EMPRENHAR PELOS OUVIDOS
Qualquer chefe que se preze
julga-se dono da razão,
confundindo o cargo que lhe foi atribuído
com divina inspiração.
Há por aí cada engraxador
que faz corar um sapateiro,
lambe botas com fervor
só para subir na hierarquia.
Se o "chefe" mudar de opinião,
mudam todos de repente;
ontem diziam que era branco,
hoje juram que é diferente.
Vivem à roda do poder
como mariposas à luz;
pouco importa quem lá esteja,
desde que os conduza.
Nas reuniões, são leões;
na ação, cordeirinhos mansos.
Falam horas sobre o método,
mas fogem dos lobitos e dos ninhos.
Enchem atas e mais atas,
criam normas sem parar.
Cada folha que acrescentam
é menos tempo para educar.
São doutores do escutismo,
pelo menos na teoria.
Sabem tudo nos papéis,
mas esquecem a pedagogia.
Reclamam do voluntariado,
do esforço e da direção,
mas nunca lhes falta disponibilidade
para mais uma nomeação.
Quando chega um chefe novo,
mudam de lado imediatamente;
a fidelidade que apregoam
dura o tempo da cadeira.
Pregam o serviço e a humildade
com um discurso enternecedor,
mas se lhes retirarem um cargo,
morre-lhes logo o fervor.
Há galões para todos os gostos:
cordões, insígnias e medalhas.
Só não se distribuem carácter
nem se cosem nas fardas.
No fim, o lenço continua,
a Promessa fica igual;
passam chefes, passam vaidades...
E o ego monta o arraial.
Porque o escutismo consiste em servir,
não em disputar o poleiro.
Quem vive só para o cargo
nunca será verdadeiro.

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