ESCUTISMO LIGHT: QUANDO O MÉTODO DEIXA DE SER O CENTRO
Há uma expressão que pode parecer provocadora, mas que merece reflexão: "escutismo light".
Não se trata de pôr em causa o empenho dos dirigentes nem de
menosprezar as atividades realizadas. A questão fundamental é a seguinte:
quando retiramos ao escutismo alguns dos seus elementos essenciais, continuamos
a praticar escutismo ou estaremos a aproximar-nos de outra forma de ocupação
dos tempos livres?
O escutismo não se resume a acampamentos, jogos, atividades
ao ar livre ou ao uso de uniformes, distintivos e vida em grupo. Estes
elementos são visíveis, mas não constituem, por si só, o Método Escutista. Este
existe precisamente para dar coerência e intencionalidade educativa a tudo o
que fazemos.
Se alguns elementos do Método forem utilizados apenas
ocasionalmente, se outros forem deixados de lado ou se deixarem de funcionar de
forma articulada, corre-se o risco de manter a aparência exterior do escutismo,
mas perder progressivamente a sua identidade.
Neste caso, podemos falar de "escutismo light":
uma prática que mantém algumas atividades e símbolos escutistas, mas que já não
segue a lógica educativa do Método.
A questão não é se uma atividade é divertida, se as crianças
gostam ou se os jovens participam. Naturalmente, isso é importante. A questão é
outra: que valores estamos a transmitir através daquilo que fazemos?
Um acampamento pode ser apenas uma experiência divertida ao
ar livre. Porém, também pode ser uma oportunidade para desenvolver autonomia,
responsabilidade, trabalho de equipa, serviço, relação com a natureza e
crescimento pessoal. Um jogo pode servir apenas para ocupar uma tarde. Porém,
também pode ser uma ferramenta educativa integrada num percurso mais amplo.
É esta diferença de intenção que importa.
Num ATL, por exemplo, é perfeitamente legítimo organizar
jogos, oficinas, atividades desportivas, passeios ou momentos de convívio, de
modo a ocupar o tempo livre das crianças e jovens de forma saudável e
educativa. O seu objetivo e enquadramento são diferentes.
No escutismo, a atividade não é o fim, mas sim um meio
educativo.
Por conseguinte, talvez devêssemos ter algum cuidado ao
utilizar a palavra "escutismo" para designar uma prática que já não
recorre consistentemente aos seus instrumentos educativos. Se formos
progressivamente retirando aquilo que caracteriza o Método Escutista, podemos
acabar por ter atividades muito semelhantes às de outras organizações de
educação não formal, com apenas uma linguagem e uma estética escutistas.
Esta reflexão não deve ser interpretada como uma acusação,
mas sim como um convite.
Não precisamos de fazer mais escutismo. Precisamos de fazer
um escutismo melhor.
Isto implica conhecer o Método, compreendê-lo e aplicá-lo
conscientemente. Implica compreender a razão de ser de cada elemento e a forma
como se articula com os restantes. Implica também não reduzir o escutismo
àquilo que é mais fácil ver ou organizar.
O verdadeiro desafio não está em vestir uma farda, montar
uma tenda ou organizar um jogo.
O verdadeiro desafio está em educar para a autonomia, a
responsabilidade, o serviço, a vida em comunidade e o desenvolvimento integral
de cada jovem.
Mesmo que o Método deixe de estar no centro, podemos
continuar a ter excelentes atividades. No entanto, talvez já não estejamos a
fazer aquilo que verdadeiramente distingue o escutismo.
Essa é uma discussão que vale a pena ter no seio do próprio
movimento.
Preservar a identidade do escutismo não significa ficar
preso ao passado. Significa saber o que não podemos perder enquanto procuramos
responder aos desafios do presente.

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