quarta-feira, 2 de setembro de 2026

SER DIRIGENTE: ENTRE A FIRMEZA E A SERENIDADE

“O dirigente que é firme nas suas convicções, paciente com os outros, simples no servir, natural no agir e tranquilo perante as dificuldades está mais perto da Verdade.”

Há uma pergunta que vale a pena fazermos de vez em quando:

Que adulto sou eu quando estou ao serviço dos outros?

Não quando tudo corre bem.
Não quando a equipa está de acordo.
Não quando o acampamento está perfeitamente preparado.

Mas quando chove. Quando alguém discorda. Quando um jovem nos desafia. Quando uma atividade não corre como planeámos. Quando estamos cansados e já não temos a mesma paciência.

É nesses momentos que o nosso verdadeiro modo de estar se revela.

Ser dirigente é muito mais do que desempenhar uma função. É uma oportunidade permanente de servir, educar e crescer com os outros.

E talvez seja precisamente aí que cinco palavras nos possam ajudar a encontrar o caminho: firmeza, paciência, simplicidade, naturalidade e tranquilidade.

Firme, sem ser rígido

Um dirigente precisa de ter convicções.

Saber aquilo em que acredita. Conhecer os valores que defende. Ter coragem para tomar decisões — mesmo quando não são as mais populares.

Mas firmeza não é autoritarismo.

Ser firme é saber manter o rumo sem deixar de escutar quem caminha connosco.

Uma boa liderança não precisa de impor a sua presença. Inspira confiança porque é coerente.

Paciente, porque cada pessoa tem o seu tempo

No Escutismo, ninguém cresce ao mesmo ritmo.

Há quem arrisque primeiro. Há quem precise de mais tempo. Há quem erre muitas vezes antes de aprender. Há quem precise simplesmente de alguém que acredite nele.

A paciência é uma forma silenciosa de confiança.

Ser paciente é acreditar que as pessoas podem crescer, mesmo quando ainda não vemos o resultado.

Também nós, adultos, continuamos a aprender. Continuamos a errar. Continuamos a precisar dos outros.

E isso faz parte do caminho.

Simples, porque servir não é aparecer

O Escutismo ensina-nos uma coisa essencial: estar ao serviço.

Por vezes, porém, podemos confundir serviço com protagonismo.

O verdadeiro serviço nem sempre se vê.

Está naquele adulto que chega mais cedo para preparar. Naquele que fica até ao fim para arrumar. Naquele que resolve um problema sem procurar reconhecimento. Naquele que deixa outro assumir o protagonismo porque percebe que é a sua vez de crescer.

Servir é colocar o outro no centro.

A simplicidade lembra-nos que não precisamos de complicar aquilo que pode ser vivido com verdade.

Natural, porque não precisamos de representar um papel

Os jovens não precisam de adultos perfeitos.

Precisam de adultos verdadeiros.

Adultos capazes de dizer “não sei”.
Capazes de pedir desculpa.
Capazes de rir de si próprios.
Capazes de reconhecer um erro.
Capazes de mostrar entusiasmo, mas também cansaço.
Capazes de ser firmes sem deixarem de ser próximos.

Quando somos autênticos, damos aos outros liberdade para também serem quem são.

E é aí que nasce a confiança.

Tranquilo, sobretudo quando tudo parece correr mal

Há momentos em que o Escutismo nos põe à prova.

O plano falha.
A equipa entra em conflito.
O tempo muda.
Os recursos não chegam.
A decisão é difícil.

Nesses momentos, podemos escolher entre reagir ou parar.

Parar. Respirar. Escutar. Pensar. E só depois agir.

A tranquilidade não significa falta de preocupação. Significa não deixar que a preocupação nos impeça de pensar.

Um adulto tranquilo transmite segurança.

E, muitas vezes, quando todos procuram respostas, aquilo de que uma equipa mais precisa é simplesmente de alguém capaz de manter a serenidade.

E a Verdade?

Talvez a Verdade não seja uma resposta que encontramos de uma vez por todas.

Talvez seja um caminho.

Um caminho feito de escolhas diárias, de coerência entre aquilo que dizemos e aquilo que fazemos, de disponibilidade para aprender e de coragem para reconhecer quando precisamos de mudar.

Firmeza. Paciência. Simplicidade. Naturalidade. Tranquilidade.

Não são apenas características desejáveis num dirigente.

São atitudes que podem transformar a forma como vivemos o Escutismo.

Porque educamos muito mais pelo que fazemos do que pelo que dizemos.

E os jovens observam.

Observam como tratamos quem pensa diferente.
Como reagimos quando erramos.
Como lidamos com o poder.
Como assumimos responsabilidades.
Como cuidamos uns dos outros.

No fundo, o nosso maior instrumento educativo somos nós próprios.

Por isso, talvez a pergunta inicial possa ser outra:

Que exemplo estou a deixar quando sirvo no Escutismo?

Não precisamos de ser adultos perfeitos.

Precisamos de ser adultos coerentes, disponíveis e verdadeiros.

Adultos que saibam caminhar com os outros.

Adultos que saibam liderar sem dominar.

Adultos que saibam servir sem aparecer.

Adultos que, mesmo no meio das dificuldades, consigam manter o rumo e a serenidade.

Porque talvez seja isso que significa estar mais perto da Verdade:

ser aquilo que acreditamos, viver aquilo que ensinamos e servir aquilo que amamos.

Sempre alerta. Sempre a aprender. Sempre a caminho.

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