sexta-feira, 29 de maio de 2026

NEM SEMPRE SABEMOS CUIDAR DE QUEM CUIDA

Somos tão pequenos quando celebramos a queda daqueles que, durante tanto tempo, carregaram o fardo de servir.
No escutismo também acontece. Basta um erro, uma decisão menos acertada, um cansaço que finalmente se torna visível, para surgirem logo vozes prontas a diminuir quem ontem admiravam em silêncio. Como se a fragilidade de um adulto apagasse automaticamente tudo o que ele já deu. Como se uma falha tivesse mais importância do que anos inteiros de dedicação.
E custa-me isso.
Custa-me ver adultos no escutismo — homens e mulheres que dedicaram horas da sua vida, noites da sua família, pedaços do seu descanso e do seu coração — serem tratados como descartáveis ao primeiro tropeção. Porque ninguém tropeça naquilo a que nunca se atreveu a caminhar.
A queda de alguém que serviu não me torna maior. Nunca fará. Só revela a pobreza de um coração que já não consegue olhar para os outros com gratidão e humanidade.
Exigimos uma perfeição cruel a quem apenas prometeu servir. Esquecemo-nos de que os nossos dirigentes não são heróis de pedra. São pessoas. Pessoas cansadas, por vezes. Feridas, por vezes. Inseguras, por vezes. Pessoas que, apesar de tudo, continuam a aparecer, a fazer, a acreditar e a dar-se.
E isso deveria comover-nos mais do que suscitar críticas vazias.
Há adultos no escutismo que incomodam porque vivem com demasiada intensidade. Porque dizem o que sentem. Lideram com paixão. Porque não sabem servir pela metade. E talvez o incómodo venha daí: da coragem que vemos neles e que tantas vezes nos falta.
Admiro profundamente quem escolhe ser inteiro. Quem prefere correr o risco de ser mal compreendido a viver escondido atrás de consensos mornos. Admiro quem continua fiel ao que acredita ser certo, mesmo sabendo que isso pode causar desgaste, julgamento e solidão.
No fim de contas, o escutismo nunca precisou de adultos perfeitos. O que precisou — e continua a precisar — foram de adultos verdadeiros. Adultos que amem os jovens o suficiente para lhes oferecerem tempo, presença, exemplo e coração. Adultos capazes de continuar, mesmo quando ninguém aplaude. Mesmo quando poucos agradecem.
Talvez devêssemos ter mais cuidado com aqueles que servem ao nosso lado. Porque há pessoas que passam anos a acender fogos nos outros, enquanto se vão apagando silenciosamente por dentro.
Obrigado a todos os adultos que continuam a servir assim, com imperfeição, mas com alma inteira. Que nunca nos falte a humildade para cuidarmos uns dos outros, antes de nos apressarmos a julgar. E que nunca nos tornemos tão pequenos ao ponto de pensarmos que a fragilidade de alguém diminui a grandeza da sua entrega.



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