COMO EU VEJO O ESCUTISMO… COMO SEMPRE O VI… E COMO ESPERO CONTINUAR A VÊ-LO
É assim que vejo o Escutismo, tal como sempre o vi e como espero continuar a vê-lo.
Há imagens que valem mais do que muitas palavras. Não porque
mostrem feitos extraordinários, mas porque capturam a essência. Um grupo de
seis exploradores reunidos à volta de uma mesa construída por eles próprios, a
partilhar uma refeição, a caminhar juntos, a navegar numa jangada feita pelas
suas mãos, a rezar em silêncio, a cantar em redor da fogueira do conselho ou a
descobrir a história num museu. É assim que vejo o escutismo. Foi assim que o
conheci. E é assim que desejo que continue.
Vivemos tempos de mudança acelerada, em que tudo parece
exigir inovação constante. O Escutismo não escapa a essa pressão. Surgem novas
metodologias, recursos e linguagens. Tudo isto pode ser útil, desde que nunca
percamos de vista aquilo que verdadeiramente nos define: o Método Escutista,
concebido por Baden-Powell.
Porque o escutismo nunca foi apenas um conjunto de
atividades. Nunca foi uma sucessão de jogos ou um calendário de eventos. O
escutismo é, acima de tudo, um método educativo. Um método extraordinariamente
simples e, por isso mesmo, profundamente eficaz.
A patrulha continua a ser o seu coração.
É através dela que os jovens aprendem a liderar e a ser
liderados. É através dela que descobre que a responsabilidade não se ensina em
teoria, mas sim se vive. Percebe que servir os outros não é um gesto ocasional,
mas uma forma de estar.
Ao preparar o seu canto, construir a sua mesa, organizar o
seu material, cozinhar a sua refeição, partir para um trilho, enfrentar os
desafios de um jogo ou construir uma jangada para atravessar um lago, a
Patrulha não está apenas a executar tarefas. Está a crescer. Está a aprender a
decidir, a confiar, a cooperar e a superar dificuldades.
A oração também faz parte desse crescimento. Baden-Powell
nunca concebeu o Escutismo desligado da dimensão espiritual. O contacto com
Deus, vivido de forma simples e natural, integrado na vida no campo e na
contemplação da natureza, continua a ser um dos pilares da formação integral do
indivíduo.
Depois, chega a noite.
Acende-se o fogo de conselho.
Não há ecrãs nem distrações à sua volta. Há histórias,
canções, silêncio, amizade, alegria e recordações. Os jovens descobrem que
pertencem a algo maior do que eles próprios. Há líderes que educam sem recorrer
a discursos, mas sim através da sua presença, do seu exemplo e da confiança que
inspiram.
No dia seguinte, a patrulha visita um museu, entra em
contacto com outras culturas, compreende melhor o mundo e regressa mais rica. O
Escutismo educa para a curiosidade, o conhecimento e a cidadania.
É esta diversidade que enriquece o nosso Movimento. O jogo,
a aventura, o serviço, a técnica, a natureza, a cultura, a espiritualidade e a
fraternidade não são atividades isoladas, mas sim peças de um mesmo projeto
educativo.
Talvez seja precisamente isso que mais me preocupa quando
vejo, por vezes, o método ser substituído pela organização, a autonomia pela
centralização, a patrulha pelo grande grupo e a responsabilidade pela
intervenção constante do adulto.
O escutismo nunca teve como objetivo formar jovens
dependentes dos seus dirigentes. Pelo contrário. Baden-Powell idealizou um
movimento em que os adultos preparassem o terreno para os próprios jovens
construírem o seu caminho. Um movimento em que o Guia de Patrulha fosse um
líder de facto, em que os erros fossem oportunidades de aprendizagem e em que a
confiança valesse mais do que o controlo.
Naturalmente, o escutismo deve acompanhar os tempos. Deve
responder às necessidades das novas gerações e tirar partido dos recursos que
estas oferecem. No entanto, adaptar-se nunca poderá significar abandonar aquilo
que lhe confere identidade. Modernizar não significa descaracterizar.
Continuo a acreditar que o futuro do escutismo passa
precisamente por aquilo que lhe deu origem: pequenas patrulhas autónomas, vida
ao ar livre, aprendizagem através da ação, responsabilidade progressiva,
serviço ao próximo, formação do carácter e educação baseada na confiança.
Sempre que vejo uma patrulha a caminhar unida, a construir
com as próprias mãos, a cozinhar a sua refeição, a rir durante um jogo, a rezar
em conjunto ou a cantar à volta da fogueira do conselho, vejo o escutismo com
que Baden-Powell sonhou.
É esse o escutismo em que acredito.
O escutismo que conheci.
O escutismo que procuro viver.
E, sobretudo, é o escutismo que espero continuar a ver
durante muitos anos, fiel ao espírito do fundador, pois há princípios que não
envelhecem e um método que, mais de um século depois, continua a formar homens
e mulheres de carácter, cidadãos responsáveis e cristãos comprometidos.
O verdadeiro futuro do escutismo não está em reinventá-lo.
Está em vivê-lo todos os dias com autenticidade e fidelidade ao legado de Lord
Baden-Powell.


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