MUITO A FAZER, POUCO ESCUTISMO
Vivemos um paradoxo cada vez mais evidente: nunca houve tantas atividades e, ao mesmo tempo, nunca foi tão difícil praticar verdadeiro escutismo.
O calendário enche-se com atividades da paróquia, da
freguesia, de outras associações, do núcleo, da região e do próprio
agrupamento. Tudo parece fazer sentido individualmente. Tudo parece ter valor.
Tudo parece "importante". No entanto, quando se olha para a realidade
da secção (Unidade), percebe-se o vazio que fica: quase não sobra tempo para
aplicar, com intenção e profundidade, o método escutista.
E aqui está o problema central.
O escutismo não se mede pela quantidade de presenças nem
pelo número de eventos em que se participa. Mede-se pela qualidade do processo
educativo vivido pelos jovens. Mede-se na patrulha que decide, no erro que
ensina, na responsabilidade assumida e no caminho de progresso que cada um
constrói.
No entanto, como é possível tudo isto acontecer quando o
agrupamento vive constantemente "encaixado" entre compromissos
externos?
Aos poucos, sem grande alarido, instala-se uma lógica
perigosa: a de que a simples participação é suficiente. A de que estar presente
substitui o envolvimento. A de que cumprir a agenda equivale a educar.
Não equivale.
Quando as atividades se acumulam, o método começa a
desaparecer, não de forma abrupta, mas por desgaste. Já não há tempo para
planear com os jovens. Já não há espaço para o sistema de patrulhas funcionar
como deve ser. Já não há continuidade nem intencionalidade. Há apenas sucessão.
Nesse ritmo, a secção (Unidade) deixa de ser o centro.
Torna-se um ponto de passagem.
Importa, por isso, fazer uma reflexão honesta e, talvez,
desconfortável: todas estas atividades são realmente necessárias? E mais
importante ainda: estarão a servir o Método Escutista... ou estarão a
substituí-lo?
A verdade é simples, ainda que incómoda: cada atividade que
ocupa o tempo da secção (Unidade) sem contribuir para o seu projeto educativo
representa uma oportunidade perdida. Não é neutra. É uma perda real.
Não se trata de rejeitar a comunidade nem de fechar o
escutismo sobre si próprio. Trata-se de recentrar prioridades. É necessário
compreender que o envolvimento externo só faz sentido se reforçar o que
acontece dentro da secção (Unidade), e não o enfraquecer.
O Método Escutista não pode ser algo que se tenta
"encaixar" no tempo que sobra. Se assim for, já não é o centro, mas
sim um acessório.
Um movimento educativo não sobrevive quando transforma o
essencial em acessório.
Talvez esteja na altura de fazer menos.
Mas fazer melhor.
Com mais intenção.
Com mais verdade.
Porque, no fim, a questão permanece e exige resposta: queremos muitas atividades ou queremos fazer escutismo como deve ser feito?


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