PATRULHAS SEM AUTONOMIA: QUANDO O ACAMPAMENTO DEIXA DE SER ESCUTISMO
Há perguntas que, de tempos a tempos, precisamos de voltar a fazer.
Não porque tenhamos deixado de conhecer as respostas, mas
porque, por vezes, a prática se afasta tanto dos princípios que já nem damos
conta da distância.
Uma delas é particularmente incómoda:
Quando organizamos um acampamento, estamos realmente a
aplicar o Sistema de Patrulhas ou estamos apenas a colocar os jovens em grupos
aos quais continuamos a chamar "patrulhas"?
A diferença não é semântica.
É metodológica.
E talvez seja tempo de falar abertamente sobre ela.
O problema não está nas tendas. Está naquilo que acontece
entre elas.
Quando se fala do Sistema de Patrulhas, é frequente a
discussão ficar reduzida à disposição das tendas, à distância entre patrulhas
ou à existência de um canto próprio.
Mas a questão é muito mais profunda.
Para Baden-Powell, a Patrulha não era simplesmente uma
divisão administrativa de uma secção. Era uma pequena comunidade educativa,
na qual os jovens deveriam encontrar espaço para exercer responsabilidade,
tomar decisões, cooperar e desenvolver liderança.
O campo era um dos lugares privilegiados para isso.
Cada Patrulha deveria ter condições para viver como uma
pequena unidade autónoma: organizar o seu espaço, preparar as suas refeições,
cuidar dos seus equipamentos, distribuir tarefas e resolver os problemas que
surgissem.
Não porque Baden-Powell tivesse uma particular paixão por
tendas afastadas umas das outras.
Mas porque a autonomia precisa de espaço para existir.
E é aqui que começam alguns dos problemas da prática
contemporânea.
1. A Patrulha que tem nome, bandeirola... e não decide
nada
É talvez o desvio mais fácil de identificar.
Temos Patrulhas.
Têm nomes.
Têm bandeirolas.
Têm gritos.
Têm guias.
Talvez até tenham um sistema de pontuação.
Mas depois...
Quem decide o que a Patrulha leva para o campo?
O dirigente.
Quem organiza a cozinha?
O dirigente.
Quem distribui as tarefas?
O dirigente.
Quem verifica se o espaço está organizado?
O dirigente.
Quem resolve os problemas?
O dirigente.
Quem decide o programa?
O dirigente.
Quem determina quando e como cada coisa acontece?
O dirigente.
Então, afinal, onde está a Patrulha?
Pode existir uma Patrulha no papel, mas não existir uma
Patrulha enquanto unidade de responsabilidade.
E esta é uma distinção que deveríamos ter coragem de fazer.
Dar responsabilidades aos jovens não é pedir-lhes para
executar decisões tomadas pelos adultos.
Responsabilidade implica margem de decisão.
2. A cozinha central: eficiência contra método
Poucas coisas ilustram melhor esta tensão do que a cozinha.
A cozinha central é, muitas vezes, apresentada como uma
solução prática.
É mais rápido.
É mais fácil controlar.
É mais simples comprar os alimentos.
É mais simples gerir os fogos.
É mais simples garantir horários.
É mais simples lavar a loiça.
Tudo verdade.
Mas há uma pergunta que não podemos ignorar:
Mais simples para quem?
Se a Patrulha deixa de planear as suas refeições, calcular
quantidades, preparar alimentos, organizar a cozinha, gerir recursos,
distribuir tarefas e limpar o seu espaço, perdemos uma quantidade enorme de
oportunidades educativas.
Ganhamos eficiência.
Perdemos aprendizagem.
E aqui está uma das grandes armadilhas do Escutismo moderno:
confundir eficiência com qualidade educativa.
Uma atividade pode ser muito eficiente e pedagogicamente
pobre.
Uma cozinha pode funcionar perfeitamente e, simultaneamente,
ter retirado à Patrulha uma das suas melhores oportunidades de autonomia.
Naturalmente, existem contextos em que uma cozinha central
pode ser necessária. Restrições legais, condições do terreno, dimensão do
acampamento, segurança ou características específicas da atividade podem
justificar adaptações.
Mas uma exceção justificada não deve transformar-se numa
norma cómoda.
Se a cozinha central existe porque é necessário, é
uma coisa.
Se existe porque é mais fácil para os adultos, é
outra.
3. O campo "milimetricamente" organizado
Outro fenómeno merece reflexão: o campo em que todas as
tendas estão perfeitamente alinhadas, todos os espaços são geometricamente
definidos e cada objeto parece ter sido colocado por um arquiteto.
É bonito.
É organizado.
É fotogénico.
Mas quem organizou?
Se a resposta for "os dirigentes", talvez
devêssemos olhar novamente.
Há uma diferença enorme entre ensinar os jovens a organizar
um campo e organizar o campo por eles.
O canto de Patrulha não precisa de parecer uma fotografia de
catálogo.
Precisa de ser funcional.
Precisa de ser seguro.
Precisa de ser cuidado pelos seus elementos.
E, sobretudo, precisa de ser deles.
Um canto ligeiramente imperfeito, mas construído e gerido
pelos jovens, pode ser pedagogicamente muito mais rico do que um campo
impecável montado pelos adultos.
Talvez devêssemos preocupar-nos menos com a fotografia final
e mais com o processo que levou até lá.
4. Dirigentes dentro do subcampo
Outro sinal merece atenção.
O dirigente que vive permanentemente no meio das Patrulhas.
Está ali.
Observa tudo.
Ouve tudo.
Intervém em tudo.
Corrige tudo.
Decide tudo.
Por vezes, basta um jovem ter um problema para olhar
imediatamente para o adulto.
E o adulto responde.
Porque é mais rápido.
Porque já sabe como resolver.
Porque quer ajudar.
Porque tem experiência.
E, sem perceber, começa a substituir a Patrulha.
Um dirigente demasiado presente pode ser tão prejudicial
como um dirigente ausente.
O desafio do adulto não é desaparecer.
É saber quando estar e quando não estar.
É criar condições para a Patrulha funcionar e depois
permitir que ela funcione.
É acompanhar sem sufocar.
É observar sem controlar.
É intervir quando é necessário — e resistir à tentação de
intervir quando não é.
5. "Mas é mais seguro se fizermos nós"
Este argumento merece ser tratado com seriedade.
A segurança é uma responsabilidade inegociável.
Mas segurança não pode transformar-se numa palavra mágica
que justifica retirar aos jovens todas as responsabilidades.
Se existe um risco, devemos perguntar:
Como podemos permitir que os jovens façam isto com
segurança?
E não simplesmente:
Como podemos impedir que os jovens façam isto?
Ensinar a utilizar um fogão, gerir um fogo, armazenar
alimentos, transportar materiais ou organizar um espaço envolve riscos.
Mas também envolve aprendizagem.
A resposta educativa não deve ser eliminar automaticamente o
risco.
Deve ser ensinar a reconhecer, avaliar e controlar o
risco dentro dos limites adequados.
Caso contrário, podemos criar jovens perfeitamente seguros
enquanto houver um adulto ao lado.
E isso não é autonomia.
6. O excesso de atividades dirigidas
Há ainda outro desvio menos visível.
O acampamento inteiro transformado num programa contínuo de
atividades dirigidas.
Hora para isto.
Hora para aquilo.
Jogo preparado.
Atividade preparada.
Instruções.
Reunião.
Formação.
Desafio.
Grande atividade.
Pequena atividade.
Tudo preenchido.
Tudo controlado.
Tudo ocupado.
Mas quando é que a Patrulha vive?
Quando é que conversa?
Quando é que decide?
Quando é que resolve um problema que não estava no programa?
Quando é que inventa uma atividade?
Quando é que simplesmente está junta?
O excesso de programação pode matar uma das características
mais importantes do campo:
É nesse espaço aparentemente "vazio" que muitas
vezes surgem liderança, criatividade, conflito, negociação, iniciativa e
amizade.
Nem tudo precisa de ser uma atividade preparada pelos
dirigentes.
Às vezes, o melhor que podemos oferecer aos jovens é tempo
e espaço para fazerem alguma coisa por si próprios.
7. O adulto como fornecedor de soluções
Existe uma cultura que precisamos de questionar.
A cultura do "deixa que eu faço".
A tenda está mal montada?
O dirigente monta.
A Patrulha não sabe o que cozinhar?
O dirigente sugere.
Falta material?
O dirigente resolve.
Há um conflito?
O dirigente intervém.
O canto está desorganizado?
O dirigente reorganiza.
A Patrulha está atrasada?
O dirigente acelera.
Parece eficiente.
Mas existe um problema:
se os adultos resolvem todos os problemas, os jovens não
aprendem a resolver problemas.
E talvez esta seja uma das maiores perdas silenciosas do
Escutismo.
Não vemos imediatamente o que retiramos.
Retiramos oportunidades.
Uma oportunidade de decidir.
Uma oportunidade de falhar.
Uma oportunidade de negociar.
Uma oportunidade de liderar.
Uma oportunidade de tentar novamente.
8. O guia de Patrulha transformado em mensageiro
E chegamos a uma figura central do Sistema de Patrulhas: o
guia.
Há Patrulhas onde o guia é, na prática, um líder.
E há Patrulhas onde o guia é apenas o jovem que recebe as
instruções dos dirigentes e depois as transmite aos restantes.
São coisas completamente diferentes.
Um guia que apenas comunica ordens não está a exercer
liderança.
Está a funcionar como correio entre adultos e jovens.
O verdadeiro desafio é criar condições para que o guia tenha
responsabilidades reais.
Que possa organizar.
Que possa decidir dentro do seu âmbito.
Que possa distribuir tarefas.
Que possa resolver problemas.
Que possa experimentar.
Que possa errar.
Que possa aprender a liderar.
Se todas as decisões importantes continuam nas mãos dos
adultos, não podemos exigir depois que os jovens desenvolvam liderança.
Não se aprende a liderar recebendo ordens.
Aprende-se a liderar tendo responsabilidades.
9. Patrulhas juntas não significam Patrulhas fortes
Há uma ideia que também merece ser desconstruída:
"Se estão todos juntos, há mais espírito de
grupo."
Nem sempre.
O espírito de comunidade não resulta da proximidade física
permanente.
Resulta da participação numa comunidade.
A Patrulha precisa de ter momentos próprios e o agrupamento
precisa de ter momentos comuns.
O campo deve permitir ambas as coisas.
O canto da Patrulha.
A praça de parada.
O fogo de conselho.
O espaço comum.
A atividade de todos.
A atividade da Patrulha.
Precisamos de aprender novamente a diferença entre
comunidade e concentração.
Ter todas as Patrulhas juntas o tempo inteiro pode produzir
proximidade física.
Não garante comunidade.
10. O problema não é modernizar. É descaracterizar.
É importante deixar isto claro.
Não se trata de defender que devemos voltar literalmente aos
acampamentos de 1907.
O mundo mudou.
As normas de segurança mudaram.
Os equipamentos mudaram.
A legislação mudou.
As condições dos terrenos mudaram.
Os próprios jovens mudaram.
O método pode e deve ser adaptado.
Mas adaptar não significa abandonar.
Modernizar não significa centralizar.
Tornar mais seguro não significa retirar toda a
responsabilidade.
Facilitar não significa substituir.
E melhorar a logística não significa necessariamente
melhorar a experiência educativa.
Há uma diferença entre adaptar o método e
descaracterizá-lo.
Então, o que é realmente uma Patrulha?
Talvez devêssemos fazer um exercício muito simples.
Em vez de perguntarmos:
"Temos Patrulhas?"
Perguntemos:
As nossas Patrulhas conseguem funcionar sem os dirigentes
ao lado?
Conseguem organizar um espaço?
Conseguem preparar uma refeição?
Conseguem distribuir tarefas?
Conseguem gerir materiais?
Conseguem tomar decisões?
Conseguem resolver pequenos conflitos?
Conseguem identificar um problema e procurar uma solução?
Conseguem avaliar o resultado do que fizeram?
Conseguem assumir as consequências das suas decisões?
E, sobretudo:
os adultos deixam-nas fazer isso?
Talvez esta última seja a pergunta mais difícil.
Um teste simples para qualquer acampamento
Antes do próximo acampamento, talvez valha a pena fazer uma
pequena auditoria metodológica.
Perguntemos:
Quem montou o campo?
Quem decidiu a organização dos espaços?
Quem prepara as refeições?
Quem gere os materiais?
Quem distribui as tarefas?
Quem resolve os problemas?
Quem toma as decisões?
Quem lidera?
Se a maioria das respostas for "os dirigentes",
talvez tenhamos um problema.
Não necessariamente um problema de segurança.
Não necessariamente um problema de competência.
Não necessariamente um problema de boa vontade.
Mas talvez tenhamos um problema metodológico.
Porque o Sistema de Patrulhas não se mede pelo número de
jovens que conseguimos manter organizados.
Mede-se pela quantidade de responsabilidade que conseguimos
colocar nas mãos deles.
Talvez devêssemos confiar mais nos jovens
Há uma frase que deveria acompanhar qualquer dirigente
quando entra num campo:
"Se eu fizer isto pelos jovens, quem aprenderá a
fazê-lo?"
Se fizermos sempre, eles não aprendem.
Se decidirmos sempre, eles não decidem.
Se resolvermos sempre, eles não resolvem.
Se controlarmos sempre, eles não assumem.
O papel do dirigente não é construir um campo perfeito.
É construir condições para que os jovens possam crescer.
E isso exige uma coisa que, por vezes, parece mais difícil
do que montar qualquer cozinha ou tenda:
confiar.
Confiar que uma Patrulha pode aprender.
Confiar que um guia pode liderar.
Confiar que os jovens podem falhar sem que isso seja uma
catástrofe.
Confiar que, depois de uma tentativa malsucedida, pode
surgir uma segunda tentativa melhor.
O verdadeiro luxo de um acampamento escutista
Talvez o verdadeiro luxo de um acampamento escutista não
seja ter mais equipamento.
Nem melhores tendas.
Nem uma cozinha mais sofisticada.
Nem um programa mais elaborado.
Talvez seja ter espaço para os jovens serem responsáveis.
Espaço físico.
Espaço para decidir.
Espaço para errar.
Espaço para experimentar.
Espaço para liderar.
Espaço para estar com a Patrulha.
Espaço para resolver problemas que nenhum dirigente preparou
previamente.
Porque é aí que o método deixa de ser teoria.
É aí que a Patrulha deixa de ser um nome.
E é aí que o acampamento deixa de ser simplesmente uma
atividade fora de casa e passa a ser aquilo que Baden-Powell imaginou:
uma escola de vida ao ar livre, onde os jovens aprendem
fazendo.
Por isso, talvez a pergunta que devamos levar para o próximo
campo não seja:
"Como podemos organizar melhor os jovens?"
Mas sim:
"Como podemos organizar melhor o campo para que os
jovens tenham menos necessidade de nós?"
Se esta segunda pergunta nos incomodar um pouco, talvez seja
exatamente porque estamos a tocar no coração do problema.
E talvez esteja na altura de voltar a confiar na Patrulha.

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