AS TRÊS JANGADAS...
Uma expedição de cinco dias pelo coração da Albufeira
Há aventuras que se planeiam.
Há aventuras que se vivem.
E há aventuras que, depois de terminarem, continuam a viver dentro de nós.
Foi assim com a grande expedição de verão da Comunidade de Pioneiros.
Durante cinco dias, três equipas — Rainha Santa, Fernando Pessoa e Afonso Henriques — deixaram para trás a rotina, o conforto e as certezas, levando apenas aquilo que verdadeiramente importa numa aventura escutista: a mochila, as mãos para trabalhar, o coração para servir e os irmãos de caminho em quem confiar.
O destino era a Barragem de Castelo de Bode.
O ponto de partida, Foz de Alge.
Entre os dois, esperavam-nos a água, o sol, as margens da albufeira, o acampamento volante, a cozinha em campo, a vida em patrulha, a oração, o cansaço, o riso e, sobretudo, uma grande aventura.
Mas havia uma condição.
As próprias mãos teriam de construir o caminho.
O chamado da aventura
Ainda antes de a primeira jangada tocar a água, havia já uma missão para cumprir.
À frente das três equipas estavam troncos, varas, cordas e materiais que, à primeira vista, pareciam não passar de um monte desorganizado.
Mas um Pioneiro vê mais longe.
Onde outros veem madeira, ele vê uma jangada.
Onde outros veem cordas, ele vê uma construção.
Onde outros veem dificuldade, ele vê um desafio.
E foi assim que começou a construção.
A Rainha Santa reuniu-se.
A Fernando Pessoa reuniu-se.
A Afonso Henriques reuniu-se.
Cada equipa tinha o seu projeto, as suas ideias e a sua maneira de fazer.
Vieram os nós.
Vieram as amarrações.
Vieram as discussões.
Vieram os erros.
Vieram as gargalhadas.
E vieram aqueles momentos em que alguém dizia:
— Isto não vai aguentar!
E outro respondia:
— Vai ter de aguentar. Somos Pioneiros!
E apertava-se mais uma corda.
Mais um nó.
Mais uma amarra.
Porque no Escutismo aprendemos cedo que não é quando tudo corre bem que uma equipa mostra aquilo que vale. É quando aparece a dificuldade.
Ao fim de horas de trabalho, três jangadas começaram finalmente a ganhar forma.
E quando os últimos nós foram apertados, ninguém precisava de dizer nada.
Todos sabiam.
A aventura estava pronta para começar.
Primeiro dia — Foz de Alge
O primeiro mergulho dos remos na água pareceu quase um sinal.
A margem ficou para trás.
Foz de Alge desaparecia lentamente.
À frente estava a albufeira.
Atrás ficavam as preocupações de todos os dias.
Na água, havia apenas a equipa.
A jangada.
O remo.
E o caminho.
O acampamento volante obrigava a uma nova forma de viver.
Não havia lugar para levar tudo.
Não havia lugar para desperdícios.
Cada objeto tinha uma função.
Cada Pioneiro tinha uma responsabilidade.
Montar.
Desmontar.
Cozinhar.
Transportar.
Orientar.
Ajudar.
Servir.
E, quando o dia terminava, havia sempre o fogo.
À volta da fogueira, cansados e com as roupas marcadas pela aventura, os Pioneiros descobriam que o melhor momento do dia talvez não tivesse acontecido na água.
Acontecia ali.
Quando as vozes baixavam.
Quando alguém contava uma história.
Quando surgia uma canção.
Quando as chamas iluminavam os rostos.
E quando, por alguns minutos, ninguém tinha pressa de ir dormir.
Segundo dia — A força da patrulha
No segundo dia, o corpo começava a sentir a aventura.
Os braços já conheciam o peso dos remos.
Os pés conheciam o caminho.
As mãos conheciam as cordas.
E a cabeça começava a perceber que aquilo não seria apenas uma brincadeira.
Era preciso confiar.
Confiar naquele que remava ao nosso lado.
Confiar naquele que preparava a refeição.
Confiar naquele que ficava responsável pelo material.
Confiar naquele que, mesmo cansado, dizia:
— Eu faço.
Era essa a verdadeira força da patrulha.
Ninguém fazia tudo.
Mas todos faziam alguma coisa.
E, quando todos davam o seu melhor, a equipa tornava-se maior do que a soma das suas forças.
Na cozinha de campo, cada refeição tinha outro sabor.
Talvez porque tivesse sido preparada depois de um dia inteiro de aventura.
Talvez porque tivesse sido cozinhada sobre o fogo.
Ou talvez porque, quando se está longe de casa, se descobre que uma simples refeição partilhada com a equipa pode transformar-se num banquete.
Terceiro dia — Dornes
Depois de dias de viagem, a expedição chegou a Dornes.
Mas ali o ritmo mudou.
As jangadas ficaram por momentos em silêncio.
Os remos repousaram.
As vozes abrandaram.
Era tempo de celebrar.
A comunidade reuniu-se para a Eucaristia, presidida pelo Assistente de Agrupamento e concelebrada pelo Assistente de Agrupamento de Ferreira do Zêzere.
No coração da expedição, aquela celebração teve um significado especial.
Porque também é isto ser Pioneiro.
É partir.
É descobrir.
É construir.
É servir.
Mas é também parar para agradecer Aquele que nos acompanha no caminho.
Ali, junto às águas que tinham sido companheiras de tantos quilómetros, cada Pioneiro podia olhar para trás e perceber que aquela aventura era feita de muito mais do que esforço físico.
Era uma caminhada interior.
Uma caminhada de comunidade.
Uma caminhada de fé.
E talvez tenha sido nesse momento que todos perceberam verdadeiramente que não estavam apenas a fazer uma expedição. Estavam a construir uma memória.
Quarto dia — Castanheira, Pombal e Bairradinha
A viagem continuou.
Castanheira.
Pombal.
Bairradinha.
Os nomes iam ficando gravados no mapa e, sobretudo, na memória.
A paisagem passava devagar.
O sol subia e descia.
As jangadas avançavam.
E as três equipas começaram a sentir aquilo que só quem vive uma verdadeira aventura conhece:
já não éramos três equipas separadas. Éramos uma comunidade.
Se uma jangada precisava de ajuda, as outras aproximavam-se.
Se alguém estava cansado, havia uma mão para ajudar.
Se alguém perdia o ritmo, alguém esperava.
Porque a verdadeira aventura escutista não é chegar primeiro.
É chegar juntos.
O dia das três jangadas
E chegou o momento que todos esperavam.
As três jangadas avançaram para a água.
Primeiro, a Rainha Santa.
Depois, a Fernando Pessoa.
Logo atrás, a Afonso Henriques.
Durante alguns instantes, ninguém falou.
Ouviam-se apenas os remos a tocar a água.
Depois alguém gritou:
— EQUIPA!
E a resposta veio de todas as jangadas.
— SEMPRE ALERTA!
E começou a descida.
Remos para a frente.
Corpo inclinado.
Olhos atentos.
Gritos de orientação.
Água a salpicar.
Risos.
E aquela sensação maravilhosa de não saber exatamente o que viria a seguir.
A jangada balançava.
Alguém gritava:
— Esquerda!
Outro respondia:
— Mais força!
E alguém, inevitavelmente, acabava molhado.
As três jangadas avançavam como podiam.
Não eram embarcações perfeitas.
Eram melhores.
Eram nossas.
Tinham sido construídas pelas nossas mãos.
Eram a prova de que, com madeira, corda, criatividade e espírito de equipa, um grupo de jovens consegue transformar quase nada numa verdadeira aventura.
A noite na margem
Quando o dia terminou, a água ficou finalmente tranquila.
As jangadas repousaram na margem.
As tendas foram montadas.
O jantar foi preparado.
E, depois de comer, todos se reuniram.
O céu estava escuro.
A água refletia as primeiras estrelas.
O fogo iluminava o círculo.
E durante alguns instantes ninguém queria falar da chegada.
Porque todos sabiam que o fim estava próximo.
Alguém lembrou o primeiro dia.
As primeiras amarrações.
As discussões sobre a construção.
A primeira entrada na água.
As refeições.
Os momentos de cansaço.
Dornes.
As gargalhadas.
Os tombos.
Os remos.
As três jangadas.
E houve aquele silêncio especial que aparece quando todos percebem, ao mesmo tempo, que uma coisa importante está a acabar.
Quinto dia — Castelo de Bode
Na manhã do quinto dia, desmontou-se o último acampamento.
As mochilas foram arrumadas.
As cordas recolhidas.
O material organizado.
E as três jangadas prepararam-se para o último percurso.
À frente estava a Barragem de Castelo de Bode.
O fim estava perto.
Mas ninguém tinha pressa.
Porque, naquela manhã, cada metro percorrido parecia querer ficar para sempre.
As três jangadas avançaram.
Rainha Santa.
Fernando Pessoa.
Afonso Henriques.
Três nomes.
Três equipas.
Três formas diferentes de viver a aventura.
Mas um só espírito.
Quando finalmente chegaram ao destino, houve abraços.
Risos.
Cansaço.
E aquele orgulho silencioso de quem sabe que conseguiu.
Olharam para as jangadas.
Talvez já não fossem tão bonitas como no primeiro dia.
Tinham marcas.
Tinham cordas gastas.
Tinham madeira molhada.
Tinham as cicatrizes da aventura.
Eram, por isso mesmo, ainda mais bonitas.
Porque cada marca contava uma história.
A verdadeira chegada
A expedição terminou na Barragem de Castelo de Bode.
Mas a aventura não terminou ali.
Porque uma aventura escutista não se mede pelos quilómetros percorridos.
Mede-se pelas pessoas em que nos tornamos depois de os percorrer.
Durante cinco dias, aqueles Pioneiros aprenderam a construir.
Aprenderam a confiar.
Aprenderam a servir.
Aprenderam a esperar.
Aprenderam a remar juntos.
Aprenderam a cozinhar com pouco.
Aprenderam a viver com menos.
Aprenderam que uma patrulha não abandona ninguém.
E descobriram que uma comunidade é mais forte quando cada um percebe que tem um lugar e uma missão.
Partiram de Foz de Alge como três equipas.
Passaram por Dornes, Castanheira, Pombal e Bairradinha.
Chegaram à Barragem de Castelo de Bode como uma só comunidade.
E talvez, muitos anos mais tarde, quando aqueles Pioneiros já tiverem outras responsabilidades, outras casas e outras vidas, alguém diga:
— Lembras-te daquela expedição?
E bastará mencionar as três jangadas.
A Rainha Santa.
A Fernando Pessoa.
A Afonso Henriques.
E todos saberão exatamente do que se fala.
Porque há aventuras que acabam quando se desmontam as tendas.
Há outras que acabam quando se guardam os remos.
Mas há aquelas que nunca acabam.
Ficam na memória.
Ficam no coração.
Ficam na amizade.
E ficam para sempre na história de uma Comunidade.
Cinco dias.
Uma albufeira.
Três jangadas.
Três equipas.
Uma comunidade.
Uma aventura.
E, no fim, uma certeza:
“Valeu a pena partir.”

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