QUANDO O ESCUTISMO SE TRANSFORMA EM ANGARIAÇÃO DE FUNDOS?
Um agrupamento de escuteiros precisa de dinheiro.
Precisa pagar a renda da sede, comprar material, manter
equipamentos, financiar atividades, apoiar jovens com menos recursos e, em
alguns casos, simplesmente conseguir fechar as contas no final do mês. Angariar
fundos faz parte da realidade de muitas associações.
O problema não começa quando o agrupamento procura recursos.
Começa quando angariar recursos passa a consumir mais
energia do que aquilo que os recursos deveriam tornar possível.
É fácil perceber como isso acontece.
Primeiro aparece uma pequena campanha. Depois uma venda de
bolos. Depois uma quermesse. Em seguida, rifas, sorteios, festas, jantares,
bancas, calendários, produtos personalizados, campanhas online e pedidos de
apoio. Os adultos organizam, os jovens participam, as famílias ajudam e, pouco
a pouco, o calendário do agrupamento e das unidades começa a ser preenchido por
atividades cujo principal objetivo não é educativo.
No papel, continua tudo a ser "para os jovens".
Mas será que continua a ser para os jovens na
prática?
Um sábado que poderia ser um pequeno bivaque transforma-se
numa banca de vendas. Uma reunião de patrulha é substituída pela preparação de
uma festa. Um fim de semana que poderia proporcionar uma atividade ao ar livre
é ocupado pela montagem, funcionamento e desmontagem de um evento para angariar
dinheiro.
E surge uma pergunta desconfortável:
quanto escutismo estamos dispostos a sacrificar para
conseguir dinheiro para fazer escutismo?
A pergunta não é contra a angariação de fundos.
É contra a falta de proporção.
O dinheiro é um recurso. Não é a finalidade do Movimento
Escutista.
Quando uma patrulha organiza uma atividade para financiar um
acampamento, existe uma oportunidade educativa. Os jovens podem aprender a
planear, calcular custos, dividir responsabilidades, comunicar, vender, lidar
com imprevistos e perceber que uma atividade exige recursos.
Tudo isso pode ser escutismo.
Mas há uma diferença enorme entre aprender através de uma
angariação de fundos e transformar os jovens numa força de trabalho para
financiar a instituição.
Essa diferença nem sempre é fácil de perceber.
Um jovem que passa horas a vender rifas está necessariamente
a desenvolver autonomia? Uma criança que passa um domingo inteiro numa banca
está necessariamente a viver uma experiência educativa? Uma unidade que
organiza sucessivos eventos para pagar despesas está necessariamente a cumprir
melhor a sua missão?
Nem sempre.
Existe um momento em que a pergunta deixa de ser "o que
esta atividade ensina?" e passa a ser apenas "quanto dinheiro vamos
conseguir?"
Quando isso acontece, alguma coisa se perdeu pelo caminho.
O problema torna-se ainda maior quando a saúde financeira do
agrupamento passa a depender de uma espécie de ciclo permanente: é preciso
angariar dinheiro para manter a estrutura que exige mais dinheiro para ser
mantida.
Uma sede maior exige mais despesas.
Mais despesas exigem mais campanhas.
Mais campanhas ocupam mais tempo.
Mais tempo dedicado às campanhas significa menos tempo para
atividades.
Menos atividades podem reduzir o interesse e a participação.
E, para compensar, organizam-se ainda mais campanhas.
O agrupamento pode acabar preso numa armadilha curiosa:
trabalha cada vez mais para conseguir recursos para manter uma estrutura que
deveria existir para permitir que o escutismo aconteça.
É claro que há despesas inevitáveis. É claro que
equipamentos custam dinheiro. É claro que atividades têm custos. E é claro que
nem todas as famílias podem pagar tudo.
Por isso, a solução não é simplesmente "não angariar
fundos".
A solução talvez seja fazer perguntas mais difíceis.
Quanto custa realmente o nosso modelo de agrupamento?
Que despesas existem porque são necessárias e quais
existem porque nos habituámos a elas?
Estamos a tentar proporcionar boas experiências aos
jovens ou a manter uma estrutura maior do que aquilo que conseguimos sustentar?
Se tivéssemos metade das despesas, precisaríamos de
metade das campanhas?
E talvez a pergunta mais importante:
Se não precisássemos de angariar dinheiro neste sábado, o
que faríamos com os jovens?
A resposta pode ser reveladora.
Se a resposta for uma caminhada, um jogo, uma atividade de
patrulha, uma oficina, uma exploração, um acampamento ou simplesmente tempo de
qualidade juntos, então talvez devêssemos olhar com atenção para a proporção
que a angariação de fundos ocupa no nosso programa.
Há também uma questão ética.
Os jovens não são mão de obra barata.
Não são vendedores.
Não são responsáveis por resolver os problemas financeiros
criados pelos adultos.
Podem e devem participar em iniciativas de angariação de
fundos quando essas iniciativas fazem sentido educativo e são adequadas à sua
idade. Podem aprender com o trabalho, com a responsabilidade e até com a
frustração de descobrir que nem tudo se vende.
Mas existe uma diferença entre dar aos jovens uma
responsabilidade real e transferir para eles uma necessidade financeira
da organização.
O adulto deve ser capaz de reconhecer essa diferença.
Talvez uma das formas mais honestas de avaliar uma
angariação de fundos seja perguntar:
se o dinheiro não fosse necessário, ainda faríamos esta
atividade?
Se a resposta for sim, provavelmente existe ali uma boa
experiência escutista que também gera recursos.
Se a resposta for não, talvez estejamos apenas a procurar
uma forma eficiente de conseguir dinheiro utilizando o tempo dos jovens.
E isso merece ser discutido.
Porque o Movimento Escutista não existe para financiar
sedes, comprar equipamentos ou equilibrar orçamentos.
Existe para contribuir para a educação de crianças e jovens.
O dinheiro deve servir essa missão.
Nunca o contrário.
Uma boa gestão financeira não é aquela que consegue
organizar mais rifas, mais festas ou mais campanhas.
É aquela que consegue garantir os recursos necessários sem
transformar a vida do agrupamento numa sucessão de atividades cujo objetivo
principal é pagar as contas.
Talvez seja preciso ter a coragem de fazer algo que parece
contraintuitivo: reduzir.
Reduzir despesas.
Reduzir estruturas.
Reduzir aquilo que precisa de manutenção.
Reduzir aquilo que acumulámos porque "um dia pode dar
jeito".
Reduzir a dependência de receitas extraordinárias.
E, com isso, recuperar aquilo que nunca deveria ter sido
secundário.
O tempo dos jovens.
A presença dos adultos.
As patrulhas.
A aventura.
A descoberta.
A autonomia.
A vida ao ar livre.
A experiência de fazer algo pela primeira vez.
Porque existe uma ironia que vale a pena não ignorar:
podemos organizar uma angariação de fundos para pagar uma
atividade escutista e, no processo, gastar precisamente o tempo que deveria ter
sido dedicado a viver essa atividade.
Quando isso acontece, talvez não estejamos a financiar o
escutismo.
Talvez estejamos a financiar uma máquina que ficou grande
demais para o escutismo que pretende servir.
E talvez a verdadeira angariação de fundos comece antes de
pedir dinheiro a alguém.
Comece por perguntar:
de quanto realmente precisamos para fazer bom escutismo?
A resposta pode ser muito menor do que imaginamos.
E o escutismo que sobra pode ser muito maior.

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