ETERNAMENTE “JOVENS”!
Diz-se que os dirigentes dos escuteiros nunca envelhecem. Isso é mentira. Envelhecem como toda a gente. A diferença é que o escutismo não lhes permite admiti-lo. O corpo entra em pré-falência, mas eles continuam a aparecer de lenço ao pescoço, fingindo que dormir três horas numa tenda é uma opção de vida e não uma violação dos direitos humanos.
Há uma certa idade em que deixamos de correr atrás das crianças e passamos a gerir á distância para parecer que as estamos a supervisionar. Não se trata de falta de vontade, mas sim de uma estratégia de sobrevivência. A pedagogia chama-lhe autonomia. A coluna chama-lhe instinto de conservação.
Olho para trás e vejo um percurso repleto de decisões questionáveis. Um indivíduo que acreditou poder continuar a brincar aos escuteiros indefinidamente, como se as articulações fossem peças vitalícias e os discos da coluna tivessem garantia do fabricante.
O problema do dirigente é nunca crescer verdadeiramente. Ele continua convencido de que consegue construir um pórtico de campo monumental, cortar lenha, puxar reboques, organizar um jogo noturno e ainda cantar à volta da fogueira com entusiasmo. No entanto, no dia seguinte, demora quinze minutos a sair da cama e outros dez a perceber qual das pernas deixou de funcionar durante a noite.
O Escutismo vende a maravilhosa ilusão de que somos eternamente jovens por convivermos com jovens. É a mesma lógica de pensar que, ao entrarmos numa garagem, nos transformamos num automóvel. Rodear-nos de adolescentes cheios de energia não nos rejuvenesce, apenas torna mais evidente quão próximos estamos de atingir os cinquenta mil quilómetros.
Depois, há as atividades radicais. Aquelas em que um dirigente com mais de quarenta anos olha para um obstáculo e pensa: "Claro que consigo." E consegue, de facto. O problema nunca foi ultrapassar o obstáculo. O problema é conseguir vestir as meias no dia seguinte sem recorrer a todas as entidades divinas conhecidas.
Há sempre aquele dirigente veterano que surge com um sorriso sereno e afirma:
— Isto mantém-nos jovens.
Claro que sim. Tal como os incêndios mantêm as florestas quentes.
A verdade é bem menos romântica. Mantém-nos cansados, doloridos, privados de sono e com uma coleção de pomadas que faria inveja a uma farmácia de província. A mochila pesa exatamente o mesmo que há vinte anos. O que mudou foi o burro que a transporta.
O mais hilariante é continuarmos a dizer "eu trato disso". É uma doença. Quando um adolescente diz que precisa de ajuda para construir uma mesa, respondemos de imediato:
— Deixa comigo.
Uma hora depois, estamos a segurar troncos, a apertar sisal com os dentes, que já pagam IRS, e a perguntar discretamente onde está o Voltaren.
Depois, chega o domingo. As crianças vão para casa felizes, os pais agradecem o excelente fim de semana e nós regressamos com a elegância de um sobrevivente de uma campanha napoleónica. Há lama nas botas, nódoas na camisa, três mensagens por responder, uma carrinha para descarregar e uma hérnia que acabou de se manifestar.
Mas, na segunda-feira, quando alguém perguntar como correu...
— Espetacular! Para a próxima, fazemos melhor.
É aqui que percebemos que o envelhecimento não afetou o nosso corpo. Afetou o discernimento.
Só alguém profundamente avariado é que aceita trocar um fim de semana confortável por duas noites mal dormidas, refeições improvisadas, reuniões intermináveis, burocracia, autorizações, cargas e descargas, crianças hiperativas e um período de recuperação física mais longo do que a própria atividade.
E, no entanto, voltamos sempre.
Não porque sejamos heróis. Nem por sermos particularmente altruístas.
Voltamos porque o escutismo é uma doença crónica. Entra-nos no sangue, instala-se algures entre o sentido de missão e a completa falta de juízo, e recusa-se a sair.
Por isso, poupem-me à conversa de que os dirigentes nunca envelhecem.
Envelhecem, de facto.
Acontece que o Escutismo tem o dom raro de transformar adultos perfeitamente funcionais em pessoas que passam os fins de semana a dormir em tendas, a cozinhar para a equipa de chefia, que tem mais pessoas que o seu círculo familiar, a carregar madeira como se não houvesse amanhã e, no final, dizem ainda, com um sorriso completamente irracional:
"Quando é o próximo acampamento?"
Se isto não é a definição clínica de loucura, está muito próximo disso.

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