O QUE ACONTECEU À AUTONOMIA DA PATRULHA?
As redes sociais têm destas coisas extraordinárias: em poucos minutos, mostram-nos realidades que, de outra forma, talvez nunca conhecêssemos. A publicação de fotografias de atividades escutistas mostra-nos coisas boas e outras menos boas, bem como imagens que nos levam a refletir profundamente sobre aquilo que fazemos e, sobretudo, sobre aquilo que queremos transmitir.
Entre as imagens que mais me surpreenderam este Verão,
estavam os grandes ajuntamentos de cozinhas de patrulha, mesas de refeitório e
tendas. Perante este cenário, não pude deixar de colocar uma questão: onde
ficaram os verdadeiros "cantos de patrulha"?
O "Canto de Patrulha" não é apenas um espaço
físico onde se montam tendas, se cozinha ou se guardam materiais. É, acima de
tudo, o território onde a patrulha vive, se organiza, decide, trabalha, aprende
e cresce.
É nesse pequeno espaço que a autonomia deixa de ser uma
palavra bonita para se tornar uma experiência concreta.
Uma patrulha verdadeiramente autónoma deve ter a
possibilidade de preparar o seu acampamento, organizar o seu espaço, cozinhar,
cuidar dos seus materiais, distribuir tarefas, resolver problemas e tomar
decisões. É através destas pequenas responsabilidades que os jovens aprendem a
assumir compromissos, a trabalhar em equipa e a reconhecer o valor da
entreajuda.
No entanto, quando substituímos esta realidade por grandes
estruturas comuns, centralizando cozinhas, refeições e outros aspetos da vida
no campo, podemos ganhar em facilidade e organização. Mas não estaremos a
perder algo muito mais importante?
O que acontece à autonomia da Patrulha? E o Sistema de
Patrulhas? E o Método Escutista?
É evidente que existem situações em que a centralização pode
ser necessária. A dimensão do acampamento, as condições do terreno, as
exigências de segurança, as normas de higiene ou a organização logística podem
justificar soluções específicas. Não se trata, portanto, de defender uma visão
rígida ou nostálgica do acampamento.
A questão é outra: as soluções logísticas devem estar ao
serviço do Método e não o contrário.
Um espaço individual para cada pequeno grupo, com uma
dimensão adequada — idealmente até 80 m², consoante as condições do terreno —
permite que cada patrulha tenha o seu verdadeiro território. Um lugar que
possam reconhecer como seu, construir, organizar e transformar.
É nesse espaço que se aprende fazendo.
É aí que o Guia aprende a liderar, o Sub-Guia a apoiar e
cada elemento a descobrir a importância da sua tarefa, percebendo todos que o
funcionamento da Patrulha depende da participação de cada um.
Assim, o campo deixa de ser apenas um local onde se dorme
durante alguns dias e transforma-se numa verdadeira escola de autonomia,
responsabilidade e fraternidade.
Talvez devêssemos, de vez em quando, olhar para as
fotografias dos nossos acampamentos, não apenas para apreciar a beleza das
construções ou a dimensão das atividades, mas também para nos colocarmos
perguntas mais incómodas: as nossas patrulhas têm realmente autonomia?
Têm um espaço próprio?
Tomam decisões?
Cozinham e organizam a sua vida no acampamento?
São responsáveis pelo seu território e pelo seu
funcionamento?
Ou estaremos apenas a colocar jovens vestidos de uniforme
dentro de uma grande estrutura em que quase tudo já está decidido, organizado e
centralizado?
O escutismo nasceu para ser vivido em pequenos grupos. O
Sistema de Patrulhas não é um elemento acessório do Método Escutista. É uma das
suas principais ferramentas educativas.
Por isso, quando olhamos para um acampamento repleto de
tendas, mesas e cozinhas, talvez devêssemos questionar menos se "está tudo
bem organizado?" e questionar mais: "Onde está a patrulha?"
Porque um acampamento pode ser enorme, bonito e
perfeitamente organizado.
No entanto, se não houver espaço para a autonomia, a
responsabilidade e a verdadeira vida em patrulha, então talvez tenhamos
construído um excelente acampamento, mas perdido uma parte essencial do
escutismo.

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