uniforme.
Claro que ainda há objetivos a atingir.
Continuamos a tentar convencer alguns de que lavar a louça no campo não é um castigo.
Ainda explicamos que arrumar a mochila faz parte da aventura.
E continuamos sem perceber por que razão desaparecem sempre meias, lanternas ou cantis.
Mas esses são pormenores.
Porque há aprendizagens que não se encaixam em planos, objetivos ou avaliações... ou "cartões de progresso".
Aquelas que não se vêem de imediato.
A coragem que nasce devagar.
E a verdade é esta:
No escutismo, ninguém evolui de acordo com um calendário de atividades.
Ninguém chega ao fim do ano escutista e afirma: "Pronto, já aprendi tudo."
Crescer leva tempo.
Há sementes que demoram muito tempo escondidas antes de florescerem.
Por isso, nunca avaliamos um ano escutista apenas com base nas metas alcançadas.
Avaliamo-lo pelos abraços, pelas quedas, pelos sorrisos, pelas lágrimas e pelas pequenas conquistas que, um dia, se tornarão gigantes.
E, sobretudo, pelas sementes, que nós dirigentes lançámos.
Muitas vezes, aquilo que hoje parece não ter acontecido é exatamente o que amanhã fará toda a diferença.



terça-feira, 30 de junho de 2026

Entrevistador: Lorde Baden-Powell, como vê a atual preocupação com a segurança?

Baden-Powell: Acho-a profundamente tranquilizadora.

No meu tempo, a segurança consistia sobretudo em ensinar os rapazes a serem prudentes.

Hoje, parece consistir em garantir que nunca tenham oportunidade de a pôr em prática.

É um aperfeiçoamento notável.

Entrevistador: Não é importante minimizar os riscos?

Baden-Powell: Evidentemente.

No entanto, é importante salientar que há uma diferença entre gerir riscos e abolir a realidade.

Uma fogueira que não queima, uma faca que não corta e uma caminhada que não cansa... São conceitos pedagogicamente fascinantes.

Porém, de utilidade prática limitada.

Entrevistador: Então, o risco é necessário?

Baden-Powell: Absolutamente.

O carácter forma-se, em grande parte, através da proximidade controlada do risco.

Um rapaz que nunca cai dificilmente aprende equilíbrio.

Um rapaz que nunca se perde dificilmente aprende a orientar-se.

E um rapaz que nunca falha dificilmente aprende a ser humilde.

Entrevistador: E qual é o maior risco atualmente?

Baden-Powell: Criar uma geração perfeitamente segura e profundamente incapaz.

Entrevistador: Lorde Baden-Powell, que opinião tem sobre o envolvimento crescente dos pais?

Baden-Powell: É fascinante.

No meu tempo, os pais entregavam-nos os filhos e iam descansar.

Confiavam.

Hoje, alguns parecem considerar que o verdadeiro espírito de aventura consiste em acompanhar cada passo através de mensagens e fotografias.

Entrevistador: Mas isso não demonstra preocupação?

Baden-Powell: Sem dúvida.

O problema é que a preocupação em excesso pode transformar-se numa forma sutil de desconfiança.

Um jovem que nunca se sente verdadeiramente sozinho dificilmente descobre quem é.

Entrevistador: É importante o afastamento dos pais?

Baden-Powell: Vital.

O campo é uma das poucas escolas onde um rapaz pode existir sem o olhar constante da família.

É aí que se testa.

É aí que cresce.

É aí que aprende que é capaz.

Entrevistador: E o que diria aos pais de hoje em dia?

Baden-Powell: A resposta é muito simples: se querem ajudar os vossos filhos a crescer, por vezes, a melhor forma de o fazerem é afastarem-se um pouco.

Com discrição.

E sem pedir fotografias do pequeno-almoço.

Entrevistador: Lorde Baden-Powell, o que pensa do uso constante do telemóvel pelos dirigentes?

Baden-Powell: É um prodígio.

Nunca imaginei que um objeto tão pequeno pudesse causar tanta distração.

No meu tempo, para ignorar um rapaz, era necessário um grande esforço.

Hoje, basta uma notificação.

Entrevistador: Acha isso tão grave assim?

Baden-Powell: O escutismo depende da atenção.

O dirigente observa.

Escuta.

Repara no silêncio estranho, no conflito discreto, na hesitação do mais novo.

Tudo isso exige presença.

No entanto, é difícil estar verdadeiramente presente quando metade da nossa atenção está num ecrã.

Entrevistador: Mas também pode ser útil.

Baden-Powell: Sem dúvida.

Tal como um apito.

Mas nunca vi um chefe a passar meia hora a olhar para o apito.

Entrevistador: E qual seria a regra ideal?

Baden-Powell: É simples: quando estiverem no campo, estejam no campo.

As mensagens podem esperar.

A infância dos vossos filhos, não.

Entrevistador: E se tivesse de resumir?

Baden-Powell: Um chefe que olhe demasiado para o telemóvel está a ensinar, sem querer, que o mundo lá fora é mais importante do que a pessoa que tem à sua frente.

E isso é uma lição desastrosa.

Entrevistador: Lorde Baden-Powell, o que pensa dos acampamentos em que já não se acende fogo?

Baden-Powell: Depende.

Se o objetivo for evitar incêndios, parece-me uma solução excelente.

Se o objetivo for aprender a viver no campo, já tenho mais dúvidas.

Entrevistador: Mas há razões de segurança e ambientais.

Baden-Powell: Naturalmente.

Há também razões de segurança para não sair de casa e, no entanto, a isso chamamos outra coisa que não escutismo.

O fogo sempre teve um papel curioso: aquece, ilumina e ensina humildade.

Porque nada reduz tanto a arrogância de um grupo como tentar cozinhar sob a chuva com madeira húmida.

Entrevistador: Então, o fogo é essencial?

Baden-Powell: Não, não é.

Mas é revelador.

Um acampamento sem fogo tende a ser demasiado perfeito.

E o Escutismo nunca se tratou de perfeição.

Trata-se de aprendizagem real, em condições reais, com resultados reais, incluindo um pequeno-almoço ligeiramente queimado.

Entrevistador: Lorde Baden-Powell, há quem diga que atualmente há pouca margem para o silêncio no escutismo. Concorda?

Baden-Powell: Concordo e lamento.

O silêncio era uma das nossas melhores ferramentas educativas.

Não dizia nada, o que era precisamente o seu valor.

Entrevistador: Mas os jovens não se aborrecem?

Baden-Powell: Sim, e isso é excelente.

O tédio é muitas vezes o início da criatividade.

Um rapaz entediado olha à sua volta.

Um rapaz constantemente estimulado olha para dentro... do ecrã.

Entrevistador: E o que acontece quando se remove o silêncio?

Baden-Powell: Perde-se o espaço interior.

E, sem espaço interior, não há reflexão.

Sem reflexão, não há aprendizagem profunda.

E sem aprendizagem profunda, sobra apenas atividade.

Entrevistador: Defende, então, mais silêncio nos acampamentos?

Baden-Powell: Defendo que se tenha menos medo do silêncio.

Porque, ao contrário do que se pensa, o silêncio não é vazio.

Está repleto de pensamentos.

Entrevistador: Lorde Baden-Powell, o escutismo moderno parece muito focado nos resultados. Isso é positivo?

Baden-Powell: Os resultados sempre existiram.

A diferença é que, no meu tempo, consistiam em:

— Saber montar uma tenda;

— Saber orientar-se;

— Saber ajudar alguém em dificuldade.

Hoje, parecem ser:

— o número de atividades realizadas;

— as horas registadas;

— as competências demonstradas numa grelha.

É uma evolução fascinante da experiência para a estatística.

Entrevistador: Mas isso não melhora a qualidade?

Baden-Powell: Melhora a medição da qualidade.

Nem sempre a qualidade em si.

Entrevistador: Então, a produtividade é um problema?

Baden-Powell: Não necessariamente.

O problema começa quando nos esquecemos de perguntar: "Isto formou caráter ou apenas gerou relatórios?"

O Escutismo sempre se caracterizou por ser pobre em relatórios e rico em experiências.

Agora receio que esteja a acontecer o oposto.

Entrevistador: E qual seria o equilíbrio ideal?

Baden-Powell: Primeiro, fazer. Registar depois.

E nunca permitir que o registo se torne mais importante do que aquilo que realmente aconteceu.

Entrevistador: Lorde Baden-Powell, há quem diga que o escutismo se tornou mais institucional e organizado. Concorda?

Baden-Powell: Sim, e isso não é, por si só, um problema.

A organização é necessária.

O problema começa quando a organização se torna o objetivo.

Entrevistador: Poderia explicar melhor?

Baden-Powell: No início, o movimento era simples: rapazes, natureza, responsabilidade e aprendizagem.

Hoje em dia, por vezes, parece tratar-se de estruturas, níveis, estratégias, planos, relatórios e alinhamento institucional.

Entrevistador: Mas isso não garante a sustentabilidade?

Baden-Powell: Garante a continuidade administrativa.

Mas nem sempre garante a continuidade educativa.

Entrevistador: E o que mais se perde?

Baden-Powell: Perde-se a leveza.

Perde-se a capacidade de improvisar.

Perde-se a capacidade de um grupo de jovens decidir, cometer erros, fazer ajustes e crescer sem ter de pedir autorização a três níveis hierárquicos.

Entrevistador: E o que diria aos dirigentes?

Baden-Powell: "Lembrem-se disto: o Escutismo não nasceu para ser bem gerido.

Nasceu para ser vivido.

Se um dia tudo estiver perfeitamente organizado, talvez ninguém esteja realmente a ouvir os escuteiros.

Entrevistador: Lorde Baden-Powell, qual é a sua opinião sobre a dimensão espiritual no Escutismo atualmente?

Baden-Powell: Vejo-a com respeito... e com alguma dificuldade em encontrá-la.

No meu tempo, a espiritualidade era como o vento: não se explicava muito, mas sentia-se.

Hoje, parece algo que precisa de uma definição, um enquadramento, indicadores e, por vezes, um formulário próprio.

Entrevistador: Isso é um problema?

Baden-Powell: Só se acreditarmos que tudo o que é importante pode ser medido.

Sempre pensei que o escutismo lidava com coisas que se vivem mais do que se descrevem.

A amizade, o serviço, o silêncio perante a natureza... não se encaixam facilmente em tabelas.

Entrevistador: Então, defende uma abordagem menos estruturada?

Baden-Powell: Defendo uma abordagem menos ansiosa.

A espiritualidade não precisa de ser ensinada como uma lição.

Tem de ser descoberta como uma experiência.

De preferência ao ar livre e não numa sala com projetor.

Entrevistador: E qual é o papel dos dirigentes?

Baden-Powell: Deixar espaço.

Não o preencher com demasiadas palavras.

Entrevistador: Lorde Baden-Powell, o escutismo é mais disciplina ou liberdade?

Baden-Powell: Sempre achei curioso que isso seja tratado como uma oposição.

Para mim, a disciplina sem liberdade não passa de obediência.

E a liberdade sem disciplina não passa de desordem bem-intencionada.

O Escutismo sempre se situou algures no meio.

Entrevistador: Hoje, há quem defenda um controlo mais apertado.

Baden-Powell: E há quem defenda menos controlo.

Ambos têm boas intenções.

O problema surge quando nos esquecemos de que o objetivo não é criar jovens obedientes ou desorganizados.

O que se pretende é formar jovens capazes de se governarem a si próprios.

Entrevistador: E como se consegue isso?

Baden-Powell: Ao confiarmos-lhes pequenas responsabilidades reais.

Não simulações.

Não exercícios com orientação constante.

Responsabilidade verdadeira com consequências reais.

É assim que a disciplina deixa de ser uma imposição e passa a fazer parte da nossa personalidade.

Entrevistador: E se falharem?

Baden-Powell: Melhor.

Desde que não falhem sempre protegidos do seu próprio erro.

Entrevistador: Lorde Baden-Powell, muitos afirmam que a patrulha deixou de desempenhar o papel central que outrora teve. Concorda?

Baden-Powell: Concordo, pois já não a reconheço facilmente.

Vejo o nome com frequência.

Vejo o conceito em apresentações.

Vejo-o em documentos muito bem elaborados.

No entanto, no terreno, por vezes, parece mais uma referência teórica do que uma realidade viva.

Entrevistador: O que mudou?

Baden-Powell: A patrulha deixou de ser um pequeno grupo autónomo.

Passou, em muitos casos, a ser um grupo que funciona sob supervisão constante.

O que altera profundamente a sua natureza.

Entrevistador: Isso é um problema?

Baden-Powell: Depende do objetivo.

Se o objetivo for a eficiência adulta, então é uma melhoria.

Se o objetivo for a autonomia juvenil, então é uma perda considerável.

Entrevistador: O que torna a patrulha tão importante?

Baden-Powell: O facto de não ser perfeita.

Uma patrulha verdadeira discute, comete erros, organiza-se, falha e tenta novamente.

É um pequeno laboratório da sociedade.

Mas só funciona se for, de facto, dela própria.

Entrevistador: E qual é o seu conselho final?

Baden-Powell: Simples, como sempre: deixem as patrulhas serem patrulhas.

E resistam à tentação de as transformarem em pequenos projetos geridos por adultos.

O Escutismo sempre foi mais eficaz quando confiou mais nos jovens do que nos manuais.