UM CONTO DA ALCATEIA
A Diplomacia do Acampamento de Lobitos
O sol começava a desaparecer atrás das serras, pintando o céu com cores de fogo: laranja, vermelho e roxo. O ar da tarde cheirava a pinhal e a terra molhada. Dentro da minha tenda, eu, A Akelá, estava a aproveitar uns minutos de silêncio depois de um dia inteiro a correr atrás da alcateia. O estômago já barulho… estava na hora do jantar.
Para mim, o plano era simples: para cada Lobito, abrir uma
lata de sardinhas, aquecer no próprio óleo e meter dentro de um pão. Rápido,
quentinho, sem loiça para lavar. O jantar perfeito!
Mas nesse momento, a entrada da tenda abriu-se e lá estava a
Bárbara, a Lobita de olhos brilhantes. Não vinha só conversar. Vinha com uma
missão.
— Akelá — disse ela, muito séria, como quem apresenta um
grande projeto —, hoje vamos fazer pão de caçador!
Eu olhei para ela, meio atrapalhado. O pão de caçador é uma
aventura: amassar a massa, enrolar no espeto, rodar com calma para não queimar…
Demora imenso tempo, e o meu estômago e os dos miúdos, já pediam comida rápida!
— Mas, Bárbara — respondi eu —, olha a hora! A sardinha é
muito mais prática: fica pronta num instante e já ficamos com energia. O pão de
caçador é para quando temos mais tempo.
Mas os olhos dela não se apagaram. Pelo contrário, brilharam
ainda mais.
— Mas eu já tenho a farinha pronta! Eu amasso, com a ajuda
do meu Bando e preparamos os paus, ficamos depois a rodar o espeto… Vais ver,
Akelá, vai ficar delicioso!
Eu já estava quase a ceder quando apareceu a Sofia, a nossa “Baguera”,
que ouviu a nossa conversa e disse com calma:
— E porque não… os dois?
Fiquei a pensar.
— Como assim, os dois? — perguntei.
— Tu abres as latas da sardinha, eu abro os pães... Enquanto
isso, a Bárbara e Bando dela começam o pão de caçador. Quando acabares,
sentas-te ao pé deles e ajudas a vigiar o espeto. Assim, todos ficam felizes.
Parecia tão simples… e era mesmo genial! O rosto da Bárbara
encheu-se de alegria.
— Está bem, está bem — disse eu, a fingir que resmungava. —
Mas depois és tu que lavas a bacia de plástico da massa!
— Combinado! — gritou ela, já a correr para o fogareiro.
Pouco depois, o acampamento cheirava maravilhosamente: de um
lado, sardinha quente e saborosa; do outro, pão de caçador a dourar nas brasas.
Depois sentei-me junto à fogueira com a Bárbara e os restantes
Lobitos. Eles giravam os espetos com muita concentração. Falámos do dia, das
pegadas que tínhamos visto no trilho pedestre que nos levava ao Piódão, e das
estrelas que começavam a aparecer no céu.
Quando o pão ficou pronto, douradinho e estaladiço, ela
tirou-o com cuidado e disse:
— Para ti, Akelá.
Depois de comer uma maçã, para aguentar a fome, provei
aquele pedaço de pão quente e macio. Tinha o sabor da paciência, do esforço e
da partilha. Era, sem dúvida, muito melhor que só a sardinha.
No fim, como era de esperar, metade do pão ficou para mim e
a outra metade para ela. E a Bárbara ficou orgulhosíssima.
Moral do Conto
E assim terminou o nosso “Jantar da Alcateia”. Nesse
momento, lembrei-me de algo importante: o verdadeiro espírito escutista não
está apenas nos livros, nas regras ou nas insígnias. Está nestes momentos em
que conseguimos trabalhar juntos, encontrar soluções, partilhar tarefas e
repartir a comida à volta da fogueira.
Fazer “Da Melhor Vontade” nem sempre é escolher entre
isto ou aquilo. Muitas vezes, é descobrir uma forma de todos ficarem felizes,
ajudando-nos uns aos outros e partilhando o que temos.

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