EXISTEM LOCAIS A QUE VOLTAMOS SEMPRE
Há dias em que a vida nos surpreende de forma simples.
Basta o cheiro da terra após a chuva. O crepitar de lenha na lareira. Uma mochila encostada a um canto. Uma canção antiga que alguém começa a cantar por acaso. E, sem aviso, regressamos.
Não regressamos apenas a um acampamento, a uma sede ou a um trilho perdido entre pinheiros. Regressamos a uma fase da vida em que tudo parecia maior. As amizades eram mais rápidas, os sorrisos mais espontâneos e os horizontes pareciam não ter fim. Voltamos ao local onde aprendemos que a felicidade cabia em muito pouco e que afinal nunca precisou de muito para existir.
O tempo tem o estranho dom de apagar os pormenores e guardar apenas o essencial. Já não nos lembramos das datas, dos programas ou da ordem das atividades. Mas recordamo-nos das pessoas. Lembramo-nos dos rostos iluminados pela luz da fogueira do fogo de conselho. Das conversas que começaram sem importância e acabaram por marcar uma vida inteira. Lembramo-nos dos abraços silenciosos, quando as palavras já não bastavam.
Talvez seja isso que distingue o escutismo de tantas outras experiências. Nunca se tratou apenas do que fazíamos. Foi, acima de tudo, aquilo em que nos fomos tornando.
Sem darmos por isso, fomos aprendendo que a coragem não significa ausência de medo. Que liderar começava por saber ouvir. Que servir não diminui ninguém, mas sim nos torna maiores. E que a verdadeira riqueza nunca esteve no que levávamos na mochila, mas sim nas pessoas que caminhavam ao nosso lado.
Anos mais tarde, a vida acelera
.
As agendas enchem-se, os compromissos multiplicam-se e os fins de semana deixam de ser tão livres como antes. A farda fica cuidadosamente dobrada e o lenço ganha um lugar especial numa gaveta, parecendo que tudo ficou para trás.
Mas basta um instante.
Alguém diz uma expressão que não ouvimos há anos. Encontramos uma fotografia esquecida. Cruzamo-nos com um antigo companheiro de caminhada e, de repente, o tempo deixa de existir. As gargalhadas, os rostos de quem já partiu, os nomes que nunca esquecemos e a certeza de que há amizades que o tempo não consegue destruir regressam.
É curioso como o escutismo continua a acompanhar-nos, mesmo quando deixamos de nos aperceber disso.
Está presente na forma como olhamos primeiro para quem precisa de ajuda. Está na nossa vontade de encontrar soluções em vez de desculpas. Está na nossa capacidade de acreditar que quase tudo se resolve quando há boa vontade e espírito de equipa. Está na serenidade com que enfrentamos os dias difíceis, porque em algum momento aprendemos que nenhuma tempestade dura para sempre.
E talvez esteja, sobretudo, na forma como olhamos para os outros.
O escutismo ensinou-nos que cada pessoa tem um lugar à volta da fogueira. Ninguém caminha verdadeiramente sozinho. O valor de uma vida não se mede pelo que acumulamos, mas sim pelas marcas de bem que deixamos no nosso caminho.
Há quem pense que o escutismo termina com a última atividade, com o dia em que se pendura a farda ou com a Partida.
No entanto, isso seria o mesmo que dizer que uma árvore deixa de crescer porque já não vemos as suas raízes.
As raízes permanecem escondidas. Sustentam tudo o que se segue.
O escutismo faz exatamente isso. Continua presente nas pequenas escolhas, nas palavras que dizemos, na forma como educamos os nossos filhos, como acolhemos quem chega e como olhamos para o mundo com esperança, mesmo quando este parece menos bonito.
E, um dia, apercebemo-nos de que aquilo que mais nos comove não são as grandes aventuras que vivemos.
São os pormenores.
O aroma do café numa manhã fria. A luz tímida do amanhecer, antes do campo acordar. O silêncio de uma noite estrelada. A voz de alguém que não vemos há muitos anos, mas que continua incrivelmente próxima quando a memória lhe faz justiça.
É então que compreendemos uma verdade que talvez nunca nos tenham ensinado.
O escutismo nunca foi um local para onde íamos aos fins de semana.
Foi um lugar dentro de nós.
E há lugares assim.
Não aparecem nos mapas.
Não têm coordenadas.
No entanto, permanecem intactos por mais anos que passem, à espera de um cheiro, uma canção ou uma memória que nos faça regressar a casa.

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