NÃO BASTA OCUPAR: QUANDO O ESCUTISMO PERDE O SEU RUMO
É perigoso e instala-se perigosamente em alguns contextos escutistas a ideia de que "manter os jovens ocupados" já é, por si só, cumprir a missão. Quando os dirigentes, com tempo disponível, se limitam a preencher as agendas com atividades avulsas, sem uma visão clara de crescimento e estrutura, o escutismo corre o risco de se transformar numa simples ocupação dos tempos livres, o que constitui uma grave redução da sua essência. Constato isso ao observar fotos, que "poluem" as redes sociais, de ditas "atividades escutistas", com "meia dúzia" de lobitos, exploradores, pioneiros... onde não se vêem bandos, patrulhas, equipas...
Liderar uma unidade pequena não é um problema. O problema
está em aceitar essa condição como definitiva e confortável, sem qualquer
ambição de crescimento. Quando não existe uma preocupação ativa em desenvolver
o agrupamento, seja através de estratégias de recrutamento, seja pela retenção
e progressão dos jovens, instala-se uma cultura de estagnação. Porém, o
escutismo, por natureza, não é estático, mas sim movimento, evolução e
construção contínua.
A prioridade de qualquer agrupamento deve ser clara: crescer
com qualidade. Isso implica pensar estrategicamente, sair da zona de conforto,
envolver a comunidade, dar visibilidade ao projeto educativo e criar condições
para acolher novos elementos. O recrutamento não pode ser ocasional ou reativo;
tem de ser intencional, planeado e uma preocupação permanente dos dirigentes.
No entanto, crescer não é apenas aumentar números. É,
sobretudo, garantir que esse crescimento se traduz numa experiência autêntica
do método escutista. A este respeito, há um ponto inegociável: sem bandos,
patrulhas ou equipas, não há sistema de patrulhas. Sem sistema de patrulhas,
não há escutismo.
O sistema de patrulhas não é uma formalidade organizativa,
mas sim o núcleo pedagógico do escutismo. É através dele que os jovens aprendem
a liderar, a cooperar, a decidir, a cometer erros e a melhorar. Quando esta
estrutura não existe, toda a responsabilidade recai sobre o dirigente adulto. O
resultado é um grupo dependente e passivo, no qual os jovens são meros
participantes e não protagonistas do seu próprio percurso.
Ignorar o sistema de patrulhas, sobretudo com o argumento de
que "são poucos elementos", revela uma falta de compromisso com o
método. Mesmo em unidades reduzidas, é possível — e desejável — criar dinâmicas
de "equipa", distribuir responsabilidades e fomentar a liderança.
Muitas vezes, o que falta não são números, mas sim intenção e exigência.
Os dirigentes que não pensam no crescimento do agrupamento,
que não estruturam as suas secções e que não aplicam o método escutista de
forma consciente acabam por comprometer o futuro do movimento. Criam-se grupos
frágeis, sem identidade, continuidade ou capacidade para formar novos líderes.
O escutismo não pode ser apenas uma resposta ao ócio. Tem de
ser uma proposta educativa exigente, estruturada e transformadora. E isso exige
dirigentes comprometidos, com visão, que coloquem o crescimento humano e
estrutural no centro da sua ação. Porque, no fim, não basta estar ocupado. É
necessário construir algo que faça sentido.


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