NÃO SÃO ELES QUE SAEM. SOMOS NÓS QUE PERDEMOS
Podem fazer-se estudos e mais estudos, relatórios e diagnósticos, mas há um certo desconforto em admitir isto — e talvez seja mesmo necessário: não são os jovens que estão a falhar ao escutismo. É o escutismo que, em muitos casos, está a falhar aos jovens.
Durante décadas, o escutismo assentou numa proposta clara baseada na aventura, no desafio, na autonomia e na superação. Não se tratava de slogans vazios, mas de uma prática vivida. Construíam-se jangadas e elas eram testadas nos rios. Subiam-se serras com uma mochila às costas e uma fotocópia (ainda não a cores!) de uma carta topográfica nas mãos. Dormia-se pouco, errava-se muito e aprendia-se ainda mais. Havia risco — controlado, sim — mas sobretudo havia responsabilidade. E isso fazia toda a diferença.
Hoje, em demasiados contextos, esta proposta foi-se diluindo. Em nome da segurança, da logística, da falta de tempo — ou até de uma certa tentação de "facilitar" —, a exigência foi substituída por conforto, a autonomia por programação adulta e a aventura por atividades previsíveis. Criou-se um escutismo mais limpo, mais organizado... e, paradoxalmente, menos relevante.
E depois estranha-se que os jovens entre os 14 e os 18 anos desistam.
Mas o que lhes estamos realmente a oferecer? Reuniões semanais com jogos pouco exigentes? Atividades em que tudo já está decidido? Experiências em que o erro é evitado em vez de integrado? Para esta idade, isso não só sabe a pouco, como também sabe a infantil.
Os adolescentes não procuram apenas ocupar o tempo. Procuram intensidade, identidade e pertença. Procuram histórias que valham a pena contar. Procuram sentir-se capazes. Procuram testar os seus limites físicos, emocionais e sociais. Quando o escutismo abdica de lhes proporcionar tudo isto, abdica do seu próprio núcleo.
Há também uma questão de confiança. Ao retirar espaço de decisão, ao proteger em excesso e ao simplificar constantemente, estamos a dizer implicitamente: "Não confiamos em vocês para mais". E eles percebem. E respondem como seria de esperar: afastam-se.
O mais irónico é que, ao tentarmos eliminar o risco, criámos outro bem mais sério: o da irrelevância.
Não se trata de defender a imprudência nem de ignorar as exigências atuais. Trata-se de reequilibrar. De compreender que a segurança não pode significar a esterilização da experiência. Que planear não significa controlar tudo. Orientar não pode significar substituir.
Se queremos manter os jovens, especialmente os mais velhos, temos de lhes devolver um escutismo à altura da sua idade: exigente, imperfeito, desafiante e, acima de tudo, seu.



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