O ÚLTIMO FOGO DE CONSELHO… COMO LOBITA
O céu sobre o Acampamento da Serra da Estrela era um manto escuro salpicado de estrelas cintilantes. O ar fresco da noite, perfumado pelo pinhal, trazia consigo o cheiro doce da lenha a arder e o murmúrio contido de dezenas de vozes. No grande Fogo de Conselho, o coração do acampamento batia com luz e calor: era o Fogo de Conselho.
A Leonor, sentada num dos troncos mais afastados, ainda
dentro do círculo dos lobitos, puxou o casaco azul-escuro mais junto do corpo.
Não era de frio, mas de uma emoção profunda que lhe agitava a alma. Aquele era
o seu último Fogo de Conselho como Lobita. Dentro de poucos dias, iria fazer a
sua Promessa de Exploradora perante a Bandeira Nacional.
Os chefes, iniciaram o ritual. A tocha foi trazida com
solenidade, e a grande fogueira ganhou vida, crepitando e lançando faíscas que
pareciam querer competir com as estrelas. As canções começaram, cada uma mais
alegre do que a outra: “Bendita seja, luz mensageira, a tua chama no lar.
Alumia e aquece, o fogo tem graça e cor, ritmo da vida que cresce,
fonte de paz e amor. Sobe ...
Leonor cantou com toda a força, a sua voz misturando-se com
a da Alcateia, pela última vez.
Enquanto cantava, os olhos dela percorreram o círculo
iluminado pelo fogo. Viu os Exploradores, confiantes, a apresentar um “sketch”
divertido sobre uma patrulha desorientada numa expedição. Viu os Pioneiros, já
mais sérios, a entoar uma canção de perseverança. E viu os Caminheiros, quase
adultos, com o olhar brilhante de quem já sonha com novos horizontes. “Em
breve, estarei ali”, pensou Leonor, e um frio na barriga juntou-se ao calor das
chamas.
Chegou a hora das histórias. O Chefe Miguel, homem de barba
grisalha e olhar bondoso, pediu silêncio.
— Hoje não vos trago uma história de grandes heróis — disse
ele, a sua voz grave ecoando na noite. — Quero falar de pegadas. As pegadas que
deixamos e as que estamos prestes a seguir.
Leonor sentiu cada palavra como se fosse dirigida apenas a
ela.
— Há alguns anos — continuou o chefe —, uma pequena lobita
chegou ao nosso agrupamento. Tinha medo do escuro, não sabia dar um nó simples
e escondia-se atrás da mãe na hora da canção. Mas tinha um brilho nos olhos,
uma curiosidade. E passo a passo, foi deixando pegadas. Aprendeu a cozinhar no
fogão “Palheirão”, a montar a sua tenda, a seguir uma pista na mata. Deixou
pegadas de coragem na primeira noite longe de casa, pegadas de amizade quando
ajudou uma irmã de Alcateia, pegadas de honra ao tentar sempre fazer o seu “Da
Melhor Vontade”.
Leonor baixou o olhar. Uma pontada de saudade apertou-lhe o
peito. Recordou o cheiro da sua primeira tenda, o sabor do refresco de limão
espremido à mão, o medo superado numa noite de histórias à volta da fogueira.
— Agora — prosseguiu o chefe —, essa lobita está prestes a
dar um passo maior. As suas pegadas vão a levar a novos trilhos, cheios de
desafios, aventuras e descobertas. Até aqui foi uma jornada de aprendizagem.
Agora começa uma de crescimento.
Ele olhou diretamente para Leonor e sorriu.
— Mas as pegadas que deixou na nossa Alcateia nunca se
apagarão. São a base, a raiz. E, para onde quer que vá, este fogo, esta
Alcateia, esta família escutista, estará sempre aqui a torcer por ela.
As palmas ecoaram. Júlia, a sua melhor amiga, apertou-lhe a
mão com força. Tinha os olhos marejados, mas um sorriso cheio de orgulho.
O Fogo seguiu, mas para Leonor cada música, cada gargalhada,
parecia um filme a passar na memória. Vivia a sua própria cerimónia silenciosa
de despedida.
Quando o fogo já estava em brasas, todos se levantaram e
deram as mãos, formando um grande círculo. Era a hora da canção de despedida.
As vozes uniram-se, emocionadas, e a melodia subiu ao céu
estrelado:
"Chegou a hora do adeus, irmãos, vamos partir, / No
abraço dado em Deus, irmãos, vamos nos despedir". Seguem-se
geralmente os versos "Partimos com a esperança, irmãos, de um dia aqui
voltar, / Com fé e confiança, irmãos, partimos a cantar". Por fim, a
canção pede: "A Deus, que fez bela a amizade, nós vamos pedir, / Nos
guarde em unidade e que nos torne a reunir..”
Leonor cantou, com a voz embargada. Olhou para os rostos
iluminados — os amigos, os chefes, o seu irmão mais novo, que agora começava
também o caminho escutista. E entendeu: não era um fim, mas um começo.
No final, todos ergueram as vozes numa só exclamação, forte
como um juramento:
“UMA VEZ ESCUTEIRO, ESCUTEIRO PARA SEMPRE! O NOSSO LEMA
É: SEMPRE ALERTA!”
Leonor gritou com toda a força. O frio na barriga
desapareceu, substituído por uma coragem quente e luminosa.
Não deixava nada para trás. Levava consigo tudo: o cheiro da fogueira, o calor
da amizade, as lições vividas.
Sempre Lobita, agora também Escuteira.

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