E OS NOSSOS DIRIGENTES ESTARÃO PREPARADOS?
Há perguntas inquietantes que não admitem respostas rápidas. Esta é uma delas.
Estaremos verdadeiramente preparados para incluir?
Nos últimos anos, a palavra "inclusão" entrou
definitivamente no vocabulário do Movimento Escutista. Está presente nos nossos
projetos educativos, formações, documentos e conversas entre dirigentes. No
entanto, a inclusão não se mede pelo número de vezes que a mencionamos. É
medida pelas decisões que tomamos quando um jovem chega à nossa unidade e nos
desafia a sair da rotina, a repensar os nossos métodos e, sobretudo, a alterar
a nossa perspetiva.
Durante muito tempo, questionávamos se determinados jovens
seriam capazes de viver o escutismo. Talvez essa nunca tenha sido a questão.
Talvez a verdadeira questão seja outra: seremos nós capazes de viver um
escutismo em que todos tenham verdadeiramente lugar?
Porque a inclusão não começa quando surge um jovem com
necessidades específicas. Começa muito antes, com a disponibilidade do
dirigente para aprender, adaptar-se e crescer.
O primeiro desafio da inclusão não é metodológico, mas sim
humano.
É demasiado fácil olhar primeiro para o diagnóstico e depois
para o jovem. Ver primeiro as dificuldades, as limitações ou aquilo que
"não vai conseguir fazer". No entanto, o Escutismo convida-nos
precisamente a fazer o oposto. Cada jovem chega com talentos, sonhos,
capacidades e potencialidades que muitas vezes permanecem ocultos até que
alguém acredite neles.
Talvez a maior qualidade de um dirigente seja essa:
conseguir ver possibilidades onde os outros apenas veem limitações. Quando
olhamos desta forma, deixamos de perguntar "O que é que lhe falta?" e
começamos a perguntar "O que poderá vir a ser?".
No entanto, acreditar nas capacidades de cada jovem não
significa eliminar os desafios. O Escutismo nunca foi uma escola de comodidade.
É uma escola de vida em que o crescimento acontece através da ação, do esforço,
da descoberta e da superação.
Um jovem com necessidades específicas também precisa de
enfrentar desafios, alcançar o sucesso através do seu próprio esforço e
descobrir a alegria de conseguir ir mais longe do que imaginava. A verdadeira
inclusão adapta o percurso, mas não lhe retira o sentido. Educar significa
acreditar que todos os jovens podem crescer, ainda que cada um siga um caminho
diferente.
Ao mesmo tempo, não podemos limitar a inclusão às adaptações
das atividades. O Método Escutista procura educar a pessoa na sua totalidade.
Cuidar do corpo, da mente, do carácter e do espírito faz parte da nossa missão
educativa. Promover a autonomia, incentivar hábitos de vida saudáveis,
desenvolver o sentido de responsabilidade e ajudar cada jovem a descobrir o seu
lugar no mundo são manifestações concretas de uma inclusão autêntica.
As patrulhas também nos ensinam uma lição fundamental. Nunca
foram constituídas por jovens iguais. Uns lideram naturalmente. Outros preferem
observar antes de agir. Uns comunicam com facilidade. Outros revelam uma
extraordinária capacidade de persistência, criatividade ou um serviço discreto.
É precisamente essa diversidade que enriquece a patrulha.
Quando compreendemos isso, deixamos de nos perguntar "O
que é que este jovem não consegue fazer?" e começamos a perguntar
"Que riqueza é que este jovem traz ao grupo?". É nesse momento que a
inclusão deixa de ser uma adaptação e se transforma numa verdadeira experiência
de pertença.
Talvez o maior desafio seja encontrar o equilíbrio entre
apoiar e sobreproteger. Acompanhar não significa substituir. Proteger não
significa impedir o crescimento do outro. O dirigente escutista deve caminhar
ao lado do jovem, oferecendo apoio quando necessário, desafiando-o sempre que
possível e confiando nas suas capacidades. A verdadeira inclusão não visa
eliminar todos os obstáculos, mas sim garantir que ninguém tenha de os
enfrentar sozinho.
Talvez não haja nenhum dirigente que esteja completamente
preparado para todas as situações. Todos os jovens que chegam à nossa unidade
trazem novas perguntas e desafiam-nos a crescer como educadores. Talvez seja
precisamente essa a beleza da missão escutista: aprendemos enquanto educamos.
Crescemos à medida que ajudamos os outros a crescer.
A inclusão não começa num manual, numa formação ou num
regulamento. Começa quando um dirigente olha para um jovem e decide vê-lo,
acima de tudo, como uma pessoa.
Talvez seja esta a questão a colocar na próxima reunião de
dirigentes, no próximo Conselho de Agrupamento ou no próximo acampamento:
Estaremos preparados para construir um escutismo em que
ninguém tenha de pedir autorização para participar?
Se a resposta ainda não for um "sim" seguro,
talvez seja precisamente aí que começa a nossa missão.

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