quinta-feira, 23 de abril de 2026

“TODOS, TODOS, TODOS…”, MAS!

O escutismo assenta em valores que vão muito além das atividades ao ar livre ou das dinâmicas de animação dos jovens. No centro de tudo estão as pessoas, nomeadamente os adultos que assumem a responsabilidade de educar pelo exemplo. É por isso que falar de relações tóxicas entre adultos no escutismo não é apenas desconfortável, mas absolutamente necessário.
Há comportamentos que, mesmo quando disfarçados de forma subtil, corroem o ambiente educativo: a crítica constante, a necessidade de controlo, a desvalorização do trabalho dos outros ou a incapacidade de dialogar com respeito. Não se tratam apenas de "questões de personalidade"; são atitudes que geram tensão, afastam voluntários e, mais grave ainda, comprometem o exemplo dado aos jovens.
Num movimento em que se espera que os adultos sejam referências, a existência de dinâmicas tóxicas levanta uma questão incómoda: como podemos exigir aos jovens que vivam os valores que promovemos se nós próprios falhamos nos princípios mais básicos? A incoerência não passa despercebida e tem um custo educativo real.
Esta incoerência torna-se ainda mais evidente quando certos grupos recorrem a slogans inspiradores, muitas vezes provenientes de figuras como o Papa Francisco, repetindo expressões como "todos, todos, todos" para transmitir uma ideia de inclusão e acolhimento. A frase é poderosa, mobilizadora e, no contexto certo, profundamente transformadora. No entanto, quando fica apenas no discurso, perde a sua força e pode até tornar-se um símbolo de contradição.
Afinal, dizer "todos" implica, de facto, incluir todos: os que pensam diferente, os que questionam, os que erram, os que não fazem parte do círculo mais próximo. Implica paciência, escuta ativa e, muitas vezes, a capacidade de lidar com o desconforto. No entanto, o que por vezes se observa é o oposto: exclusões silenciosas, decisões fechadas e ambientes onde nem todos se sentem verdadeiramente bem-vindos.
Não se trata de considerar o uso de slogans como algo negativo; pelo contrário, as palavras têm poder e podem inspirar comunidades inteiras. O problema surge quando essas palavras não correspondem às atitudes do dia a dia. Nesse momento, deixam de ser uma orientação para se tornarem apenas retórica.
É igualmente importante salientar que o conflito não é sinónimo de toxicidade. As divergências fazem parte de qualquer equipa saudável. O problema surge quando o desacordo deixa de ser construtivo e se torna pessoal, destrutivo ou persistente. A linha pode ser ténue, mas os efeitos são bem visíveis.
Ignorar estes comportamentos em nome da "harmonia" é um erro. O silêncio protege o problema, não a equipa. É fundamental promover uma cultura de diálogo aberto, em que haja espaço para dar feedback, definir limites e, quando necessário, intervir de forma clara e responsável.
O escutismo tem um enorme potencial transformador, mas este depende diretamente da qualidade das relações entre os adultos. Não basta repetir valores ou slogans, é necessário vivê-los, sobretudo quando tal exige mais de nós. Porque, afinal, educar não é o que dizemos, mas sim o que fazemos todos os dias com todos.



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