QUANDO O DISTINTIVO DE CATEGORIA PESA MAIS DO QUE O UNIFORME
Já ganhei eleições.
Já perdi eleições.
As vitórias conferiram-me responsabilidades. As derrotas
deram-me tempo para refletir.
Sempre aceitei os resultados de forma democrática. Isso faz
parte da vida de qualquer dirigente. Quem se candidata a um cargo sabe que, um
dia, será escolhido e, noutro, não.
No entanto, confesso que algumas derrotas me deixaram uma
inquietação difícil de explicar.
Não pela derrota em si.
Essa ultrapassa-se.
O que custa é a sensação de que, por vezes, os caminhos são
construídos longe da transparência. Conversas de corredor. Silêncios
estratégicos. Influências discretas. Sorrisos oferecidos de frente e reservas
manifestadas pelas costas.
Ao longo dos anos, percebi que as maiores desilusões
raramente vêm dos adversários declarados.
Vêm, muitas vezes, daqueles que nos apertam a mão, mas que
já decidiram seguir outro caminho. Daqueles que falam de fraternidade, mas que
alimentam divisões. Que defendem o diálogo em público, mas cultivam a intriga
em privado.
Não escrevo estas palavras por ressentimento.
Escrevo-as porque, após mais de cinquenta anos no Escutismo,
aprendi que o valor de uma organização está na qualidade ética das pessoas que
a servem.
Compreendi então que o verdadeiro desafio do Escutismo não é
vestir um uniforme.
É honrar aquilo que este representa.
Ao longo da minha vida como escuteiro, ouvi muitas vezes a
seguinte frase: "O importante é servir."
É verdade.
No entanto, com o passar dos anos, descobri que servir nem
sempre é o mais difícil.
O mais difícil é continuarmos a servir quando percebemos que
nem todos vivem os valores que proclamam.
O escutismo ensinou-me a montar tendas debaixo de chuva, a
caminhar quilómetros com uma mochila às costas, a cozinhar no campo, a planear
grandes atividades, a formar dirigentes, a organizar cursos, a dormir pouco e a
levantar cedo para que centenas de jovens vivessem experiências inesquecíveis.
Nunca esperei receber aplausos.
Nunca procurei reconhecimento.
O trabalho de voluntariado não se avalia com base na medalhística,
cargos ou fotografias.
Mede-se pelo impacto que temos na vida dos outros.
No entanto, aprendi outra lição.
Talvez a mais difícil de todas.
As maiores tempestades nem sempre vêm do céu.
Muitas vezes, vêm das pessoas.
Ao longo de mais de cinco décadas, encontrei dirigentes
extraordinários.
Homens e mulheres íntegros, competentes, humildes e capazes
de colocar o movimento acima do seu próprio ego, de trabalharem em silêncio e
de reconhecerem o mérito dos outros.
São essas pessoas que mantêm vivo o sonho de Baden-Powell.
Infelizmente, também encontrei o seu oposto.
Pessoas que confundem autoridade com poder.
Que usam os cargos para alimentar vaidades.
Que transformam o serviço numa forma de protagonismo.
Pessoas que pregam a fraternidade, mas semeiam a discórdia.
Pessoas que falam de lealdade, mas praticam a conveniência.
Que sorriem para a cara das pessoas, mas trabalham
secretamente para as enfraquecer por pensarem de forma diferente.
É aqui que nasce a hipocrisia.
E poucas coisas são tão destrutivas numa organização
educativa como esta.
Porque destrói aquilo que nenhuma eleição consegue
construir: a confiança.
Sem confiança, não há equipa.
Sem confiança, não há formação.
Sem confiança, não há comunidade educativa.
Ao longo da minha vida, aprendi também outra verdade.
Perdoar faz parte dos valores cristãos e escutistas que
tento pôr em prática.
Perdoo porque guardar rancor corrói quem o alimenta.
No entanto, não confundo perdão com amnésia.
Não esquecer não significa viver preso ao passado.
Significa aprender.
Significa reconhecer padrões.
Significa compreender que a verdadeira natureza das pessoas
se manifesta sobretudo nas suas ações e não nas suas palavras.
Durante muitos anos, formei dirigentes.
E sempre lhes transmiti a mesma ideia: o exemplo ensina
muito mais do que qualquer manual.
Hoje, continuo absolutamente convencido disso.
Os jovens observam-nos muito mais do que nos ouvem.
Não aprendem humildade através de discursos.
Aprendem-na ao observar dirigentes humildes.
Não aprendem respeito lendo regulamentos.
Aprendem respeito quando observam adultos a respeitar-se
entre si, mesmo quando têm opiniões diferentes.
Não aprendem o valor do serviço através de slogans.
Aprendem quando descobrem alguém que trabalhe sem procurar
protagonismo.
Talvez tenha chegado o momento de falarmos menos sobre
valores.
E de os vivermos mais.
O Escutismo não precisa de dirigentes perfeitos.
Nunca precisou.
Precisa, isso sim, de dirigentes coerentes.
Capazes de assumir os seus erros.
Capazes de reconhecer o mérito dos outros.
Que coloquem a missão educativa acima dos interesses
pessoais.
Porque uma promessa não se cumpre apenas no dia em que é
feita.
Renova-se todos os dias.
Nas pequenas decisões.
Na forma como tratamos as pessoas.
Na forma como exercemos a nossa autoridade.
Na nossa capacidade de sermos leais, mesmo quando ninguém
está a ver.
Um lenço ao pescoço não torna ninguém melhor.
Uma insígnia não faz de alguém um educador.
Um cargo não cria carácter.
Tudo isso são apenas símbolos.
O verdadeiro distintivo está na coerência entre o que
dizemos e o que fazemos.
Se pudesse deixar uma mensagem às novas gerações de
dirigentes, seria esta: nunca deixem que a política interna vos faça esquecer a
vossa missão educativa. Nunca deixem que as vaidades falem mais alto do que o
serviço. Nunca confundam influência com liderança. E nunca tenham medo de
defender a verdade, mesmo que vos torne incómodos.
No fim, os cargos desaparecem.
Os mandatos terminam.
As insígnias ficam guardadas numa gaveta.
Os nomes deixam de constar das listas.
Mas o que verdadeiramente permanece é o carácter.
É o exemplo.
É a marca que deixamos nas pessoas.
Porque, afinal, o escutismo não se mede pelos cargos que ocupámos.
Mede-se pelos jovens que ajudámos a crescer.
Pela formação das consciências que ajudámos a moldar.
Pelas amizades que construímos.
E pela fidelidade aos valores que prometemos viver.
Acima de tudo, estamos sempre alertas para sermos dignos do
exemplo que pedimos aos mais novos.

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