quarta-feira, 3 de setembro de 2025

UM CONTO DA ALCATEIA

A Diplomacia do Acampamento de Lobitos

O sol começava a desaparecer atrás das serras, pintando o céu com cores de fogo: laranja, vermelho e roxo. O ar da tarde cheirava a pinhal e a terra molhada. Dentro da minha tenda, eu, A Akelá, estava a aproveitar uns minutos de silêncio depois de um dia inteiro a correr atrás da alcateia. O estômago já barulho… estava na hora do jantar.

Para mim, o plano era simples: para cada Lobito, abrir uma lata de sardinhas, aquecer no próprio óleo e meter dentro de um pão. Rápido, quentinho, sem loiça para lavar. O jantar perfeito!

Mas nesse momento, a entrada da tenda abriu-se e lá estava a Bárbara, a Lobita de olhos brilhantes. Não vinha só conversar. Vinha com uma missão.

— Akelá — disse ela, muito séria, como quem apresenta um grande projeto —, hoje vamos fazer pão de caçador!

Eu olhei para ela, meio atrapalhado. O pão de caçador é uma aventura: amassar a massa, enrolar no espeto, rodar com calma para não queimar… Demora imenso tempo, e o meu estômago e os dos miúdos, já pediam comida rápida!

— Mas, Bárbara — respondi eu —, olha a hora! A sardinha é muito mais prática: fica pronta num instante e já ficamos com energia. O pão de caçador é para quando temos mais tempo.

Mas os olhos dela não se apagaram. Pelo contrário, brilharam ainda mais.

— Mas eu já tenho a farinha pronta! Eu amasso, com a ajuda do meu Bando e preparamos os paus, ficamos depois a rodar o espeto… Vais ver, Akelá, vai ficar delicioso!

Eu já estava quase a ceder quando apareceu a Sofia, a nossa “Baguera”, que ouviu a nossa conversa e disse com calma:

— E porque não… os dois?

Fiquei a pensar.

— Como assim, os dois? — perguntei.

— Tu abres as latas da sardinha, eu abro os pães... Enquanto isso, a Bárbara e Bando dela começam o pão de caçador. Quando acabares, sentas-te ao pé deles e ajudas a vigiar o espeto. Assim, todos ficam felizes.

Parecia tão simples… e era mesmo genial! O rosto da Bárbara encheu-se de alegria.

— Está bem, está bem — disse eu, a fingir que resmungava. — Mas depois és tu que lavas a bacia de plástico da massa!

— Combinado! — gritou ela, já a correr para o fogareiro.

Pouco depois, o acampamento cheirava maravilhosamente: de um lado, sardinha quente e saborosa; do outro, pão de caçador a dourar nas brasas.

Depois sentei-me junto à fogueira com a Bárbara e os restantes Lobitos. Eles giravam os espetos com muita concentração. Falámos do dia, das pegadas que tínhamos visto no trilho pedestre que nos levava ao Piódão, e das estrelas que começavam a aparecer no céu.

Quando o pão ficou pronto, douradinho e estaladiço, ela tirou-o com cuidado e disse:

— Para ti, Akelá.

Depois de comer uma maçã, para aguentar a fome, provei aquele pedaço de pão quente e macio. Tinha o sabor da paciência, do esforço e da partilha. Era, sem dúvida, muito melhor que só a sardinha.

No fim, como era de esperar, metade do pão ficou para mim e a outra metade para ela. E a Bárbara ficou orgulhosíssima.

Moral do Conto

E assim terminou o nosso “Jantar da Alcateia”. Nesse momento, lembrei-me de algo importante: o verdadeiro espírito escutista não está apenas nos livros, nas regras ou nas insígnias. Está nestes momentos em que conseguimos trabalhar juntos, encontrar soluções, partilhar tarefas e repartir a comida à volta da fogueira.

Fazer “Da Melhor Vontade” nem sempre é escolher entre isto ou aquilo. Muitas vezes, é descobrir uma forma de todos ficarem felizes, ajudando-nos uns aos outros e partilhando o que temos.

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