domingo, 2 de agosto de 2026

A ALCATEIA ORGANIZA UMA CAÇA AOS GAMBUZINOS

Há uma fase da vida em que as crianças acreditam em tudo.

E que algures na floresta vivem gambuzinos.
É precisamente por isso que nunca se deve subestimar uma alcateia.
Um grupo de lobitos consegue acreditar numa história absurda com um entusiasmo que faria corar qualquer cientista.
Tudo começa de forma inocente.
Num raro momento de inspiração — ou de irresponsabilidade pedagógica —, um dirigente anuncia solenemente:
— Esta noite vamos caçar gambuzinos.
Os olhos dos lobitos iluminam-se.
Ninguém pergunta o que é um "gambuzino".
Seria admitir ignorância.
Limitam-se a aceitar a sua existência.
Se o chefe o diz, é porque existe.
É uma confiança enternecedora.
E ligeiramente perigosa.
A preparação torna-se, de imediato, um assunto de grande importância.
Há quem pergunte o que comem.
Outros querem saber se mordem.
Um terceiro preocupa-se com o tamanho.
É inevitável que apareça um dirigente que responda com absoluta convicção:
— Depende da idade.
Não acrescenta mais nada.
E não é necessário.
A imaginação das crianças encarrega-se do resto.
Ao fim de dez minutos, já há quem descreva gatos com asas.
Outros garantem que têm orelhas enormes.
Um deles garante até ter visto um no quintal da avó.
Ninguém duvida.
Na Alcateia, a verdade é um conceito muito flexível quando a aventura está em jogo.
Depois, começa a distribuição do material.
Um saco.
Uma lanterna.
Muito silêncio.
Sobretudo, muito silêncio.
É curioso pedir silêncio a uma alcateia.
É como pedir discrição a uma banda filarmónica.
Os primeiros trinta segundos até correm bem.
Depois, alguém espirra.
Outro tropeça.
Um terceiro pergunta, em voz alta o suficiente para ser ouvido na freguesia ao lado:
— Chefe, os gambuzinos ouvem bem?
Se ouviam, acabaram de ficar em alerta.
A caminhada prossegue.
Muito lentamente.
Porque cada sombra merece ser investigada.
Por trás de cada arbusto pode esconder-se um exemplar raro.
Qualquer barulho é imediatamente identificado como "um gambuzino grande".
Os dirigentes alimentam cuidadosamente o mistério.
Param de repente.
Olham para o chão.
Ajoelham-se.
— Viram isto?
Os lobitos aproximam-se em silêncio absoluto.
É um graveto.
No entanto, naquele momento, passa a ser uma pegada fresquíssima.
Há até quem tente medir o seu tamanho.
A aventura intensifica-se a cada passo.
De repente, um ramo abana.
Metade da alcateia suspende a respiração.
A outra metade está convencida de ter encontrado a família inteira dos gambuzinos.
E então acontece o inevitável.
Um coelho foge.
Ou um ouriço.
Ou um gato.
Pouco importa.
Para os lobitos, é a prova definitiva de que os gambuzinos existem.
Os dirigentes trocam olhares discretos.
A missão foi um sucesso.
Nem era preciso apanhar nenhum.
A melhor parte chega no regresso.
Os lobitos contam a aventura uns aos outros, como se tivessem participado numa expedição científica.
Cada um viu algo diferente.
Um ouviu um assobio.
Outro viu dois olhos brilhantes.
Outro tem a certeza absoluta de que um gambuzino lhe passou por entre as botas.
À medida que as histórias são contadas, estas vão crescendo.
Como todas as grandes histórias.
No fim, um dos mais novos faz a pergunta inevitável:
— Chefe, por que razão não apanhámos nenhum?
O dirigente sorri.
Olha para a floresta.
E responde com toda a solenidade:
— Porque os gambuzinos só aparecem quando percebem que as crianças sabem guardar um segredo.
O lobito acena com a cabeça, profundamente convencido.
Durante dias, não fala de outra coisa.
Quando chega a casa, explica aos pais que esteve quase a capturar um gambuzino.
Os pais sorriem.
Também já tiveram a idade em que acreditavam nos gambuzinos.
Talvez esse seja o verdadeiro segredo da alcateia.
Nunca se tratou de encontrar um animal imaginário.
A história é sobre como uma floresta escura pode transformar-se num lugar mágico, desde que haja imaginação suficiente para a preencher.
Depois é o regresso ao local do acampamento. Depois do leitinho e de umas bolachas “Maria”, dos dentes lavados… regressam às tendas. Uns vão adormecer com o cansaço e outros sonhar com os gambuzinos…
Anos mais tarde, os lobitos crescem.
Aprendem que os gambuzinos nunca existiram.
Ou, pelo menos, é o que dizem.
No entanto, quando um deles se torna dirigente e tem de preparar uma atividade noturna para a nova Alcateia, acaba por dizer, inevitavelmente, com um sorriso impossível de esconder:
— Esta noite... vamos organizar uma caçada aos gambuzinos!
Há tradições que não sobrevivem por serem verdadeiras.
Sobrevivem porque conseguem fazer com que uma criança acredite, ainda que por algumas horas, que o mundo ainda reserva mistérios por desvendar.
E talvez seja isso que o Escutismo faça melhor do que tudo o resto.

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