O QUE SIGNIFICA, AFINAL, QUERER SER ESCUTEIRO?
Há uma ilusão confortável instalada em alguns setores do nosso
Movimento: a de que basta estar presente para se ser escuteiro. Basta usar o
uniforme, participar nas atividades e afirmar, de forma vaga, que se pertence
ao movimento. No entanto, a verdade é mais incómoda e precisa de ser dita sem
suavizações: há quem queira ser escuteiro sem conhecer, sem compreender e,
sobretudo, sem viver a Lei do Escuteiro. E isso não é uma falha menor, mas sim
uma negação da própria essência do escutismo.
Começando pelo mais básico, que muitas vezes é ignorado, nem
todos sabem a lei de cor. Pode parecer um pormenor, mas não é. Não a saber de
cor revela desinteresse, falta de compromisso e uma relação superficial com
aquilo que se afirma abraçar. Pior ainda, muitos dos que a sabem de cor não
fazem o mínimo esforço para a pôr em prática.
"A honra do Escuta inspira confiança: a palavra
de um Escuta é fiável." Esta lei entra em conflito direto com atitudes
cada vez mais comuns: promessas não cumpridas, responsabilidades negligenciadas
e justificações fáceis. Há escuteiros cuja palavra vale pouco e isso destrói a
base da confiança dentro e fora do movimento.
"O Escuta é leal: fidelidade a Deus, à Pátria,
aos pais e aos chefes." Mas que lealdade é esta, quando se escolhe quando
aparecer, quando colaborar, quando respeitar? A lealdade não é intermitente.
Não se liga e desliga conforme a conveniência. No entanto, é precisamente isso
que se observa: uma adesão condicionada, frágil e oportunista.
"O Escuta é útil e pratica diariamente uma boa ação."
Aqui, a distância entre o ideal e a realidade é gritante. A boa ação diária
desapareceu do horizonte de muitas pessoas. O serviço, que deveria ser central,
foi substituído por uma lógica de participação passiva: espera-se receber
experiências em vez de oferecer disponibilidade.
"O Escuta é amigo de todos e irmão de todos os
outros escutas." No papel, uma fraternidade universal; na prática,
grupos fechados, preferências, indiferença e, por vezes, exclusão. Há
escuteiros que convivem, mas não acolhem; que partilham o espaço, mas não criam
comunidade.
"O Escuta é delicado e respeitador." No
entanto, multiplicam-se as atitudes de desrespeito, a linguagem inadequada e a
falta de cuidado no trato com os outros. A cortesia, que deveria ser uma
característica distintiva, é muitas vezes substituída por uma informalidade
excessiva ou até desconsideração.
"O Escuta protege as plantas e os animais."
Ironia das ironias, um movimento que nasceu em contacto com a natureza vê hoje
alguns dos seus membros a tratarem o ambiente com descuido: lixo deixado para
trás, desrespeito pelos espaços naturais e ausência de uma consciência
ecológica real. Fala-se de natureza, mas pratica-se pouco.
"O Escuta é obediente: cumpre o seu dever até ao fim."
Esta lei tornou-se, para alguns, opcional. Questionar tudo, resistir a
orientações e abandonar tarefas a meio são comportamentos que revelam não um
espírito crítico saudável, mas sim uma falta de compromisso e de sentido de
responsabilidade.
"O Escuta tem sempre boa disposição de espírito."
Mas quantos mantêm essa atitude quando surgem dificuldades? A mínima
contrariedade leva a queixas, desmotivação e afastamento. A alegria resiliente,
que deveria caracterizar o escuteiro, é muitas vezes substituída por uma
atitude de desistência fácil.
"O Escuta é sóbrio, económico e respeitador do bem
alheio." Num tempo de consumo e imediatismo, esta lei é facilmente
ignorada: há desperdício de recursos, descuido com o material comum e falta de
responsabilidade pelo que é de todos. A sobriedade deixou de ser uma virtude
para se tornar uma exceção.
"O Escuta é puro nos pensamentos, nas palavras e nas
ações." Talvez seja a mais exigente de todas — e, por isso mesmo, a
mais desvalorizada. Vive-se numa lógica de relativização constante, em que tudo
é permitido e desculpável. No entanto, sem integridade, não há escutismo,
apenas aparência.
Perante isto, é inevitável a pergunta: o que significa,
afinal, querer ser escuteiro? Se não houver esforço para conhecer a lei,
compreendê-la e vivê-la, então o que restará? Um conjunto de atividades? Um
convívio organizado? Um símbolo vazio?
O escutismo não precisa de números, mas sim de verdade. Não
precisa de presença física, mas sim de um compromisso real. E, sobretudo,
precisa de coragem: coragem para exigir mais, para corrigir desvios e para
rejeitar a mediocridade disfarçada de participação.
Porque ser escuteiro não é apenas estar. É ser. E ser
implica viver — todos os dias, sem exceção — aquilo que tantos nem sequer se
dão ao trabalho de conhecer.