QUANDO AJUDAR É NÃO INTERFERIR: O DESAFIO DE DEIXAR JOVENS APRENDER
Uma das tarefas mais difíceis de quem acompanha jovens no Escutismo — seja como dirigente, ou como pais — é assistir a uma situação que sabemos perfeitamente como resolver… e escolher não a resolver.
A tenda está a ser montada de forma completamente errada.
O jantar está atrasado quase uma hora.
O Guia de Patrulha esqueceu-se de uma tarefa importante.
A atividade não está a decorrer como previsto.
E nós estamos ali, a poucos metros, a pensar:
“Se me deixassem intervir, isto ficava resolvido em
trinta segundos.”
E, por vezes, é mesmo necessário intervir.
Quando existe um risco para a segurança, quando alguém
precisa de ajuda ou quando a situação ultrapassa aquilo que os jovens conseguem
gerir, o adulto deve assumir a responsabilidade que lhe compete.
Mas há muitas outras situações em que a dificuldade, o erro
e até alguma frustração fazem parte da aprendizagem escutista.
E se deixarmos acontecer?
O Escutismo oferece aos jovens algo que nem sempre encontram
noutros contextos: um espaço onde podem experimentar, decidir, errar e tentar
novamente.
Uma Patrulha que demora mais tempo a montar o campo está a
aprender a organizar-se.
Um Guia que se esquece de uma tarefa está a descobrir as
consequências de uma decisão.
Uma atividade que não corre como planeado é uma oportunidade
para avaliar, adaptar e encontrar soluções.
Um jantar que se atrasa pode ensinar mais sobre planeamento
e divisão de tarefas do que uma longa explicação de um adulto.
Claro que ninguém gosta de ver uma atividade a correr mal.
Como dirigentes, investimos tempo na preparação, queremos que tudo funcione e
sentimos naturalmente vontade de intervir quando percebemos que alguma coisa
está a descarrilar.
Mas precisamos de nos perguntar:
Estamos perante um problema que precisa de ser resolvido
ou perante uma oportunidade que precisa de ser vivida?
Esta distinção nem sempre é fácil.
O adulto não desaparece. Muda de papel.
Deixar os jovens experimentar não significa abandonar os
jovens à sua sorte.
O dirigente continua presente. Observa. Acompanha. Faz
perguntas. Antecipa riscos. Está disponível. Intervém quando necessário.
Mas nem sempre dá a resposta.
Em vez de dizer:
“Faz assim.”
pode perguntar:
“Que outras soluções conseguem encontrar?”
Em vez de corrigir imediatamente:
“Isso está errado.”
pode dizer:
“O que acham que está a fazer com que isto não resulte?”
Em vez de assumir a liderança:
“Deixem que eu trato disso.”
pode esperar e permitir que a Patrulha encontre o seu
próprio caminho.
Esta mudança parece pequena, mas é fundamental.
Porque o objetivo do Escutismo não é criar jovens que sabem
executar perfeitamente aquilo que os adultos lhes dizem.
É formar jovens capazes de pensar, decidir, agir e
assumir responsabilidades.
A Patrulha precisa de espaço para ser Patrulha
É aqui que o Sistema de Patrulhas ganha toda a sua força.
Uma Patrulha não é apenas um grupo de jovens que realiza
tarefas em conjunto. É um espaço onde se aprende a trabalhar com os outros, a
distribuir responsabilidades, a liderar, a negociar, a resolver conflitos e a
tomar decisões.
Para isso acontecer, é preciso existir espaço para que os
jovens façam coisas que os adultos fariam de outra maneira.
Talvez a solução deles não seja a mais rápida.
Talvez não seja a mais elegante.
Talvez nem sequer seja a melhor.
Mas, se for segura e adequada à sua idade e experiência,
pode ser precisamente a solução de que precisam para aprender.
O adulto pode pensar:
“Eu faria isto de outra forma.”
E talvez tenha razão.
Mas a pergunta mais importante não é:
“Qual é a melhor maneira de fazer isto?”
É:
“Qual é a melhor maneira de os ajudar a aprender a
fazê-lo?”
Errar também é aprender
No quotidiano, tentamos muitas vezes proteger os jovens do
erro.
Queremos evitar a frustração, o atraso, o desconforto e as
consequências de uma má decisão.
No Escutismo, porém, temos uma oportunidade extraordinária:
podemos proporcionar experiências em que o erro tenha consequências reais, mas proporcionais
e seguras.
Esquecer um material pode significar ter de encontrar uma
solução.
Calcular mal o tempo pode obrigar a reorganizar o programa.
Não dividir bem as tarefas pode fazer perceber que o
trabalho não pode ficar todo sobre os mesmos.
Uma decisão pouco acertada pode ser analisada no final da
atividade e transformar-se numa aprendizagem para a próxima.
O importante é que o erro não seja transformado em
humilhação.
O jovem não deve ouvir:
“Eu bem te disse.”
Deve encontrar um adulto que o ajude a refletir:
“O que aconteceu? O que aprendeste? O que farias de
maneira diferente da próxima vez?”
É nesse momento que o erro deixa de ser apenas um erro e
passa a ser uma experiência educativa.
Nem sempre precisamos de salvar o dia
Talvez um dos maiores desafios para um dirigente seja
resistir à tentação de tornar tudo mais fácil.
Queremos reuniões organizadas, atividades dentro do horário,
campos bem montados e Patrulhas eficientes.
E isso é importante.
Mas o Escutismo não existe para produzir atividades
perfeitas.
Existe para educar através da ação.
E aprender através da ação implica experimentar.
Implica alguma desorganização.
Implica decisões menos boas.
Implica frustração.
Implica voltar atrás e tentar de novo.
Implica, muitas vezes, que os adultos tenham a humildade de
observar uma solução imperfeita sem a substituir imediatamente pela sua própria
solução.
Então, quando devemos intervir?
Não existe uma regra simples que resolva todas as situações.
Mas talvez possamos fazer algumas perguntas antes de avançar:
Há algum risco para a segurança?
Se sim, intervimos.
A situação ultrapassa claramente a idade, experiência ou
capacidade dos jovens?
Se sim, acompanhamos mais de perto e ajudamos.
As consequências do erro são graves ou irreversíveis?
Se sim, não devemos deixar que a aprendizagem aconteça à
custa de um dano desnecessário.
Mas, se a situação é segura e as consequências são
proporcionais, talvez possamos fazer outra coisa:
esperar.
Observar.
Dar espaço.
Fazer uma pergunta.
Permitir que tentem.
E, se for necessário, ajudá-los a refletir depois.
Talvez o verdadeiro sucesso de uma atividade escutista não
seja terminar tudo exatamente à hora prevista ou montar o campo sem qualquer
dificuldade.
Talvez seja chegar ao final e perceber que uma Patrulha que,
no início, não sabia como resolver um problema, conseguiu encontrar uma
solução.
Que um jovem que tinha medo de assumir uma responsabilidade
conseguiu fazê-lo.
Que um Guia percebeu que não precisava de fazer tudo
sozinho.
Que alguém cometeu um erro, assumiu-o e descobriu como
melhorar.
É nesses pequenos momentos, muitas vezes invisíveis para
quem está de fora, que acontece uma parte essencial da educação escutista.
Por isso, da próxima vez que estivermos a poucos metros de
uma Patrulha e pensarmos “Eu consigo resolver isto em trinta segundos”,
talvez valha a pena respirar fundo e esperar mais um pouco.
Talvez eles precisem mesmo da nossa ajuda.
Mas talvez precisem ainda mais da oportunidade de descobrir
que conseguem resolver por si próprios.
Porque, no Escutismo, o nosso papel não é simplesmente
ensinar os jovens a fazer as coisas.
É criar as condições para que, um dia, já não precisem de
nós para as fazer.







