quinta-feira, 30 de abril de 2026

UM OLHAR SOBRE QUEM FICA E QUEM PARTE…
Há momentos inesperados que nos confrontam com o tempo — não o tempo que passa no relógio, mas o tempo que se acumula dentro de nós. Ao entrar na sede e olhar para fotografias antigas, reconhecemos rostos e percebemos que muitos já não estão. É um choque silencioso. Não pela ausência em si, mas pelo que esta representa.
Cada fotografia de grupo não é apenas o registo de um "Dia de Promessas". É um retrato de potencial. Jovens que, naquele momento, estavam comprometidos com algo maior, integrados numa comunidade e a dar os primeiros passos num percurso que poderia ter sido longo e transformador. No entanto, muitos desses caminhos ficaram por ali.
É difícil não imaginar o que poderia ter acontecido. Quem teria crescido para se tornar um dirigente? Quem teria deixado a sua marca nas gerações futuras? Quem estaria hoje a assumir responsabilidades e a renovar o espírito do agrupamento? Estas perguntas não têm resposta — e talvez seja isso que mais custa.
No entanto, há uma verdade menos evidente: o valor da jornada não se mede apenas pela sua duração. Para muitos, o tempo vivido no movimento foi suficiente para deixar uma marca indelével. Levaram consigo aprendizagens, valores e memórias. O facto de terem saído não apaga o que viveram, apenas redefine o impacto.
Ainda assim, a inquietação permanece. Quem fica sente uma responsabilidade. Sente que podia ter feito mais, acolhido melhor, percebido os sinais e criado condições diferentes. Nem sempre isso é justo, mas é humano.
Talvez o verdadeiro desafio esteja em transformar essa dor em consciência. Não como um fardo, mas como um impulso. Olhar para os que estão hoje com mais atenção. Criar espaços onde se sintam vistos, ouvidos e necessários. Compreender que a permanência não depende apenas da vontade individual, mas também da qualidade das relações e do sentido que encontram ao longo do caminho.
As fotografias continuam na parede. No entanto, o agrupamento não é um arquivo, mas sim um organismo vivo. Enquanto houver quem se importe, quem repare, quem questione... haverá sempre a possibilidade de escrever histórias diferentes.
Nem todos ficarão. Nunca ficarão todos. Mas alguns ficarão mais tempo — e melhor — graças a quem decide não ser indiferente.



É SÓ VOCAÇÃO?...


Ser chefe de escuteiros não é apenas uma ocupação de tempos livres; é, na minha opinião, uma escolha profundamente reveladora sobre a forma como um adulto vê o seu papel na sociedade. Num mundo cada vez mais centrado no individualismo e na gratificação imediata, decidir dedicar tempo e energia ao Escutismo é quase um ato de resistência — uma afirmação de que formar pessoas continua a ser uma das tarefas mais importantes que existem.
Acredito que muitos adultos procuram este papel porque sentem falta de propósito. O trabalho, por si só, raramente preenche todas as dimensões humanas, e o escutismo oferece algo que poucos espaços oferecem hoje: impacto direto e visível na vida dos outros. Ao acompanhar o crescimento de um jovem, o chefe não está apenas a ensinar técnicas de sobrevivência ou organização — está a contribuir para a construção de caráter. E isso tem um valor que dificilmente pode ser medido.
Por outro lado, também vejo nesta escolha um certo romantismo. A herança deixada por Baden-Powell ainda ecoa na ideia de aventura, camaradagem e ligação à natureza. Para muitos adultos, ser chefe é uma forma de recuperar — ou manter viva — essa dimensão mais simples e autêntica da vida, frequentemente esquecida na rotina moderna.
No entanto, nem tudo é ideal. É importante reconhecer que o papel de chefe exige responsabilidade, maturidade emocional e uma capacidade constante de dar mais do que receber. Quem procura apenas autoridade ou reconhecimento rapidamente percebe que o escutismo não recompensa essas motivações. Liderar jovens implica paciência, coerência e, acima de tudo, exemplo.
Em suma, ser chefe de escuteiros é, para mim, uma escolha que revela compromisso com algo maior do que o próprio indivíduo. Não é um papel fácil, nem sempre é reconhecido, mas continua a ser uma das formas mais genuínas de contribuir para o futuro — ajudando a formar pessoas mais conscientes, responsáveis e solidárias.

quarta-feira, 29 de abril de 2026

A TÉCNICA ESCUTISTA

Quando Baden-Powell fundou o escutismo, introduziu o conceito de "scoutcraft" — um termo até então inexistente que passou a designar um conjunto de técnicas essenciais para o explorador, batedor ou escuteiro. Em Portugal, este conjunto é geralmente conhecido como "técnica escutista".
À primeira vista, o objetivo do treino destas técnicas parece ser preparar os jovens para explorarem territórios desconhecidos e enfrentarem situações de sobrevivência. Nos dias de hoje, esta ideia pode parecer ultrapassada ou irrelevante.
Contudo, o verdadeiro propósito da técnica escutista vai muito além disso. O seu principal objetivo é desenvolver competências pessoais e sociais nos jovens, ajudando-os a tornar-se cidadãos responsáveis, autónomos e solidários. A técnica escutista é, assim, um meio para atingir um fim: a formação integral da pessoa.
No escutismo, reconhece-se que cada jovem tem talentos e capacidades diferentes. Enquanto alguns se destacam na orientação com mapa e bússola, outros revelam mais aptidão para montar abrigos, cozinhar ao ar livre ou liderar equipas. O mais importante é que cada escuteiro tenha espaço para descobrir e desenvolver os seus pontos fortes, contribuindo assim para o bem comum.
Através do treino constante e da experiência prática, os jovens apercebem-se de duas verdades fundamentais: o conhecimento individual é limitado e há sempre algo novo a aprender.
O trabalho em equipa multiplica as soluções, pois a combinação dos conhecimentos de todos leva a melhores resultados.
Por exemplo, durante um acampamento, um escuteiro pode não saber como acender uma fogueira com materiais naturais. No entanto, ao colaborar com os colegas e aprender com quem já domina a técnica, desenvolve novas competências e compreende o valor da partilha de conhecimentos.
As atividades que envolvem a técnica escutista, como construções de pioneirismo, orientação, primeiros socorros ou cozinha de campo, colocam frequentemente os escuteiros perante problemas práticos. A constante vivência destes desafios ajuda-os a desenvolver hábitos de resiliência e criatividade na resolução de problemas, competências essenciais para a vida adulta.
(publicado originalmente a 29 de abril de 2025)



segunda-feira, 27 de abril de 2026

QUEM AMA, CUIDA…
Há algo de profundamente simbólico nesta imagem: enquanto os jovens descansam, confiantes e alheios aos riscos, alguém permanece desperto, atento e silenciosamente responsável. O chefe, que pode representar liderança, experiência ou sacrifício, não está ali apenas para mandar, mas para cuidar. E isso diz muito sobre o verdadeiro significado da liderança.
Esta cena expõe uma diferença essencial entre autoridade e responsabilidade. Liderar não é ocupar o centro das atenções, mas sim assumir o peso invisível de garantir que tudo funcione, mesmo quando ninguém está a ver. O chefe não descansa porque compreende que a segurança dos outros depende dele. Há um certo isolamento nisso, quase uma solidão: ele está acordado quando todos dormem e alerta quando todos confiam.
Também nos faz refletir sobre como, muitas vezes, o esforço daqueles que nos protegem passa despercebido. Os jovens provavelmente nunca saberão quantas vezes aquele homem percorreu o acampamento, quantas preocupações evitou ou quantos perigos antecipou. Ainda assim, ele continua. Há uma dignidade silenciosa neste tipo de cuidado, um compromisso que não procura reconhecimento.
A imagem levanta também uma questão importante: até que ponto é saudável carregar sozinho essa responsabilidade? Liderar não deveria também significar ensinar os outros a observar, a cuidar e a partilhar o fardo? Um bom líder não só protege, como também prepara os outros para que um dia possam fazer o mesmo.

No fundo, esta cena não se resume a um acampamento. É sobre confiança, dever e o tipo de presença que apoia os outros sem esperar nada em troca. E talvez seja precisamente este tipo de liderança — discreta, vigilante e profundamente humana — que mais falta nos dias de hoje. 



SELFIES, NÃO… OBRIGADO!

Hoje em dia, o mundo cabe na palma da mão e cada instante parece implorar por uma moldura digital. Por vezes, esquecemo-nos de abrir as mãos... e viver. A imagem revela mais do que atividades: revela caminhos. Caminhos de terra e de água, de fogo e de vento, de descoberta e de coragem. E nenhum deles foi feito apenas para ser fotografado.
Há uma diferença enorme entre registar e sentir. A selfie congela o sorriso; o escutismo liberta-o. A fotografia mostra o instante, a experiência constrói a memória. A verdadeira beleza não está na perfeição do enquadramento, mas na vibrante imperfeição do momento vivido: o tropeção durante a caminhada, o riso inesperado, a fogueira que aquece não só as mãos, mas também as histórias.
Viver o escutismo é aceitar o convite da aventura de coração aberto. É deixar o telemóvel no bolso e permitir que os olhos sejam a lente, a pele o sensor e a alma o arquivo. É remar contra a corrente e perceber que a força não está apenas nos braços, mas na união. É perder-se no trilho e encontrar-se a si próprio.
As selfies procuram aprovação; o escutismo constrói identidade. As primeiras desaparecem no fluxo infinito de imagens; o segundo permanece, silencioso e firme, na nossa essência. Porque cada desafio superado, cada noite sob as estrelas e cada gesto de entreajuda deixam em nós uma marca que nenhuma câmara consegue captar.
Há um mundo inteiro para viver para além do ecrã. Um mundo que não precisa de filtros, pois já é autêntico por si só. Um mundo onde o vento não pede autorização para ser sentido e a aventura não espera por um clique.
Por isso, vive. Corre. Erra. Aprende. Ri sem poses. Olha sem distrações. Sente sem pressa.
Porque mais importante do que qualquer selfie... é viver o escutismo.



sábado, 25 de abril de 2026

NA REALIDADE, SOMOS ACOLHEDORES, TRANSPARENTES?

O acolhimento das famílias num agrupamento de escuteiros é muitas vezes tratado como um momento simples e protocolar. No entanto, deveria ser encarado como uma das etapas mais estratégicas de todo o projeto educativo. É neste primeiro contacto que se estabelece o tom da relação entre os escuteiros e as famílias, que pode ser de parceria ativa ou de distanciamento passivo.
Na minha opinião, um dos maiores erros que um agrupamento pode cometer é assumir que os pais "já sabem ao que vêm". Hoje em dia, muitas famílias aproximam-se do escutismo sem qualquer referência prévia. Para algumas, trata-se apenas de mais uma atividade extracurricular, ao lado do futebol ou da música. Se o agrupamento não for claro e intencional na forma como comunica o seu propósito, perde-se uma oportunidade valiosa de transmitir que o escutismo vai muito além disso.
Um exemplo prático bastante simples: em vez de entregar apenas um documento com o projeto educativo, o agrupamento pode organizar uma pequena sessão de apresentação dinâmica. Nessa sessão, os dirigentes podem partilhar experiências reais, por exemplo, um acampamento em que os jovens tiveram de cozinhar juntos, resolver conflitos ou superar dificuldades. Este tipo de narrativa ajuda os pais a compreenderem que não se trata apenas de "atividades", mas sim de desenvolvimento de autonomia, responsabilidade e trabalho de equipa.
Outro aspeto essencial é a criação de um espaço de escuta ativa. Muitas vezes, o acolhimento é feito de forma unilateral: o agrupamento fala e os pais ouvem. No entanto, um acolhimento eficaz deve ser um diálogo. Por exemplo, pode ser útil fazer perguntas diretas como:
- "O que esperam que os vossos filhos encontrem aqui?"
- “Há alguma preocupação ou necessidade específica que queiram partilhar?”
Este tipo de perguntas não só demonstra abertura, como também permite adaptar a abordagem educativa. Imagine uma família cujo filho tem dificuldade em socializar: saber isso desde o início permite aos responsáveis acompanhar mais atentamente a integração desse jovem.
Também é importante trabalhar a questão das expectativas. Um exemplo muito comum é o da quotização. Se este tema não for explicado com clareza e transparência, pode gerar desconfiança. Em vez de indicar apenas um valor, o agrupamento pode explicar concretamente para que servem essas contribuições: material, seguros, atividades, formação de dirigentes, entre outros. Tal transforma uma obrigação financeira numa compreensão do investimento educativo.
Outro ponto que merece atenção é a apresentação dos dirigentes do agrupamento. Não basta dizer quem são; é importante humanizar a apresentação. Em vez de uma simples lista de nomes, cada dirigente pode partilhar brevemente o seu percurso no escutismo e o que mais valoriza nesta missão. Tal ajuda a criar confiança, pois os pais deixam de ver "responsáveis desconhecidos" e passam a ver pessoas com um propósito.
Um exemplo interessante que alguns agrupamentos já aplicam é o "dia aberto" ou a "atividade experimental". Neste dia, as famílias são convidadas a assistir ou até a participar numa atividade típica. Ao observarem os seus filhos a montar tendas, a trabalhar em equipa e a resolver desafios, conseguem compreender muito melhor o valor do escutismo do que através de qualquer explicação teórica.
No entanto, talvez o maior desafio resida na gestão das diferentes atitudes das famílias. Como foi referido, há pais muito envolvidos e outros mais distantes. Em vez de encarar esta situação como um problema, é possível considerá-la uma oportunidade de adaptação. Por exemplo:
— as famílias mais disponíveis podem ser convidadas a colaborar em atividades ou na logística;
— as famílias mais distantes podem ser envolvidas gradualmente, através de comunicações simples e regulares, como um resumo mensal das atividades.
O mais importante é evitar julgamentos apressados. Um pai que aparenta desinteresse pode, na verdade, ter limitações de tempo ou experiências negativas anteriores. Um bom acolhimento deve também ter esta dimensão empática.
Por fim, acredito que o acolhimento não deve ser visto como um momento isolado, mas sim como o início de um processo contínuo. Pequenos gestos ao longo do tempo fazem toda a diferença: uma mensagem após a primeira atividade, um feedback positivo sobre o jovem ou até um convite para um momento informal com outras famílias.
Em suma, um bom acolhimento não se resume a informar, mas também a envolver, escutar e construir confiança. Quando isso acontece, o agrupamento escutista deixa de ser apenas um espaço onde os jovens participam para se tornar uma verdadeira comunidade educativa, onde as famílias e os dirigentes caminham na mesma direção.



SE BADEN-POWELL VOLTASSE, RECONHECERIA A ATUAL FORMAÇÃO?

A formação dos nossos dirigentes enfrenta hoje um desafio inevitável: permanecer fiel à essência do escutismo sem se tornar irrelevante para os jovens do século XXI. Este equilíbrio não é fácil de alcançar, mas é absolutamente necessário.
Durante muito tempo, a formação escutista baseou-se sobretudo na transmissão de tradições, símbolos e práticas herdadas quase inalteradas desde a origem do movimento. Essa continuidade tem valor, pois é ela que confere identidade ao escutismo e o distingue de outras propostas educativas. No entanto, quando a formação se limita a repetir modelos do passado, corre-se o risco de preparar dirigentes para um tipo de jovem que já não existe.
Os jovens de hoje vivem num mundo mais rápido, mais complexo e mais exigente do ponto de vista emocional. Encontram-se expostos a desafios como a pressão social digital, questões de saúde mental, diversidade cultural e identitária, bem como a uma relação diferente com a autoridade. Ignorar este contexto na formação de dirigentes é, no fundo, comprometer a eficácia educativa do próprio escutismo.
Isso não significa, porém, que seja necessário "reinventar" o escutismo. Pelo contrário, os seus princípios fundamentais continuam surpreendentemente atuais. A educação através da ação, a vida em pequenos grupos, a responsabilidade progressiva e o contacto com a natureza constituem respostas sólidas a muitos dos problemas contemporâneos. O erro está em aplicá-los de forma rígida ou descontextualizada.
Na minha opinião, a formação de dirigentes deve evoluir em três direções claras. Primeiro, deve tornar-se mais prática e experiencial, centrada em situações reais e não apenas em conteúdos teóricos. Os dirigentes aprendem verdadeiramente quando experimentam, refletem e ajustam, tal como se espera que façam com os jovens.
Em segundo lugar, a formação deve integrar competências humanas essenciais, como a escuta ativa, a empatia e a gestão de conflitos. Atualmente, liderar jovens não significa dar ordens, mas sim saber acompanhar processos de crescimento pessoal, que muitas vezes são complexos e não lineares.
Em terceiro lugar, a formação deve respeitar a realidade dos adultos. Os dirigentes são voluntários com vidas profissionais e familiares exigentes. Modelos formativos rígidos, demorados e burocráticos tendem a afastar precisamente aqueles que poderiam fazer a diferença. A flexibilidade e a relevância são, por conseguinte, fundamentais.
Em última análise, não se trata de escolher entre tradição e modernidade. A questão fundamental é se somos capazes de compreender o espírito do escutismo e não apenas a sua forma, e de o aplicar com inteligência ao mundo atual. Se o conseguirmos, o escutismo continuará a ser uma das propostas educativas mais completas e transformadoras. Caso contrário, corre o risco de se tornar uma boa ideia do passado, incapaz de responder ao presente.



quinta-feira, 23 de abril de 2026

“TODOS, TODOS, TODOS…”, MAS!

O escutismo assenta em valores que vão muito além das atividades ao ar livre ou das dinâmicas de animação dos jovens. No centro de tudo estão as pessoas, nomeadamente os adultos que assumem a responsabilidade de educar pelo exemplo. É por isso que falar de relações tóxicas entre adultos no escutismo não é apenas desconfortável, mas absolutamente necessário.
Há comportamentos que, mesmo quando disfarçados de forma subtil, corroem o ambiente educativo: a crítica constante, a necessidade de controlo, a desvalorização do trabalho dos outros ou a incapacidade de dialogar com respeito. Não se tratam apenas de "questões de personalidade"; são atitudes que geram tensão, afastam voluntários e, mais grave ainda, comprometem o exemplo dado aos jovens.
Num movimento em que se espera que os adultos sejam referências, a existência de dinâmicas tóxicas levanta uma questão incómoda: como podemos exigir aos jovens que vivam os valores que promovemos se nós próprios falhamos nos princípios mais básicos? A incoerência não passa despercebida e tem um custo educativo real.
Esta incoerência torna-se ainda mais evidente quando certos grupos recorrem a slogans inspiradores, muitas vezes provenientes de figuras como o Papa Francisco, repetindo expressões como "todos, todos, todos" para transmitir uma ideia de inclusão e acolhimento. A frase é poderosa, mobilizadora e, no contexto certo, profundamente transformadora. No entanto, quando fica apenas no discurso, perde a sua força e pode até tornar-se um símbolo de contradição.
Afinal, dizer "todos" implica, de facto, incluir todos: os que pensam diferente, os que questionam, os que erram, os que não fazem parte do círculo mais próximo. Implica paciência, escuta ativa e, muitas vezes, a capacidade de lidar com o desconforto. No entanto, o que por vezes se observa é o oposto: exclusões silenciosas, decisões fechadas e ambientes onde nem todos se sentem verdadeiramente bem-vindos.
Não se trata de considerar o uso de slogans como algo negativo; pelo contrário, as palavras têm poder e podem inspirar comunidades inteiras. O problema surge quando essas palavras não correspondem às atitudes do dia a dia. Nesse momento, deixam de ser uma orientação para se tornarem apenas retórica.
É igualmente importante salientar que o conflito não é sinónimo de toxicidade. As divergências fazem parte de qualquer equipa saudável. O problema surge quando o desacordo deixa de ser construtivo e se torna pessoal, destrutivo ou persistente. A linha pode ser ténue, mas os efeitos são bem visíveis.
Ignorar estes comportamentos em nome da "harmonia" é um erro. O silêncio protege o problema, não a equipa. É fundamental promover uma cultura de diálogo aberto, em que haja espaço para dar feedback, definir limites e, quando necessário, intervir de forma clara e responsável.
O escutismo tem um enorme potencial transformador, mas este depende diretamente da qualidade das relações entre os adultos. Não basta repetir valores ou slogans, é necessário vivê-los, sobretudo quando tal exige mais de nós. Porque, afinal, educar não é o que dizemos, mas sim o que fazemos todos os dias com todos.



CELEBRAR SÃO JORGE, HOJE: UMA TRADIÇÃO ESCUTISTA EM EVOLUÇÃO

O Dia de São Jorge ocupa um lugar especial no universo escutista, não só pela figura histórica e lendária que representa, mas também pelo simbolismo que os escuteiros, ao longo das gerações, souberam reinterpretar e atualizar. Enquanto padroeiro do escutismo mundial, São Jorge está associado à coragem, à integridade e à capacidade de enfrentar os desafios com firmeza, valores centrais na proposta educativa do escutismo.

No entanto, mais do que uma evocação simbólica, a comemoração deste dia deve ser entendida como uma oportunidade concreta para viver os ideais escutistas. A sua importância manifesta-se de forma distinta, mas complementar, nos vários níveis da organização escutista.

A nível nacional, o Dia de São Jorge pode funcionar como um momento de afirmação identitária. Trata-se de uma ocasião privilegiada para reforçar o sentido de pertença a um movimento global com expressão local. Iniciativas de dimensão nacional, presenciais ou digitais, permitem unir escuteiros de diferentes regiões em torno de valores comuns e promover a visibilidade pública do escutismo junto da sociedade.

A nível regional, a comemoração adquire uma dimensão mais próxima e comunitária. Atividades entre agrupamentos, jogos na cidade, caminhadas ou ações de serviço permitem criar laços entre escuteiros que, apesar de pertencerem a realidades diferentes, partilham o mesmo compromisso. Este nível intermédio é particularmente relevante para fomentar o espírito de fraternidade e cooperação, valores essenciais no escutismo.

A nível de agrupamento, a celebração do Dia de São Jorge tem um caráter mais íntimo e formativo. Neste contexto, a criatividade dos dirigentes e dos próprios jovens pode dar origem a atividades adaptadas às idades, interesses e contextos específicos. Desde jogos temáticos inspirados na lenda de São Jorge até dinâmicas de reflexão sobre o "dragão" que cada um é chamado a vencer nos dias de hoje — como o medo, a indiferença ou a injustiça — o mais importante é garantir que a tradição não se torne um ritual vazio, mas sim uma experiência significativa.

Neste sentido, é essencial refletir sobre a adaptação desta tradição aos tempos atuais. Vivemos numa sociedade marcada por rápidas transformações tecnológicas, sociais e culturais. Os escuteiros de hoje enfrentam desafios diferentes dos de há décadas e isso exige uma abordagem renovada. Celebrar São Jorge não deve consistir apenas em repetir práticas do passado, mas sim em reinterpretá-las à luz das necessidades contemporâneas. Por exemplo, a integração de temas como a sustentabilidade, a cidadania digital ou a inclusão social nas atividades do dia pode tornar a celebração mais relevante e alinhada com o mundo atual.

Além disso, o espírito de serviço, tão central no escutismo, deve ser reforçado nesta data. Em vez de se limitarem a atividades internas, os agrupamentos podem aproveitar o Dia de São Jorge para desenvolverem ações concretas na comunidade, dando testemunho dos valores que proclamam.

Em suma, a comemoração do Dia de São Jorge continua a ter um grande potencial educativo no escutismo. A sua importância não reside apenas no passado que evoca, mas sobretudo na capacidade de inspirar os escuteiros de hoje a viverem com coragem, sentido de dever e espírito de serviço. Para tal, é essencial que cada nível da organização — nacional, regional e local — encontre formas criativas e atuais de celebrar este dia, garantindo que a tradição permanece viva, significativa e transformadora.



domingo, 19 de abril de 2026

NÃO SÃO ELES QUE SAEM. SOMOS NÓS QUE PERDEMOS

Podem fazer-se estudos e mais estudos, relatórios e diagnósticos, mas há um certo desconforto em admitir isto — e talvez seja mesmo necessário: não são os jovens que estão a falhar ao escutismo. É o escutismo que, em muitos casos, está a falhar aos jovens.
Durante décadas, o escutismo assentou numa proposta clara baseada na aventura, no desafio, na autonomia e na superação. Não se tratava de slogans vazios, mas de uma prática vivida. Construíam-se jangadas e elas eram testadas nos rios. Subiam-se serras com uma mochila às costas e uma fotocópia (ainda não a cores!) de uma carta topográfica nas mãos. Dormia-se pouco, errava-se muito e aprendia-se ainda mais. Havia risco — controlado, sim — mas sobretudo havia responsabilidade. E isso fazia toda a diferença.
Hoje, em demasiados contextos, esta proposta foi-se diluindo. Em nome da segurança, da logística, da falta de tempo — ou até de uma certa tentação de "facilitar" —, a exigência foi substituída por conforto, a autonomia por programação adulta e a aventura por atividades previsíveis. Criou-se um escutismo mais limpo, mais organizado... e, paradoxalmente, menos relevante.
E depois estranha-se que os jovens entre os 14 e os 18 anos desistam.
Mas o que lhes estamos realmente a oferecer? Reuniões semanais com jogos pouco exigentes? Atividades em que tudo já está decidido? Experiências em que o erro é evitado em vez de integrado? Para esta idade, isso não só sabe a pouco, como também sabe a infantil.

Os adolescentes não procuram apenas ocupar o tempo. Procuram intensidade, identidade e pertença. Procuram histórias que valham a pena contar. Procuram sentir-se capazes. Procuram testar os seus limites físicos, emocionais e sociais. Quando o escutismo abdica de lhes proporcionar tudo isto, abdica do seu próprio núcleo.
Há também uma questão de confiança. Ao retirar espaço de decisão, ao proteger em excesso e ao simplificar constantemente, estamos a dizer implicitamente: "Não confiamos em vocês para mais". E eles percebem. E respondem como seria de esperar: afastam-se.
O mais irónico é que, ao tentarmos eliminar o risco, criámos outro bem mais sério: o da irrelevância.
Não se trata de defender a imprudência nem de ignorar as exigências atuais. Trata-se de reequilibrar. De compreender que a segurança não pode significar a esterilização da experiência. Que planear não significa controlar tudo. Orientar não pode significar substituir.
Se queremos manter os jovens, especialmente os mais velhos, temos de lhes devolver um escutismo à altura da sua idade: exigente, imperfeito, desafiante e, acima de tudo, seu.
Caso contrário, continuaremos a assistir ao mesmo fenómeno. Não como surpresa. Mas como consequência direta das escolhas que fomos fazendo.



quarta-feira, 15 de abril de 2026

ENTRE O SERVIÇO E A VAIDADE: UMA REFLEXÃO SOBRE LIDERANÇA NO ESCUTISMO

Fala-se muito de serviço, de humildade, de comunidade e de liderança pelo exemplo. No entanto, como em qualquer espaço humano, não se está imune a contradições. E talvez uma das mais incómodas seja esta: nem todos os que lideram vivem verdadeiramente o espírito que proclamam.

Há dirigentes que encaram o escutismo como uma missão. Estão onde é preciso e fazem o que é necessário, muitas vezes longe dos olhares. Não procuram reconhecimento, pois sabem que o verdadeiro impacto não se mede em aplausos, mas sim nas vidas que ajudam a transformar. São estes que sustentam o movimento, silenciosamente, de forma consistente e com sentido de responsabilidade.

No entanto, há também outro perfil, menos falado, mas igualmente presente. O dos que confundem liderança com visibilidade. Aqueles que transformam a estrutura escutista numa escada, onde cada degrau é uma oportunidade de afirmação pessoal. São hábeis no discurso, atentos às dinâmicas de poder e disponíveis para agradar a quem decide, mesmo que isso implique abdicar da frontalidade ou da coerência.

Não se trata de uma crítica gratuita nem de um exercício de superioridade moral. Trata-se de reconhecer um desvio que, se não for questionado, corrói o que é essencial. Porque o escutismo não pode ser um palco para vaidades nem um espaço onde o mérito se confunde com a proximidade estratégica.

O problema não está apenas nas intenções individuais, mas também na cultura que, por vezes, se vai instalando. Quando se valoriza mais quem aparece do que quem faz, quando o discurso tem mais peso do que a prática e quando a progressão depende mais de relações do que de um compromisso real, então algo está desalinhado com os princípios que afirmamos defender.

E o mais preocupante é o exemplo que se transmite. Os jovens observam. Percebem quem serve e quem se serve. Aprendem não com o que dizemos, mas com o que fazemos. Se normalizarmos comportamentos pouco éticos ou pouco escutistas, estaremos, na prática, a legitimar uma forma de estar que contraria tudo aquilo que queremos ensinar.

Importa, por isso, recentrar. Reafirmar que liderar no escutismo é, acima de tudo, servir. A autoridade nasce da coerência, não da posição. O reconhecimento, quando surge, deve ser uma consequência e nunca um objetivo.

É igualmente importante ter a coragem de identificar estas situações, de não compactuar com jogos de bastidores e de valorizar quem trabalha com discrição e integridade. Não para excluir ou rotular, mas para proteger o que de mais valioso o escutismo tem.

No fim, a diferença é clara. Uns passam pelo escutismo. Outros constroem-no. Uns procuram subir na vida. Outros procuram servir. E é dessa escolha — tantas vezes silenciosa — que depende o futuro do movimento.



domingo, 12 de abril de 2026

QUEREMOS SER CREDÍVEIS... DAMOS O EXEMPLO?

Aproximam-se as eleições nacionais para a Junta Central e para o Conselho Fiscal e Jurisdicional Nacional para o triénio 2026/2029 e, mais uma vez, instala-se o silêncio, a indiferença e o alheamento.
Num movimento que se afirma como escola de cidadania, tal não é apenas preocupante, mas também profundamente incoerente.
A abstenção total de um agrupamento não é um acaso nem um pormenor sem importância. É um falhanço. Um falhanço coletivo, mas também um falhanço de liderança. Quando ninguém vota, não se trata de uma questão de falta de tempo ou de desatenção, mas sim de desinteresse instalado, ausência de mobilização e, provavelmente, de uma cultura interna falhada.
E neste caso não vale a pena relativizar. O chefe de agrupamento tem responsabilidades claras. Liderar não é ocupar um cargo, mas sim mobilizar, envolver, dar sentido e garantir que o agrupamento está vivo e participa. Quando a participação é nula, a liderança tem de ser questionada sem rodeios.
Alegar que "a participação depende de todos" é confortável, mas insuficiente. Quem lidera tem o dever acrescido de criar condições para que a participação exista. Quando tal não acontece, não basta lamentar: é necessário assumir responsabilidades.
A responsabilização não é um ataque pessoal nem um excesso de rigor. É, simplesmente, coerência. Um movimento que pretenda formar cidadãos não pode tolerar estruturas onde a cidadania não é praticada.
Ignorar isso é pactuar com a irrelevância. É aceitar que os processos existem apenas no papel e que os valores são meramente decorativos.
Se queremos um movimento sério, credível e fiel aos seus princípios, então temos de começar por exigir muito mais a quem lidera e a quem escolhe não participar.