#7 - Conversa entre escuteiros na tenda
Era noite no acampamento.
Depois de um dia inteiro de atividades, jogos, construções,
canções e, sobretudo, de um raid interminável, os quatro elementos da
Patrulha Morcego finalmente tinham conseguido chegar à tenda.
Tinham chegado cansados, sujos e com uma única certeza:
naquele momento, qualquer coisa que não envolvesse andar mais de cinco metros
era uma excelente atividade.
Luís, o sub-guia, estava deitado no saco-cama, muito direito
e muito sério, como se estivesse a comandar uma operação militar.
Filipe, o cozinheiro, tinha-se enrolado no saco-cama e ainda
cheirava ligeiramente a fumo da fogueira.
Diogo, o animador da patrulha, parecia ter guardado toda a
energia do dia apenas para continuar a falar.
E Tiago, o noviço recém-chegado da Alcateia, olhava
fixamente para o teto da tenda, desconfiado de que, a qualquer momento, alguma
coisa pudesse cair-lhe em cima.
Durante alguns segundos, reinou o silêncio.
Depois:
— Rapazes… — murmurou Diogo.
Ninguém respondeu.
— Rapazes!
Luís abriu um olho.
— O quê?
— Tenho uma ideia!
Filipe levantou ligeiramente a cabeça.
— Isso nunca acaba bem.
— Vamos fazer um jogo! — anunciou Diogo. — Cada um diz
aquilo que lhe mete mais medo.
Tiago levantou-se imediatamente.
— Eu começo!
Luís olhou para ele.
— Claro que começas. És o mais novo.
Tiago respirou fundo, como quem se preparava para revelar um
segredo de Estado.
— O meu maior medo é que, a meio da noite, me dê vontade de
fazer chichi e tenha de ir sozinho à casa de banho.
Luís desatou a rir.
— Isso é medo?
— É!
— Medo de quê?
— De tudo!
— Isso não explica nada.
Tiago começou a contar pelos dedos:
— Do escuro… dos barulhos… de algum desconhecido… de um
animal… de um fantasma…
Diogo interrompeu:
— Um fantasma?
— Sim!
— Tiago, estamos num acampamento de escuteiros. Os únicos
fantasmas que aparecem aqui de madrugada são os chefes, quando vêm verificar se
estamos a dormir.
Filipe acrescentou:
— E esses fazem mais barulho do que um fantasma.
Especialmente quando usam botas número 45.
Os quatro começaram a rir.
Luís abanou a cabeça.
— Isso é medo de lobito!
Tiago cruzou os braços.
— Pelo menos eu admito os meus medos!
— Está bem, está bem — disse Diogo. — Próximo. Luís?
O sub-guia ficou pensativo.
— O meu maior medo é ter negativa no teste de Português.
Silêncio.
Diogo piscou os olhos.
— A sério?
— Claro!
— Tens medo da professora?
— Não.
— De ficar de castigo?
— Também não.
— Então do quê?
Luís suspirou.
— Se tiver negativa, o meu pai não me dá o telemóvel novo
que pedi.
Silêncio outra vez.
Filipe espreitou para fora do saco-cama.
— Ah…
Diogo começou a sorrir.
— Então o teu verdadeiro medo não é ter negativa.
— Não?
— É ficares sem telemóvel.
— Exatamente.
— Então porque é que disseste Português?
Luís ficou alguns segundos a pensar.
— Porque dizer “tenho medo de ficar sem telemóvel” não fica
muito bem para um sub-guia.
Filipe concordou solenemente:
— Pois. É muito mais digno dizer que tens medo da gramática.
Nova explosão de gargalhadas.
Diogo levantou uma mão.
— Muito bem. Agora eu.
Os outros ficaram à espera.
Desta vez, Diogo não sorriu.
— O meu maior medo é estar numa situação em que alguém
precise de ajuda e eu não tenha coragem para agir.
A brincadeira parou.
— Como assim? — perguntou Tiago.
— Imaginem que estamos numa atividade e encontramos alguém
perdido ou ferido. Está a anoitecer, estamos longe do acampamento e não sabemos
bem o que fazer.
Fez uma pausa.
— Numa situação dessas, podemos ficar assustados. Podemos
querer fugir. Podemos pensar primeiro em nós.
Tiago levantou a mão.
— Eu sei o que faria.
— O quê?
— Corria.
Luís deu-lhe uma cotovelada.
— Tu corres muito pouco.
— Pois… então escondia-me.
Diogo riu-se.
— E é precisamente isso que me assusta. Não é ter medo. É
deixar que o medo me impeça de fazer aquilo que devo fazer.
Filipe ficou pensativo.
— Mas também não devemos fazer coisas perigosas só para
parecermos corajosos.
— Claro que não — respondeu Diogo. — Ser corajoso também é
saber quando devemos pedir ajuda.
Luís assentiu.
— Isso faz sentido.
Diogo olhou para Filipe.
— E tu? Ainda não disseste o teu.
Filipe ficou alguns segundos em silêncio.
— O meu maior medo é passar pela vida a ver pessoas com
fome, sem casa, sozinhas ou a sofrer injustiças… e ficar simplesmente a olhar.
Ninguém brincou.
— Às vezes pensamos que os grandes problemas são demasiado
grandes para nós — continuou Filipe. — Mas podemos sempre fazer alguma coisa.
Ajudar alguém. Partilhar o que temos. Defender quem precisa. Dar uma palavra
amiga.
Fez uma pausa.
— O que me assusta é saber que podia ter feito alguma coisa
e ter escolhido não fazer.
A tenda ficou silenciosa.
Lá fora, o vento mexia nas árvores.
Durante alguns segundos, nenhum dos quatro disse nada.
Até que Tiago levantou lentamente a mão.
— Posso fazer uma pergunta?
Luís olhou para ele.
— O quê?
— Se encontrarmos alguém perdido, temos de o levar para o
acampamento?
— Não — respondeu Diogo. — Primeiro pensamos no que fazer e
pedimos ajuda a um adulto.
Tiago ficou pensativo.
— Ah.
Mais alguns segundos de silêncio.
Depois levantou novamente a mão.
— E se for uma pessoa que sabe o caminho?
— Tiago…
— O quê?
— O que é que estás a pensar?
Tiago sorriu.
— Estou a pensar que já sei uma coisa que podemos fazer.
— O quê? — perguntou Filipe.
— Podemos começar por ajudar-me a ir à casa de banho.
Luís agarrou numa almofada.
— Nem penses!
— Mas vocês acabaram de dizer que devemos ajudar quem
precisa!
— Eu disse para pedires ajuda! — respondeu Diogo.
— Pois. Estou a pedir.
Filipe começou a rir.
— Acho que ele ganhou.
— Ninguém ganhou nada! — resmungou Luís.
Tiago apontou para a saída da tenda.
— Então quem vem comigo?
Silêncio.
Os três olharam uns para os outros.
Finalmente, Luís suspirou.
— Eu vou.
Tiago sorriu.
— Sabia que podia contar contigo.
— Não te habitues.
Diogo apagou a lanterna.
— Vá, rapazes. Agora é mesmo para dormir.
— Boa noite.
— Boa noite.
— Boa noite.
Passaram cinco segundos.
— Luís?
— O quê?
— Levas a lanterna?
— Levo.
— E vais à frente?
— Vou.
— E se aparecer um fantasma?
— Tiago!
A tenda voltou a encher-se de gargalhadas.
Pouco depois, os quatro ficaram finalmente em silêncio.
Naquela noite, a Patrulha Morcego percebeu que todos temos
medos diferentes.
Alguns parecem pequenos, como atravessar o acampamento às
escuras.
Outros são maiores, como encontrar alguém em dificuldades ou
assistir a uma injustiça sem saber o que fazer.
Mas também descobriram que coragem não significa não ter
medo.
Coragem é reconhecer o medo, pensar antes de agir, pedir
ajuda quando necessário e fazer aquilo que está ao nosso alcance para ajudar os
outros.
E, naquela noite, a Patrulha Morcego aprendeu ainda uma
última lição:
quando um companheiro precisa de ajuda, uma boa patrulha
não o deixa sozinho.
Mesmo que seja para ir à casa de banho à meia-noite.

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