sábado, 4 de julho de 2026

SOMOS HERDEIROS DE UM LEGADO E ADMINISTRADORES DE UMA MISSÃO. NÃO SOMOS OS SEUS PROPRIETÁRIOS

No Escutismo, cada responsabilidade é um compromisso de serviço. Nenhum dirigente, equipa ou estrutura é um fim em si mesmo. Todos recebem uma missão, cuidam dela por um tempo e, mais cedo ou mais tarde, transmitem-na a quem continua.
É precisamente nesta continuidade que se mede a maturidade de uma organização.
A chamada "teoria da terra queimada" descreve uma estratégia de destruição que consiste em eliminar tudo o que possa ser útil a quem vem a seguir. Em sentido figurado, esta manifesta-se quando se apagam projetos, desvaloriza-se o trabalho realizado, ignora-se a experiência acumulada ou rompe-se, sem fundamento, com tudo o que existia anteriormente.
No entanto, existe outra forma de "terra queimada", mais subtil e igualmente prejudicial: agir como se nada de relevante tivesse sido feito anteriormente, como se a história apenas começasse com quem agora assume as responsabilidades. Esta atitude desrespeita o passado, desmotiva quem serviu com dedicação e empobrece a memória coletiva.
No Escutismo, ninguém começa do zero. Cada geração usufrui do fruto do trabalho, dedicação e sacrifício de muitas outras que a antecederam. Os erros devem ser reconhecidos e corrigidos, mas os acertos devem ser preservados, valorizados e aperfeiçoados sempre que possível.
Respeitar o passado não significa resistir à mudança. Significa ter a humildade para reconhecer que o presente foi construído por muitos e que o futuro o será igualmente por outros. A inovação é mais sólida quando assenta em alicerces firmes e não quando tenta apagar a história.
Servir é também saber agradecer. É preciso agradecer a quem abriu caminhos, criou oportunidades, enfrentou dificuldades e deixou uma obra que permitiu continuar a crescer. O reconhecimento não diminui quem chega, mas sim engrandece quem sabe honrar aqueles que vieram antes.
No Escutismo, não se constrói com destruição nem se lidera apagando o legado dos outros. Constrói-se valorizando o que se recebeu de bom, corrigindo o que pode ser melhorado e acrescentando algo novo, de modo a que as gerações seguintes encontrem uma organização ainda mais forte, mais rica e mais fiel à sua missão.
Este é o verdadeiro espírito da transmissão de conhecimentos: receber com gratidão, servir com dedicação e entregar com a consciência de que o nosso maior legado será aquilo que permitirmos que perdure após a nossa partida.



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