MATERIAL DA PATRULHA/EQUIPA: UMA FERRAMENTA EDUCATIVA ESQUECIDA
"O escutismo é um jogo para rapazes, dirigido por rapazes, sob a orientação de homens." A célebre afirmação de Baden-Powell continua a desafiar-nos, mais de um século depois. Se acreditarmos verdadeiramente nesta ideia, então devemos questionar uma questão aparentemente secundária, mas profundamente pedagógica: a quem deve pertencer o material de campo?
Em muitos agrupamentos, todo o equipamento pertence naturalmente à estrutura comum. Trata-se de uma solução prática que facilita a gestão, simplifica a manutenção e permite uma utilização mais racional dos recursos. No entanto, será esta a opção que melhor serve o Método Escutista?
O Sistema de Patrulhas nunca foi concebido apenas como uma forma de dividir um grande grupo em equipas mais pequenas. Baden-Powell imaginou a patrulha como uma verdadeira comunidade de vida em que os jovens aprendem através da prática, ao assumirem responsabilidades concretas e tomarem decisões com consequências reais.
Roland Philipps, na sua obra "The Patrol System", talvez tenha sido quem melhor compreendeu esta visão. Segundo o autor, a patrulha deveria ter identidade própria, autonomia e capacidade de organização. Não se trataria de uma mera divisão administrativa do agrupamento, mas de uma unidade viva, capaz de gerir os seus recursos, planear as suas atividades e assumir o seu próprio destino. A responsabilidade nasce quando existe algo que mereça ser protegido.
É precisamente aqui que o material adquire um significado que ultrapassa a sua utilidade.
Uma tenda não é apenas uma tenda.
Um serrote não é apenas um serrote.
Um fogão, um maço, um jerricã ou um conjunto de ferramentas de pioneirismo deixam de ser meros objetos quando passam a fazer parte do património da patrulha. Tornam-se símbolos de confiança. Representam a autonomia que os adultos decidiram confiar aos jovens.
A relação com os elementos muda profundamente quando estes sabem que aquela é "a nossa tenda". São eles que verificam se está seca antes de a arrumar. São eles que encontram uma vareta partida e tratam da sua reparação. São eles que se apercebem de que falta uma estaca ou de que o serrote precisa de ser afiado. Sem se aperceberem, estão a aprender gestão, organização, manutenção, planeamento e trabalho de equipa.
Michel Menu lembrava frequentemente que o escutismo educa através da responsabilidade, e não da dependência dos adultos. Ao retirar uma responsabilidade aos jovens, está-se também a perder uma oportunidade educativa. Talvez por isso insistisse tanto na necessidade de confiar verdadeiramente nos pequenos grupos, permitindo-lhes experimentar, cometer erros, corrigi-los e crescer.
Naturalmente, esta confiança tem um preço.
Haverá material danificado.
Haverá perdas.
Haverá erros de organização.
Porém, haverá também aprendizagem.
Muitas vezes, confundimos eficiência com educação. Um armazém central organizado pelos responsáveis pode ser extremamente eficiente. No entanto, uma patrulha que nunca cuida do seu equipamento dificilmente aprenderá o valor da responsabilidade. O objetivo do Escutismo nunca foi preservar tendas, mas sim formar pessoas.
Enrolar corretamente cada corda, limpar cada ferramenta após a sua utilização e preparar cada inventário antes de um acampamento constituem pequenas lições de cidadania. São gestos aparentemente simples que ensinam o respeito pelos bens comuns, o sentido de compromisso e o orgulho no trabalho bem-feito.
Há ainda uma dimensão frequentemente esquecida: a memória da patrulha.
A mesa construída há três anos.
A caixa de cozinha melhorada geração após geração.
A velha panela onde tantos acampamentos começaram.
A tenda que resistiu a noites de chuva e vento.
O material conta histórias. Transporta identidade. É tão importante para a cultura da patrulha como a sua bandeira, o seu "grito de guerra" - grito de patrulha ou o seu animal totémico. Constitui património material, mas também educativo.
Talvez tenha chegado o momento de recuperarmos esta dimensão do Método Escutista.
Não por nostalgia.
Não porque "sempre foi assim".
Mas porque continua a fazer sentido.
Num mundo em que quase tudo é descartável e em que os adultos assumem tantas responsabilidades, permitir que uma patrulha possua, cuide e administre o seu próprio material continua a ser uma extraordinária escola de autonomia.
A questão, afinal, nunca foi "Quem é o dono da tenda?".
A verdadeira questão é outra.
Estamos dispostos a confiar nos nossos jovens, entregando-lhes responsabilidades reais?
Porque é desta resposta, e não da localização do material no armazém do agrupamento, que depende a fidelidade ao Método Escutista.

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