sexta-feira, 3 de julho de 2026

É EM VIDA…

Cresci numa família simples, onde nunca houve lugar para heranças materiais ou privilégios. Desde cedo que percebi que, se quisesse progredir, realizar os meus sonhos e deixar uma marca positiva no mundo, teria de o fazer com esforço próprio, dedicação, compromisso e mérito. Foi esta atitude que me moldou e que, acredito, me ligou de forma tão natural ao escutismo.
No escutismo, desde lobito ou explorador até dirigente, aprendi que o progresso vem do mérito, do trabalho responsável, perseverante e com espírito de serviço. A progressão pessoal, o sistema de patrulhas, a atribuição de insígnias e o reconhecimento do esforço e da superação valorizam a meritocracia de forma saudável, com base nos valores que nos orientam: a lealdade, a entrega, a justiça e a fraternidade.
Talvez por isso, enquanto escuteiro e, mais tarde, como dirigente, sempre senti que era meu dever cultivar e defender esta cultura do mérito nas equipas com que trabalho. Acredito profundamente que, quando cada elemento sente que o seu contributo é valorizado, isso gera motivação, sentido de pertença e vontade de dar o seu melhor — e é assim que se constroem equipas fortes, coesas e capazes de concretizar a missão educativa do CNE.
No entanto, não se pode falar de mérito no escutismo sem prestar atenção à formação dos adultos. É essencial que os dirigentes estejam preparados para orientar, acompanhar e reconhecer o percurso dos jovens, mas também para cuidarem uns dos outros, crescerem em conjunto e melhorarem continuamente enquanto educadores. A formação contínua é um pilar fundamental para a qualidade educativa do nosso movimento e cada dirigente deve sentir que o seu crescimento é valorizado e apoiado.
É igualmente importante não esquecermos as pessoas que colaboraram connosco ao longo do nosso percurso: os auxiliares, os pais, os antigos dirigentes, os membros do agrupamento e os da comunidade local. O reconhecimento deve ocorrer em vida, de maneira justa e oportuna. Quantas vezes adiamos um agradecimento, um gesto ou uma homenagem? É urgente valorizar aqueles que fazem o escutismo acontecer todos os dias, de forma discreta e com dedicação silenciosa.
Tal como nas empresas, o movimento escutista também tem os seus momentos de avaliação e de reconhecimento, como os planos individuais de progresso, as avaliações das atividades, a distribuição de funções, as insígnias e as nomeações. No entanto, os sistemas por si só não bastam: são as pessoas que lhes conferem significado, através da escuta, do acompanhamento e da coragem para decidir com justiça.
Identifico os três momentos-chave para manter viva a cultura do mérito no escutismo:
- Definição de objetivos pessoais e de patrulha/secção: tal como no conto de Alice no País das Maravilhas, se não soubermos para onde vamos, qualquer caminho serve; É essencial envolver os jovens e os dirigentes nos seus próprios objetivos para que se sintam comprometidos e responsáveis. Planear com e não apenas para.
- Acompanhamento contínuo: reuniões regulares, feedback, celebrações e momentos de escuta são essenciais; O progresso não acontece apenas em cerimónias; constrói-se dia a dia na relação entre o escuteiro e o dirigente, entre os pares e no seio de uma comunidade que aprende e caminha junta.
- Reconhecimento justo e transparente: ao atribuir insígnias, responsabilidades ou funções, é importante agir com clareza, justiça e verdade. O reconhecimento genuíno, e não meramente simbólico, reforça a confiança, inspira e mantém vivo o espírito escutista.
Criar uma cultura de mérito no movimento escutista significa garantir que todos os jovens, adultos e colaboradores sintam que o seu esforço é valorizado, que vale a pena continuar e que estão a crescer como pessoas e cidadãos. Significa viver plenamente o nosso ideal: "Deixar o mundo um pouco melhor do que o encontramos", começando por reconhecer e cuidar daqueles que nos ajudam a alcançar esse objetivo.



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