FORMAÇÃO ESCUTISTA DE ADULTOS: ENTRE O CORAÇÃO E A LÓGICA
DA GESTÃO
O escutismo sempre foi um movimento profundamente humano.
Baseia-se na ligação entre pessoas, na vivência em comunidade, no exemplo ativo
e no crescimento partilhado. Porém, hoje, assistimos a um debate cada vez mais
evidente: a formação escutista de adultos está a ser orientada pelo coração
ou pela gestão? Esta é uma pergunta que toca várias realidades do movimento
e que merece uma reflexão séria, honesta e descomplexada.
Formar com o coração: relações humanas que educam
Formar com o coração não significa romantizar o escutismo.
Significa assumir que a essência do método está na relação entre educadores e
educandos, entre dirigentes e equipas, entre cada pessoa e a comunidade que a
acolhe.
É nesta perspetiva que a formação de adultos deve:
- privilegiar
a escuta ativa e empática;
- valorizar
cada adulto enquanto pessoa e não enquanto número;
- criar
espaços onde se aprende fazendo, errando e crescendo;
- permitir
experiências significativas que toquem, motivem e inspirem;
- reforçar
a vivência plena do Método Escutista: a patrulha, o jogo, o
serviço, a mística, a natureza.
Um adulto formado com o coração sente-se parte do movimento,
compreende o seu papel, apropria-se da missão e coloca o jovem no centro do seu
serviço. Não cumpre apenas “tarefas”; vive o escutismo.
A formação pela gestão: números, créditos e a ilusão da
eficácia
Em contrapartida, cresce uma tendência mais gestionária,
mais tecnocrática, que reduz a formação a processos administrativos.
Nesta lógica, surgem prioridades como:
- aumentar
o número de adultos “ativos”;
- criar
percursos formativos mais ou menos rápidos para “despachar” necessidades;
- contabilizar
créditos como se a formação fosse um conjunto de carimbos;
- alinhar
calendários e plataformas com metas e estatísticas.
A gestão é necessária. Uma organização grande exige
estrutura e método. Mas quando a gestão se torna o fim em vez de meio, cria-se
um escutismo de superfície: muitas certificações, pouca transformação; muitos
adultos, poucos educadores; muitos créditos, pouca maturidade escutista.
Pior ainda: esta lógica frequentemente falha em responder
às verdadeiras necessidades dos adultos — necessidades de acompanhamento,
de motivação, de reflexão, de cura de desgaste, de descoberta de vocação
escutista.
Cria-se um sistema onde se “cumpre” formação, mas onde se aprende muito pouco
do que importa.
Criatividade vs. produtividade: a alma do escutismo em
risco
O escutismo é um movimento criativo por natureza.
É feito de fogo-de-conselho, desafios inesperados, simbologia, aventura,
improviso, mística, jogo e descoberta.
Mas a criatividade precisa de:
- tempo,
- liberdade,
- espaço
de experimentação,
- margem
para errar.
Um sistema obcecado por prazos, relatórios e tarefas
avaliativas sufoca a espontaneidade que sustenta a pedagogia escutista.
Sem criatividade, o método perde força.
E um dirigente que não se reencontra no escutismo deixa de conseguir inspirar
os jovens que serve.
A ausência de resposta: quando os adultos ficam para trás
O maior paradoxo é este:
Enquanto se corre para “formar mais adultos”, muitos adultos continuam a dizer
que não encontram resposta às suas necessidades reais.
Alguns exemplos frequentes:
- procuram
apoio e recebem procedimentos;
- pedem
orientação e recebem formulários;
- precisam
de tempo para crescer e recebem prazos para cumprir;
- querem
reencontrar sentido e recebem listas de módulos.
O resultado é previsível: desmotivação, afastamento e um
movimento que cresce em números, mas empobrece em profundidade.
O coração como bússola, a gestão como ferramenta
A questão não é abolir a gestão.
É recolocar o coração no centro.
A gestão deve existir para servir a missão, não para a
substituir.
O coração conduz; a gestão apoia.
O método inspira; a estrutura organiza.
Os jovens estão no centro; os números são apenas indicadores.
A formação escutista de adultos deve voltar a ser uma
experiência que transforma, não apenas certifica. Deve tocar vidas, não apenas
perfis. Deve acolher pessoas, não apenas preencher tabelas.
Conclusão: formar pessoas, não processos
O escutismo precisa de dirigentes inteiros, conscientes,
motivados, criativos e apaixonados pelo serviço. Isso não se alcança através de
créditos, estatísticas ou programas acelerados.
Consegue-se através de formação com alma, com relação, com presença — com o
coração.
Se queremos um movimento forte, inspirado e fiel à sua
identidade, então é urgente recentrar a formação de adultos no que
verdadeiramente importa: a pessoa e a missão educativa.
O resto?
O resto deve estar ao serviço — nunca no comando.