sábado, 28 de março de 2026

O ESCUTA É ÚTIL... OU TALVEZ NÃO!

Há um momento profundamente incómodo na vida de um escuteiro: aquele em que, de forma subtil ou explícita, deixamos de ser vistos como "úteis". Não porque lhe faltem valores, energia ou vontade de servir, mas porque já não se enquadra no modelo limitado adotado por muitos agrupamentos. Esse momento revela muito mais sobre as fragilidades do escutismo praticado do que sobre a pessoa que o experimenta.
Fala-se muito de fraternidade, de comunidade, de "uma vez escuteiro, escuteiro para sempre". No entanto, na prática, parece que essa eternidade tem um prazo de validade. Enquanto animas os jovens, és essencial. Quando deixas de o fazer, passas a ser... um problema logístico. Um corpo estranho. Alguém que ocupa espaço, mas não tem uma função clara.
É curioso — e até irónico — que um movimento que se orgulha de formar cidadãos ativos e comprometidos não saiba o que fazer com eles quando crescem. É como se o sucesso educativo fosse, afinal, um inconveniente. Criam-se adultos autónomos, experientes e com sentido de serviço... e depois não há lugar para eles.
O discurso institucional tenta remediar a situação: fala-se de Fraternidades, equipas de apoio e formação. No entanto, muitas vezes, isso não passa de uma espécie de "reserva natural" para antigos escuteiros: espaços periféricos, pouco integrados e quase simbólicos. Bonitos no papel, irrelevantes na prática.
E eis o ponto incómodo: o problema não é a falta de ideias. O problema é a falta de vontade real de mudar a cultura. Integrar adultos a sério implica alterar equilíbrios, partilhar poder e repensar estruturas. E isso dá trabalho. Muito mais trabalho do que deixar as coisas como estão e fingir que está tudo bem.
Na verdade, há uma espécie de contradição silenciosa: o escutismo ensina que cada pessoa tem valor, mas organiza-se como se algumas deixassem de o ter com o tempo. E essa incoerência corrói, lentamente, tudo o resto.
Talvez tenha chegado o momento de fazer uma pergunta simples, mas desconfortável: queremos um movimento que acompanhe as pessoas ao longo da vida ou apenas uma fábrica de juventude bem-comportada?
Porque, se a resposta for a primeira, então há muito a mudar. E não se trata dos adultos que "já não estão com jovens". É na forma como o próprio escutismo se olha ao espelho.



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