terça-feira, 19 de maio de 2026

A SOLIDÃO INVISÍVEL DO DIRETOR DE FORMAÇÃO ESCUTISTA

No contexto da formação escutista, fala-se frequentemente do espírito de equipa, da fraternidade, da entreajuda e do serviço. Contudo, há uma realidade pouco abordada: a solidão do diretor de formação. Trata-se de uma solidão discreta, silenciosa e profundamente exigente, que acompanha quem assume a responsabilidade de planear, coordenar e assegurar o bom funcionamento de uma ação de formação escutista.
Falo desta realidade com conhecimento de causa, pois acumulei muitos anos de experiência como formador escutista. Enquanto diretor de formação, dirigi dezenas de ações de formação, vivendo intensamente cada preparação, cada início de curso, cada dificuldade superada e cada momento de crescimento humano partilhado com os formandos e as equipas de formação. Hoje, um pouco mais retirado dessa missão permanente, surge inevitavelmente uma sensação estranha: a de caminhar lentamente para o esquecimento.
Talvez esse seja o destino natural de quem serviu durante muitos anos nos bastidores. As formações terminam, as gerações renovam-se, os dirigentes seguem os seus caminhos e os nomes daqueles que, durante anos, sustentaram estas estruturas acabam, muitas vezes, por desaparecer silenciosamente da memória coletiva. Permanecem apenas algumas recordações, alguns rostos, alguns agradecimentos dispersos e a consciência tranquila de ter servido.
Ao contrário do que muitas vezes se pensa, dirigir uma ação de formação não significa apenas cumprir um programa pedagógico. É necessário estar atento a tudo em simultâneo: aos conteúdos, aos formadores, aos horários, às condições logísticas, aos espaços, aos ritmos dos formandos e até ao ambiente humano que se cria ao longo da atividade.
O diretor de formação é, habitualmente, o primeiro a chegar e o último a descansar. Antes mesmo do início da ação, já está mergulhado em preocupações: confirmar presenças, verificar materiais, assegurar que os espaços estão em condições, garantir refeições, alojamento, equipamentos e outros pormenores que quase ninguém vê, mas que fazem toda a diferença no sucesso da formação.
Há momentos particularmente difíceis e angustiantes. Um deles é, sem dúvida, a espera por um formador que se atrasa e ainda não chegou ao local da formação. Enquanto os formandos aguardam e o programa corre contra o tempo, o diretor tenta manter a serenidade exterior, embora sinta interiormente o peso da responsabilidade. No escutismo, onde se procuram transmitir valores, organização e exemplo, estes momentos adquirem uma intensidade acrescida.
Ao longo da atividade, há também uma vigilância constante sobre os pormenores logísticos e as condições arquitetónicas do espaço: a segurança, a funcionalidade das salas, os acessos, o conforto possível, os locais de repouso e convívio. Uma formação escutista não se vive apenas nas sessões, mas também no ambiente, na relação entre as pessoas e na experiência global proporcionada.
Depois, quando um módulo termina, o trabalho continua. O diretor despede-se do formador, recolhe impressões, reorganiza horários, ajusta atividades e acompanha os formandos, que muitas vezes estão cansados, são exigentes ou inseguros. Há sempre alguém que precisa de atenção, orientação ou, simplesmente, de alguém que o ouça.
E, quando finalmente chega a noite, o verdadeiro descanso é raro. O corpo pode parar, mas a mente permanece desperta. O pensamento já está no dia seguinte: no horário da alvorada, no formador da manhã, nos materiais em falta, nos imprevistos possíveis. Dorme-se pouco quando se sente que a responsabilidade pelo bem-estar e pela qualidade da formação recai sobre nós.
Na minha opinião, esta é uma das dimensões menos reconhecidas da formação escutista. Quem dirige estas ações fá-lo com uma grande entrega pessoal, sempre de forma voluntária, silenciosa e sem procurar reconhecimento. No entanto, é graças a esse esforço invisível que muitos formandos vivem experiências marcantes, crescem enquanto escuteiros e regressam às suas unidades mais preparados e animados para servir.
Hoje, ao olhar para trás, permanece uma mistura de orgulho, saudade e silêncio. Orgulho pelo caminho feito. Saudade da intensidade dessas vivências. Silêncio, porque com o tempo percebemos que o mais importante no serviço escutista nunca foi o reconhecimento pessoal, mas sim o impacto que tivemos nos outros.
Talvez seja importante falar mais sobre esta solidão. Não para a dramatizar, mas para reconhecer o valor humano daqueles que assumem a missão de formar outros no escutismo. Porque, muitas vezes, enquanto todos desfrutam da formação, há alguém que, sobretudo, se encarrega de garantir que esta aconteça. E mesmo quando o tempo passa e os nomes começam lentamente a desaparecer da memória, permanece a marca invisível do serviço prestado.



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