PARA ALÉM DOS CONSELHOS: CRIAR ESPAÇOS PARA ESCUTAR, PARTICIPAR E APRENDER
No Escutismo, falar de participação é falar de uma das dimensões essenciais da nossa vivência associativa. Temos Conselhos, assembleias, equipas e outros espaços institucionais onde se debate, se apresentam propostas e se tomam decisões. São estruturas fundamentais e devem continuar a ser valorizadas.
Mas será que a participação escutista tem de acontecer
apenas nos espaços formais?
Talvez seja tempo de pensar mais longe.
Há dirigentes com ideias, experiências e preocupações que
nem sempre chegam a um Conselho. Há quem tenha muito para partilhar, mas não se
sinta confortável num espaço formal. Há quem esteja a começar, quem tenha pouca
experiência, quem não ocupe cargos ou simplesmente quem prefira contribuir de
outra forma.
E é aqui que pode surgir uma ideia simples, mas poderosa: criar
mais espaços de participação.
Escutar para além das estruturas
Podemos imaginar “cafés escutistas”, círculos de conversa,
fóruns temáticos, laboratórios de ideias, grupos de trabalho temporários,
encontros de partilha de boas práticas ou comunidades de aprendizagem.
Espaços onde não seja necessário ter um cargo para ter voz.
Espaços onde uma dificuldade concreta possa ser apresentada
e um grupo de dirigentes possa ajudar a encontrar soluções.
Espaços onde se possa perguntar sem receio: “Como fazem
isto na vossa unidade?”
Ou simplesmente: “Também vos acontece isto?”
Porque muitas vezes a formação mais significativa não
acontece numa sala de formação. Acontece numa conversa depois de uma atividade,
numa reunião informal, numa troca de experiências entre dirigentes ou quando
alguém partilha uma solução que aprendeu depois de cometer um erro.
Isto também é formação escutista.
E é formação não formal no seu sentido mais rico: aprender
fazendo, refletindo, partilhando e aprendendo com os outros.
E se criássemos os “Escuteiros Anónimos”?
Já falámos anteriormente dos “Escuteiros Anónimos” como uma possível metáfora para dar voz àquilo que muitas vezes fica escondido no Escutismo: as dúvidas, as dificuldades, os fracassos, os receios e até as pequenas vitórias que nem sempre temos coragem de partilhar.
Podemos levar essa ideia mais longe.
Um espaço de “Escuteiros Anónimos” poderia permitir que um
dirigente colocasse uma questão ou partilhasse uma situação sem medo de ser
julgado:
“Não sei como motivar a minha equipa.”
“Sinto que estou a fazer tudo sozinho.”
“Experimentei uma atividade e correu mal. O que fariam
diferente?”
“Tenho uma ideia, mas não sei se faz sentido.”
“Preciso de ajuda.”
E talvez a resposta não tivesse de vir de um especialista
(que muitas vezes, não o é…). Poderia vir de outros dirigentes que já passaram
pelo mesmo.
Não seria um espaço para procurar culpados. Seria um
espaço para procurar respostas.
Participar não é apenas votar
Existe também uma oportunidade para repensarmos o próprio
conceito de participação.
Participar não é apenas votar numa proposta. É também fazer
uma pergunta. É apresentar uma ideia. É discordar. É ouvir. É ajudar a resolver
um problema. É contar uma experiência. É experimentar uma solução. É reconhecer
que algo não funcionou. É aprender com quem está ao nosso lado.
Por isso, os Conselhos institucionais podem continuar a ser
os espaços onde determinadas decisões são formalmente tomadas, mas não precisam
de ser os únicos lugares onde as ideias nascem.
A decisão pode ser formal. A construção da decisão pode
ser muito mais aberta.
Antes de uma proposta chegar a um Conselho, pode ter passado
por dezenas de conversas, experiências, debates e contributos informais.
É aí que uma associação verdadeiramente participativa pode
ganhar força.
Pequenos espaços, grandes mudanças
Não precisamos necessariamente de criar mais estruturas
pesadas.
Pelo contrário.
Precisamos talvez de menos burocracia e mais
oportunidades de encontro.
Um encontro mensal de uma hora entre dirigentes de
diferentes unidades.
Um grupo online dedicado a um determinado tema.
Um “café de ideias” antes de uma grande decisão.
Um encontro onde se partilham atividades que correram bem —
e outras que correram mal.
Um grupo temporário criado para responder a um desafio
concreto.
Uma sessão de “Escuteiros Anónimos”.
Uma conversa entre dirigentes novos e dirigentes mais
experientes.
Pequenos espaços podem gerar grandes mudanças quando existe
uma cultura de confiança.
O mais importante: criar confiança
Nenhum novo espaço de participação funcionará se as pessoas
sentirem que têm de apresentar sempre a resposta certa.
Precisamos de espaços onde seja legítimo não saber.
Onde seja possível dizer “não concordo”.
Onde seja possível dizer “não consigo”.
Onde uma má experiência possa ser transformada em
aprendizagem.
Onde a experiência de um dirigente com muitos anos de
Escutismo tenha o mesmo valor humano que a pergunta de quem acabou de começar.
Porque a formação não formal acontece precisamente quando
criamos condições para que as pessoas aprendam umas com as outras.
E talvez esta seja uma das maiores riquezas que temos dentro
do Movimento: milhares de pessoas com experiências diferentes, problemas
diferentes, soluções diferentes e uma enorme vontade de fazer melhor.
Temos apenas de criar mais oportunidades para que essa
riqueza circule.
Uma associação que escuta é uma associação que aprende
Talvez o desafio não seja criar mais um órgão.
Talvez seja criar mais cultura de escuta.
Uma cultura em que os dirigentes não sejam apenas chamados
quando é necessário decidir, mas onde sejam regularmente convidados a
partilhar, questionar, experimentar e construir.
Uma cultura onde os jovens também tenham espaços reais para
influenciar as decisões que lhes dizem respeito.
Uma cultura onde a experiência de cada unidade possa
contribuir para o crescimento de todas.
E onde os “Escuteiros Anónimos” possam deixar de ser apenas uma ideia e passar a representar aquilo que todos nós, em algum momento, precisamos:
um lugar seguro para falar, ser escutados e descobrir que
não estamos sozinhos.
Porque o futuro do Escutismo não se constrói apenas nos
Conselhos.
Constrói-se também nas conversas de corredor, nas
perguntas difíceis, nas ideias improváveis, nas experiências partilhadas e nos
pequenos espaços onde alguém encontra coragem para dizer: “Tenho uma ideia.
Vamos conversar?”



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