quinta-feira, 30 de abril de 2026

UM OLHAR SOBRE QUEM FICA E QUEM PARTE…
Há momentos inesperados que nos confrontam com o tempo — não o tempo que passa no relógio, mas o tempo que se acumula dentro de nós. Ao entrar na sede e olhar para fotografias antigas, reconhecemos rostos e percebemos que muitos já não estão. É um choque silencioso. Não pela ausência em si, mas pelo que esta representa.
Cada fotografia de grupo não é apenas o registo de um "Dia de Promessas". É um retrato de potencial. Jovens que, naquele momento, estavam comprometidos com algo maior, integrados numa comunidade e a dar os primeiros passos num percurso que poderia ter sido longo e transformador. No entanto, muitos desses caminhos ficaram por ali.
É difícil não imaginar o que poderia ter acontecido. Quem teria crescido para se tornar um dirigente? Quem teria deixado a sua marca nas gerações futuras? Quem estaria hoje a assumir responsabilidades e a renovar o espírito do agrupamento? Estas perguntas não têm resposta — e talvez seja isso que mais custa.
No entanto, há uma verdade menos evidente: o valor da jornada não se mede apenas pela sua duração. Para muitos, o tempo vivido no movimento foi suficiente para deixar uma marca indelével. Levaram consigo aprendizagens, valores e memórias. O facto de terem saído não apaga o que viveram, apenas redefine o impacto.
Ainda assim, a inquietação permanece. Quem fica sente uma responsabilidade. Sente que podia ter feito mais, acolhido melhor, percebido os sinais e criado condições diferentes. Nem sempre isso é justo, mas é humano.
Talvez o verdadeiro desafio esteja em transformar essa dor em consciência. Não como um fardo, mas como um impulso. Olhar para os que estão hoje com mais atenção. Criar espaços onde se sintam vistos, ouvidos e necessários. Compreender que a permanência não depende apenas da vontade individual, mas também da qualidade das relações e do sentido que encontram ao longo do caminho.
As fotografias continuam na parede. No entanto, o agrupamento não é um arquivo, mas sim um organismo vivo. Enquanto houver quem se importe, quem repare, quem questione... haverá sempre a possibilidade de escrever histórias diferentes.
Nem todos ficarão. Nunca ficarão todos. Mas alguns ficarão mais tempo — e melhor — graças a quem decide não ser indiferente.



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