ESCUTISMO PARA TODOS — OU APENAS PARA QUEM PODE PAGAR?
«Existem atividades escutistas que não são para todos.»
A frase é curta. O problema que encerra é enorme.
Quando um dirigente escutista reconhece que existem
atividades que não estão ao alcance de todos por razões financeiras, não
estamos perante uma simples questão administrativa. Estamos perante uma questão
que toca o coração do próprio movimento.
Se um jovem quer participar, tem vontade, está integrado,
cumpre os seus deveres e vive o Escutismo com o mesmo entusiasmo dos outros,
mas não pode ir porque a família não consegue pagar, podemos continuar a dizer,
sem qualquer reflexão, que o Escutismo é para todos?
Esta é a pergunta que não podemos evitar.
O preço de uma experiência
Não falamos apenas de dinheiro.
Falamos daquele acampamento para o qual todos vão menos um.
Da grande atividade que um jovem acompanha pelas fotografias
dos amigos.
Da viagem que fica reservada a quem consegue pagar.
Do equipamento que se torna progressivamente mais caro.
Da inscrição que, somada ao transporte, à alimentação, ao
uniforme e a todas as outras despesas, deixa de ser uma contribuição acessível
e passa a ser uma barreira.
E falamos, sobretudo, da criança ou do jovem que aprende uma
lição que nenhum dirigente gostaria de ensinar:
“Podes pertencer ao grupo, mas há experiências que não
são para ti.”
Não é culpa da família
É importante dizê-lo claramente.
A incapacidade financeira de uma família não é falta de
interesse pelo Escutismo.
Não é falta de compromisso.
Não é falta de educação.
E certamente não é culpa do jovem.
Vivemos numa sociedade onde muitas famílias fazem escolhas
difíceis todos os meses. Para algumas, mais 20 ou 30 euros são uma dificuldade.
Para outras, uma atividade de várias centenas de euros é simplesmente
impossível.
Colocar essas famílias perante a escolha entre pagar uma
atividade escutista ou pagar uma despesa essencial é esquecer a realidade
concreta em que vivem.
E quando a resposta é simplesmente “então não participa”,
alguma coisa falhou.
A frase que não podemos normalizar
É precisamente por isso que a expressão “há atividades que
não são para todos” merece ser discutida.
Podemos aceitá-la como uma realidade inevitável?
Ou devemos encará-la como um problema que o movimento tem a
responsabilidade de tentar resolver?
Porque há uma diferença enorme entre dizer:
“Esta atividade tem custos elevados.”
e dizer:
“Quem não consegue pagar fica de fora.”
A primeira é uma realidade.
A segunda é uma escolha.
O Escutismo não nasceu para reproduzir desigualdades
O Escutismo pretende educar para a autonomia, para a
responsabilidade, para a solidariedade e para o serviço.
Ensina-nos a partilhar.
Ensina-nos a ajudar quem precisa.
Ensina-nos que ninguém deve ser abandonado pelo caminho.
Então, quando a dificuldade económica aparece dentro das
nossas próprias unidades, não podemos fechar os olhos e fingir que é apenas
um problema familiar.
Se somos comunidade quando tudo corre bem, também temos de
saber ser comunidade quando uma família não consegue pagar.
Caso contrário, a palavra “fraternidade” corre o risco de
ficar bonita apenas nos discursos.
Quanto custa ser escuteiro?
Talvez esta seja uma conversa que estamos a adiar há
demasiado tempo.
Quanto custa, verdadeiramente, ser escuteiro?
Não apenas a quota.
Quanto custa o uniforme?
O material individual?
As atividades?
Os transportes?
As refeições?
Os acampamentos?
As grandes atividades?
As viagens?
E quantos jovens deixam de participar porque a soma de todas
estas despesas ultrapassa aquilo que as suas famílias podem suportar?
Temos números?
Se não temos, talvez esteja na hora de os procurar.
Porque não podemos resolver aquilo que não queremos medir.
O problema não é cobrar
Ninguém está a defender que as atividades sejam gratuitas.
Organizar uma atividade custa dinheiro.
Os dirigentes não fazem magia. Há transportes para pagar,
espaços para reservar, alimentação para comprar, seguros, equipamentos e
inúmeras outras despesas.
O problema não está em existir um custo.
O problema começa quando o custo se transforma num
critério de exclusão.
E aí a pergunta passa a ser inevitável:
Que soluções estamos a criar para que ninguém fique para
trás?
Fundos de solidariedade?
Bolsas?
Campanhas de angariação?
Pagamento faseado?
Comparticipação?
Atividades alternativas?
Parcerias?
Contribuições voluntárias?
Existem muitas possibilidades.
Talvez nenhuma resolva tudo.
Mas a ausência de uma solução não pode ser confundida com a
inevitabilidade do problema.
E há uma coisa ainda mais importante: a dignidade
A ajuda financeira não pode transformar o jovem beneficiário
no “coitadinho” do grupo.
Não pode haver humilhação.
Não pode haver exposição.
Não pode haver a sensação de que alguém está a participar
porque alguém teve pena dele.
A solidariedade verdadeira é aquela que permite que uma
pessoa receba apoio sem perder dignidade.
O jovem deve estar na atividade porque é escuteiro.
Ponto.
Não porque alguém decidiu fazer-lhe um favor.
Afinal, para quem é o Escutismo?
Talvez esta seja a pergunta que deveríamos colocar numa
assembleia, numa reunião de dirigentes ou nas páginas de uma revista escutista.
Para quem é o Escutismo?
Para todos?
Para quem quer participar?
Para quem está preparado?
Para quem cumpre determinados requisitos?
Ou, silenciosamente, para quem consegue suportar
financeiramente o custo das experiências que o movimento proporciona?
Não precisamos de respostas fáceis.
Precisamos de respostas honestas.
Porque se dissermos que o Escutismo é para todos, temos de
estar preparados para enfrentar a consequência dessa afirmação.
“Todos” inclui também aqueles que não podem pagar.
O verdadeiro teste à fraternidade
É fácil falar de fraternidade quando todos conseguem
participar.
O verdadeiro teste acontece quando um jovem fica à porta.
Quando uma família diz “não conseguimos”.
Quando uma criança pergunta porque é que os amigos vão e ela
não.
É nesse momento que descobrimos se somos apenas uma
organização que organiza atividades ou uma verdadeira comunidade educativa.
O Escutismo ensina-nos que ninguém deve caminhar sozinho.
Pois bem: talvez esteja na hora de aplicar essa regra também
às nossas contas.
Porque uma atividade pode ser cara.
Um equipamento pode ser caro.
Uma viagem pode ser cara.
Mas o acesso ao sonho de ser escuteiro não pode depender
da carteira dos pais.
Se aceitarmos que alguns jovens ficam sistematicamente de
fora porque não podem pagar, então temos de ter a coragem de admitir que existe
um problema.
E se existe um problema, cabe-nos procurar uma solução.
Porque o Escutismo pode ter preços diferentes.
Pode ter atividades diferentes.
Pode ter desafios diferentes.
Mas se queremos continuar a afirmar que é um movimento para
todos, há uma linha que não deveríamos aceitar ultrapassar:
o dinheiro não pode decidir quem pertence.

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