AINDA ESTOU AQUI!
Continuo aqui. Não apenas como dirigente. Mas como alguém que, durante a maior parte do seu percurso escutista, escolheu a formação de adultos, acompanhando caminhos e ajudando outros a descobrir o verdadeiro sentido do serviço e do movimento escutista. E talvez seja precisamente essa missão que mais me transformou.
Formar adultos no escutismo nunca foi apenas transmitir conteúdos, metodologias ou técnicas. É muito mais do que preparar sessões, avaliar percursos ou preencher relatórios. É lidar com pessoas reais. Com histórias reais. Com fragilidades, dúvidas, egos, medos e expetativas.
Ao longo destes anos, conheci dirigentes extraordinários, mas também dirigentes cansados, perdidos e quase a desistir.
Vi adultos a chegarem à formação cheios de vontade, mas esmagados pelo peso da vida profissional, familiar e pessoal. Vi chefes a questionar-se se ainda eram capazes. Vi homens e mulheres a carregar responsabilidades enormes, enquanto tentavam continuar a servir o movimento nos seus agrupamentos com dignidade.
Muitas vezes, antes de formar dirigentes, foi preciso, acima de tudo, ouvi-los.
Houve noites em que preparei sessões até tarde, depois de longos dias de trabalho. Houve fins de semana inteiros entregues à formação, enquanto a minha própria vida ficava em pausa. Houve momentos em que dei o meu melhor para motivar outros adultos... mesmo quando era eu quem mais precisava de motivação.
Porque quem forma também se desgasta.
Quem acompanha também carrega um fardo.
E quem tenta cuidar dos outros muitas vezes esquece-se de cuidar de si próprio.
Continuei, porque percebi que a formação não muda apenas os dirigentes. A formação muda a forma como lideramos, servimos e até como vivemos.
Nunca esquecerei certos momentos:
- o dirigente que chegou inseguro e que, anos depois, se tornou uma referência para os seus jovens;
- a conversa silenciosa no final de uma sessão, quando alguém admitiu finalmente que estava perto de desistir;
- O olhar de quem reencontrou um propósito no trabalho, depois de se ter perdido no cansaço durante muito tempo; ou um simples "obrigado" dito de forma sincera, que vale mais do que qualquer reconhecimento formal.
Entre adultos, aprendemos rapidamente que nem tudo é perfeito.
Há diferenças de opinião.
Há momentos em que sentimos que o nosso esforço passa despercebido.
E talvez uma das maiores dificuldades de quem trabalha na área da formação seja esta: dar constantemente aos outros aquilo de que, por vezes, também nós sentimos falta.
Houve alturas em que pensei em desistir.
Quando senti que alguns já não acreditavam no propósito da formação.
Quando percebi que há adultos que chegam tão cansados da vida que até servir começa a parecer um fardo.
No entanto, foi precisamente nesses momentos que compreendi algo importante: formar adultos no escutismo não é criar dirigentes perfeitos.
É ajudar pessoas imperfeitas a prosseguir o seu caminho.
É lembrar-lhes que ninguém serve sozinho.
Que ninguém precisa de carregar tudo em silêncio.
E que até os dirigentes mais fortes também precisam, por vezes, de apoio.
Mais consciente das fragilidades humanas.
Mais prudente nas palavras.
No entanto, tenho a certeza de que esta missão vale a pena.
Porque, quando ajudamos um dirigente a reencontrar o sentido do seu serviço, estamos, embora de forma indireta, a transformar a vida de dezenas de jovens.
Talvez isso seja o verdadeiro escutismo: uma corrente silenciosa de pessoas imperfeitas que continuam a cuidar umas das outras, mesmo cansadas, mesmo feridas, mesmo sem reconhecimento. Mas porque continuo a acreditar que servir, formar e acompanhar pessoas é uma das formas mais profundas de deixar uma marca no mundo.
Sempre Alerta para Servir.