domingo, 22 de março de 2026

O QUE SIGNIFICA, AFINAL, QUERER SER ESCUTEIRO?

Há uma ilusão confortável instalada em alguns setores do nosso Movimento: a de que basta estar presente para se ser escuteiro. Basta usar o uniforme, participar nas atividades e afirmar, de forma vaga, que se pertence ao movimento. No entanto, a verdade é mais incómoda e precisa de ser dita sem suavizações: há quem queira ser escuteiro sem conhecer, sem compreender e, sobretudo, sem viver a Lei do Escuteiro. E isso não é uma falha menor, mas sim uma negação da própria essência do escutismo.

Começando pelo mais básico, que muitas vezes é ignorado, nem todos sabem a lei de cor. Pode parecer um pormenor, mas não é. Não a saber de cor revela desinteresse, falta de compromisso e uma relação superficial com aquilo que se afirma abraçar. Pior ainda, muitos dos que a sabem de cor não fazem o mínimo esforço para a pôr em prática.

"A honra do Escuta inspira confiança: a palavra de um Escuta é fiável." Esta lei entra em conflito direto com atitudes cada vez mais comuns: promessas não cumpridas, responsabilidades negligenciadas e justificações fáceis. Há escuteiros cuja palavra vale pouco e isso destrói a base da confiança dentro e fora do movimento.

"O Escuta é leal: fidelidade a Deus, à Pátria, aos pais e aos chefes." Mas que lealdade é esta, quando se escolhe quando aparecer, quando colaborar, quando respeitar? A lealdade não é intermitente. Não se liga e desliga conforme a conveniência. No entanto, é precisamente isso que se observa: uma adesão condicionada, frágil e oportunista.

"O Escuta é útil e pratica diariamente uma boa ação." Aqui, a distância entre o ideal e a realidade é gritante. A boa ação diária desapareceu do horizonte de muitas pessoas. O serviço, que deveria ser central, foi substituído por uma lógica de participação passiva: espera-se receber experiências em vez de oferecer disponibilidade.

"O Escuta é amigo de todos e irmão de todos os outros escutas." No papel, uma fraternidade universal; na prática, grupos fechados, preferências, indiferença e, por vezes, exclusão. Há escuteiros que convivem, mas não acolhem; que partilham o espaço, mas não criam comunidade.

"O Escuta é delicado e respeitador." No entanto, multiplicam-se as atitudes de desrespeito, a linguagem inadequada e a falta de cuidado no trato com os outros. A cortesia, que deveria ser uma característica distintiva, é muitas vezes substituída por uma informalidade excessiva ou até desconsideração.

"O Escuta protege as plantas e os animais." Ironia das ironias, um movimento que nasceu em contacto com a natureza vê hoje alguns dos seus membros a tratarem o ambiente com descuido: lixo deixado para trás, desrespeito pelos espaços naturais e ausência de uma consciência ecológica real. Fala-se de natureza, mas pratica-se pouco.

"O Escuta é obediente: cumpre o seu dever até ao fim." Esta lei tornou-se, para alguns, opcional. Questionar tudo, resistir a orientações e abandonar tarefas a meio são comportamentos que revelam não um espírito crítico saudável, mas sim uma falta de compromisso e de sentido de responsabilidade.

"O Escuta tem sempre boa disposição de espírito." Mas quantos mantêm essa atitude quando surgem dificuldades? A mínima contrariedade leva a queixas, desmotivação e afastamento. A alegria resiliente, que deveria caracterizar o escuteiro, é muitas vezes substituída por uma atitude de desistência fácil.

"O Escuta é sóbrio, económico e respeitador do bem alheio." Num tempo de consumo e imediatismo, esta lei é facilmente ignorada: há desperdício de recursos, descuido com o material comum e falta de responsabilidade pelo que é de todos. A sobriedade deixou de ser uma virtude para se tornar uma exceção.

"O Escuta é puro nos pensamentos, nas palavras e nas ações." Talvez seja a mais exigente de todas — e, por isso mesmo, a mais desvalorizada. Vive-se numa lógica de relativização constante, em que tudo é permitido e desculpável. No entanto, sem integridade, não há escutismo, apenas aparência.

Perante isto, é inevitável a pergunta: o que significa, afinal, querer ser escuteiro? Se não houver esforço para conhecer a lei, compreendê-la e vivê-la, então o que restará? Um conjunto de atividades? Um convívio organizado? Um símbolo vazio?

O escutismo não precisa de números, mas sim de verdade. Não precisa de presença física, mas sim de um compromisso real. E, sobretudo, precisa de coragem: coragem para exigir mais, para corrigir desvios e para rejeitar a mediocridade disfarçada de participação.

Porque ser escuteiro não é apenas estar. É ser. E ser implica viver — todos os dias, sem exceção — aquilo que tantos nem sequer se dão ao trabalho de conhecer. 



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