OPEN CALLS NO ESCUTISMO: ABERTURA OU BANALIZAÇÃO DO SERVIÇO?
Nos últimos anos, os chamados "open calls" têm vindo a ganhar espaço no escutismo, sendo utilizados para constituir equipas e mobilizar dirigentes. Apresentam-se como uma expressão de transparência, abertura e participação. No entanto, é importante questionar se este modelo realmente fortalece o movimento ou se, de forma subtil, está a enfraquecer a cultura de serviço que sempre o sustentou.
A ideia parece moderna e alinhada com as atuais práticas de gestão: abrir oportunidades, permitir candidaturas e selecionar perfis. No entanto, o escutismo não é uma empresa e o serviço dos adultos não pode ser reduzido a uma lógica de recrutamento funcional.
No escutismo, servir é consequência de um percurso. É o resultado de uma experiência adquirida, de competências comprovadas, de uma relação de confiança e de um reconhecimento comunitário. Não nasce apenas da vontade de participar nem da disponibilidade para preencher um formulário.
Quando o acesso a determinadas equipas passa a ser feito por meio de uma convocatória aberta, instala-se uma inversão preocupante: a organização deixa de identificar, discernir e chamar quem está preparado para passar a ser o próprio dirigente a apresentar-se como solução. Esta mudança não é neutra. Transporta uma lógica de autoproposta que pode facilmente resvalar para a autopromoção.
E aqui reside um problema profundo.
O escutismo educa para a humildade, o serviço discreto e a construção paciente de um caminho. A introdução de mecanismos em que a visibilidade, a capacidade de "vender perfil" ou o capital relacional informal pesam mais do que o percurso efetivo pode gerar desigualdades e injustiças silenciosas.
Mais grave ainda, pode banalizar o próprio conceito de serviço.
Se todos se puderem candidatar a tudo, independentemente do seu percurso, que valor damos à formação? À experiência? À avaliação contínua? Ou à maturação de competências?
A retórica da participação aberta pode ocultar uma falta de estratégia na gestão de adultos. Em vez de se investir na identificação de talentos, no acompanhamento dos respetivos percursos e na mobilização intencional dos dirigentes, opta-se por lançar convites genéricos e esperar que alguém apareça.
No entanto, liderar não significa esperar por respostas. É reconhecer pessoas.
É legítimo querer processos mais transparentes. É saudável evitar círculos fechados ou nomeações opacas. No entanto, a transparência não significa descontextualização. A abertura de processos não significa abdicar dos critérios enraizados na cultura escutista.
A verdadeira questão é a seguinte: estamos a construir um modelo de participação ou a importar uma lógica de mercado para uma comunidade educativa?
Se o escutismo quiser continuar a ser uma escola de serviço, terá de cuidar da forma como convida os adultos a participar. A forma como se convida a servir revela muito sobre a visão da organização que se pretende construir.


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