VIVER O MÉTODO ESCUTISTA NO TECOREE
Afinal, o que é que queremos que os nossos jovens levem daqui?
Quando pensamos no TECOREE, é fácil pensar primeiro nas
técnicas.
Nos nós. Nas amarrações. Na orientação. Na topografia. Na
cozinha. Nas transmissões. No tempo que temos para cumprir uma prova. Nos
pontos. Na classificação.
E claro que tudo isso faz parte.
Há uma competição. Há desafios. Há vontade de fazer bem. Há
nervos, cansaço, entusiasmo e, provavelmente, alguns momentos em que apetece
perguntar:
“Porque é que nos metemos nisto?”
Mas o TECOREE pode ser muito mais do que isso.
Aliás, talvez seja precisamente aí que esteja o seu maior
valor.
Porque, no meio de todas essas provas, há jovens a descobrir
que conseguem fazer coisas que julgavam não conseguir. Há patrulhas a aprender
a ouvir-se umas às outras. Há erros, discussões, tentativas, gargalhadas e
momentos em que alguém acaba por dizer:
“Vamos tentar outra vez.”
E é aí que começa a acontecer Escutismo.
O TECOREE é uma competição, sim.
Mas pode ser também um espaço privilegiado para viver o Método
Escutista.
E talvez seja essa a parte que mais nos interessa enquanto
dirigentes.
A técnica é importante. Mas aquilo que fazemos com ela é
ainda mais importante.
Ganhar, sim. Mas sem perder aquilo que somos.
É normal querer ganhar.
Seria estranho preparar uma equipa durante meses e depois
dizer que o resultado não interessa.
Claro que interessa.
Queremos fazer bem. Queremos superar-nos. Queremos que o
nosso esforço dê frutos.
Mas há momentos em que a vontade de ganhar pode falar mais
alto.
É aí que a Lei e a Promessa deixam de ser apenas palavras
que conhecemos e passam a ser escolhas concretas.
Como reagimos quando achamos que uma decisão não foi justa?
Como tratamos uma equipa que está a competir connosco?
O que fazemos quando um elemento da nossa equipa falha?
Conseguimos reconhecer que outra equipa esteve melhor?
E conseguimos ganhar sem achar que somos melhores do que os
outros?
São coisas simples, mas são precisamente estas pequenas
escolhas que mostram quem somos.
No final, gostávamos que os nossos jovens pudessem dizer:
“Demos tudo o que tínhamos. E continuámos a ser
escuteiros.”
Porque ganhar é bom.
Mas ganhar sem deixar para trás os nossos valores é muito
melhor.
Porque uma aventura é mais do que aquilo que acontece.
Há coisas que não conseguimos explicar muito bem, mas que
ficam.
Um grito de equipa antes de uma prova.
Um símbolo que acompanha a equipa.
Uma história que se vai construindo ao longo dos treinos.
Uma tradição que nasce naquele TECOREE e que, anos mais
tarde, ainda alguém recorda.
São pequenos detalhes.
Mas são esses detalhes que muitas vezes transformam uma
atividade numa memória.
A Mística e a Simbologia ajudam-nos a dar significado àquilo
que estamos a viver.
Porque fazer uma prova atrás da outra pode ser apenas isso:
fazer provas.
Mas se cada desafio fizer parte de uma aventura, se houver
uma identidade comum, se os jovens sentirem que estão a construir alguma coisa
juntos, a experiência ganha outra dimensão.
Até o Adufe pode ser visto dessa forma.
Mais do que um prémio, pode representar tudo aquilo que
aconteceu até chegar ali: os treinos, os erros, o esforço, as decisões, as
noites passadas a preparar a equipa e todas as vezes que foi preciso tentar
novamente.
No fundo, o que fica não é só o resultado.
Fica a história que construímos para chegar até ele.
É no terreno que muitas coisas se tornam reais.
Há aprendizagens que são muito diferentes quando acontecem
fora de uma sala.
Podemos explicar como se lê uma carta.
Podemos falar sobre orientação.
Podemos ensinar como se monta uma estrutura.
Podemos explicar como gerir os recursos que temos.
Mas depois chega o momento em que estamos no terreno.
Está frio. Está calor.
Começa a chover. O sol queima.
O caminho não é exatamente aquele que estava no mapa.
A estrutura não está tão estável como parecia.
E, de repente, aquilo que aprendemos deixa de ser teoria.
Passa a ser necessário.
É também aí que a Natureza nos ensina.
Ensina-nos a preparar melhor. A adaptar-nos. A respeitar o
espaço onde estamos. A perceber que nem tudo acontece como planeámos.
E talvez seja uma das grandes riquezas do TECOREE:
o campo não é apenas o sítio onde fazemos as provas. É
parte daquilo que nos ensina.
Porque saber explicar não é o mesmo que saber fazer.
Há coisas que podemos explicar vinte vezes.
E mesmo assim, quando chega a hora de fazer, percebemos que
ainda não sabemos.
É normal.
Um nó pode sair mal.
Uma amarração pode ficar frouxa.
Podemos interpretar mal uma carta.
Podemos montar uma estrutura e perceber que ela não funciona
como imaginávamos.
E nessa altura há duas opções.
Desistir.
Ou tentar perceber o que correu mal.
É aqui que o “aprender fazendo” ganha verdadeiro
significado.
Os jovens não aprendem apenas porque alguém lhes explicou
uma técnica.
Aprendem porque experimentaram.
Porque erraram.
Porque tiveram de pensar.
Porque perguntaram.
Porque tentaram outra vez.
E, às vezes, é precisamente depois daquele terceiro ou
quarto erro que aparece o momento:
“Agora já percebi.”
É esse momento que queremos criar.
Não queremos jovens que apenas saibam dizer como se faz.
Queremos jovens que tenham confiança para tentar fazer.
Sozinhos podemos ser bons. Juntos podemos ser muito
melhores.
Uma equipa nunca é perfeita.
E ainda bem.
Há quem seja muito bom nos nós.
Há quem tenha uma excelente capacidade de orientação.
Há quem seja mais organizado.
Há quem mantenha a calma quando todos os outros já estão a
entrar em stress.
Há quem tenha facilidade em liderar.
E há quem, simplesmente, seja aquela pessoa que dá uma
palavra certa no momento certo.
No TECOREE, todas estas diferenças contam.
O desafio não é perceber quem é o melhor elemento.
É perceber como conseguimos pôr o melhor de cada um ao
serviço da equipa.
Quem faz?
Quem ajuda?
Quem lidera?
Quem verifica?
Quem olha para o relógio?
Quem percebe que estamos a seguir pelo caminho errado?
E, sobretudo, quem consegue parar por um segundo e dizer:
“Vamos ouvir-nos uns aos outros.”
Porque uma equipa não ganha por ter quatro, cinco, seis, sete ou oito elementos
extraordinários.
Ganha quando esses elementos conseguem funcionar como uma
equipa.
E essa é uma aprendizagem que vai muito para além do
TECOREE.
A comparação que realmente interessa é connosco próprios.
É fácil olhar para a classificação.
É fácil perceber quem ficou à nossa frente e quem ficou
atrás.
Mas há outra comparação que pode ser muito mais importante.
Quem éramos antes de começar?
E quem somos agora?
Talvez um jovem tenha chegado no inicio do ano escutista aos treinos sem saber fazer
uma amarração.
Outro não se atrevia a liderar.
Outro tinha medo de tomar decisões.
Outro desistia rapidamente quando alguma coisa não corria
bem.
E depois passaram-se semanas.
Houve treinos.
Houve erros.
Houve dificuldades.
Houve pequenas vitórias.
E, pouco a pouco, alguma coisa mudou.
É isso que o Sistema de Progresso nos convida a procurar.
Por isso, talvez seja importante que cada jovem tenha o seu
próprio desafio.
Não precisa de ser o mesmo que o dos outros.
Pode ser aprender uma técnica.
Pode ser falar mais.
Pode ser confiar mais nas suas decisões.
Pode ser aprender a liderar.
Pode ser aprender a ouvir.
Pode ser simplesmente não desistir à primeira.
No final, podemos perguntar:
“Em que é que estás melhor agora do que estavas quando
começaste?”
Se houver uma resposta, então já houve progresso.
E isso não aparece na classificação.
Às vezes, ajudar é não dar logo a resposta.
Este talvez seja um dos maiores desafios para nós,
dirigentes.
Porque queremos ajudar.
Queremos que corra bem. Queremos que sejam autónomos.
Queremos evitar que eles cometam erros que nós já sabemos
que vão cometer.
E, por isso, é muito fácil dizer:
“Faz assim.”
Ou:
“Não, isso está errado.”
Ou simplesmente pegar na corda e fazer nós próprios.
Só que, se fizermos sempre isso, quem está a aprender?
Talvez uma das melhores coisas que podemos fazer seja dar
espaço.
Perguntar:
“O que acham que podemos fazer?”
“Que outra solução podemos experimentar?”
“Porque é que acham que não funcionou?”
E depois ficar ali.
Acompanhar.
Garantir a segurança.
Dar pistas quando é necessário.
Fazer perguntas.
Dar feedback.
Mas deixar que sejam eles a descobrir.
Não significa deixar os jovens sozinhos.
Significa confiar neles.
Estar ao lado, sem estar no lugar deles.
Talvez seja esta uma das melhores formas de os ajudar a
crescer.
O que aprendemos não é só para nós.
Podemos aprender muitas coisas no TECOREE.
Mas se tudo aquilo que aprendemos ficar connosco, alguma
coisa fica por cumprir.
Um jovem que aprendeu a fazer nós pode ensinar outro.
Quem ficou bom em orientação pode ajudar a preparar uma
atividade.
Quem aprendeu a organizar uma equipa pode assumir uma
responsabilidade no agrupamento.
Quem aprendeu a ouvir e a trabalhar com os outros pode levar
essa aprendizagem para a escola, para casa, para a sua vida.
Porque, no Escutismo, aprender nunca é apenas acumular
competências.
É também perceber o que podemos fazer com elas.
Por isso, uma pergunta simples pode acompanhar-nos depois do
TECOREE:
“Aquilo que aprendeste, a quem podes ensinar?”
Talvez seja aí que uma aprendizagem individual começa a
tornar-se serviço.
Se queremos que isto aconteça, não podemos pensar apenas nos
dias do torneio.
O TECOREE começa muito antes.
Começa no primeiro treino.
Na conversa em que a equipa percebe aquilo que precisa de
melhorar.
No momento em que alguém diz:
“Eu posso ficar responsável por isto.”
Começa quando os jovens decidem como vão organizar-se.
Quando experimentam uma técnica.
Quando alguma coisa corre mal.
Quando discutem.
Quando percebem que precisam uns dos outros.
Quando alguém assume a liderança.
Quando alguém que normalmente fica mais calado ganha coragem
para dar uma opinião.
É aí que o TECOREE começa verdadeiramente.
E depois continua.
Continua quando voltamos para casa e temos tempo para olhar
para aquilo que aconteceu.
Não apenas:
“Quanto fizemos?”
Mas:
“O que aconteceu?”
“O que correu bem?”
“Onde falhámos?”
“Porque é que falhámos?”
“O que aprendemos?”
“O que faríamos de maneira diferente?”
E talvez a pergunta mais importante:
“O que é que esta experiência mudou em nós?”
Porque sem reflexão, corremos o risco de viver uma
experiência intensa e simplesmente seguir em frente.
Com reflexão, podemos transformar essa experiência em
aprendizagem.
É claro que queremos ganhar.
Vamos ser honestos.
Queremos chegar ao fim e sentir que todo o trabalho valeu a
pena.
Queremos olhar para a classificação e ficar orgulhosos.
Queremos, quem sabe, levar o Adufe para casa.
Mas talvez possamos querer mais.
Podemos querer que, no final, cada jovem leve alguma coisa
consigo.
Talvez mais confiança.
Mais autonomia.
Mais capacidade de trabalhar em equipa.
Mais responsabilidade.
Mais vontade de aprender.
Mais coragem para tomar decisões.
Mais disponibilidade para ajudar os outros.
Coisas que não aparecem nos pontos.
Coisas que ninguém consegue medir com um cronómetro.
E se conseguirmos isso, então talvez tenhamos ganho qualquer
coisa muito mais importante.
A Lei e a Promessa lembram-nos quem somos.
A Mística e a Simbologia dão significado à aventura.
A Vida na Natureza transforma o campo num espaço de
aprendizagem.
O Aprender Fazendo mostra-nos que é através da
experiência que muitas vezes aprendemos melhor.
O Sistema de Patrulhas ensina-nos que precisamos uns
dos outros.
O Sistema de Progresso lembra-nos que devemos
procurar ser melhores do que éramos.
A Relação Educativa Jovem-Adulto ensina-nos a
acompanhar sem substituir.
E o Envolvimento na Comunidade lembra-nos que aquilo
que aprendemos deve estar disponível para os outros.
São oito elementos.
Mas, na prática, não acontecem separados.
Acontecem todos ao mesmo tempo.
Num treino.
Numa prova.
Numa decisão.
Num erro.
Numa gargalhada.
Numa discussão que acaba resolvida.
Num jovem que ganha coragem.
Numa equipa que percebe que, afinal, consegue.
É aí que o Método Escutista deixa de ser uma lista de
conceitos.
Passa a ser vivido.
MAIS DO QUE UM RESULTADO
No final, podemos ficar com uma classificação.
Podemos saber quantos pontos fizemos.
Quanto tempo demorámos.
Em que posição ficámos.
Mas há coisas que não aparecem em lado nenhum disso.
Não aparece o momento em que alguém quase desistiu e
continuou.
Não aparece a ajuda de um companheiro.
Não aparece aquela decisão que foi tomada em conjunto.
Não aparece o jovem que, pela primeira vez, teve coragem de
liderar.
Não aparece o erro que acabou por ensinar uma coisa
importante.
Não aparece a confiança que foi crescendo ao longo dos
treinos.
Não aparece o orgulho de uma equipa que percebeu que
conseguiu fazer algo que parecia impossível.
E talvez seja precisamente aí que esteja o verdadeiro valor
do TECOREE.
A técnica é aquilo que aprendemos a fazer.
A aventura é aquilo que vivemos.
Mas o mais importante é aquilo em que nos tornamos.
Se no final do TECOREE tivermos jovens mais capazes, mais
autónomos, mais confiantes, mais solidários e mais disponíveis para servir,
então teremos conseguido muito mais do que uma boa classificação.
Teremos vivido o Método Escutista.
E talvez essa seja a melhor vitória que podemos levar para
casa.




