quarta-feira, 15 de julho de 2026

 














EMPRENHAR PELOS OUVIDOS

Qualquer chefe que se preze

julga-se dono da razão,

confundindo o cargo que lhe foi atribuído

com divina inspiração.


Há por aí cada engraxador

que faz corar um sapateiro,

lambe botas com fervor

só para subir na hierarquia.


Se o "chefe" mudar de opinião,

mudam todos de repente;

ontem diziam que era branco,

hoje juram que é diferente.


Vivem à roda do poder

como mariposas à luz;

pouco importa quem lá esteja,

desde que os conduza.


Nas reuniões, são leões;

na ação, cordeirinhos mansos.

Falam horas sobre o método,

mas fogem dos lobitos e dos ninhos.


Enchem atas e mais atas,

criam normas sem parar.

Cada folha que acrescentam

é menos tempo para educar.


São doutores do escutismo,

pelo menos na teoria.

Sabem tudo nos papéis,

mas esquecem a pedagogia.


Reclamam do voluntariado, 

do esforço e da direção, 

mas nunca lhes falta disponibilidade 

para mais uma nomeação.


Quando chega um chefe novo,

mudam de lado imediatamente;

a fidelidade que apregoam

dura o tempo da cadeira.


Pregam o serviço e a humildade

com um discurso enternecedor,

mas se lhes retirarem um cargo,

morre-lhes logo o fervor.


Há galões para todos os gostos: 

cordões, insígnias e medalhas.

Só não se distribuem carácter 

nem se cosem nas fardas.


No fim, o lenço continua, 

a Promessa fica igual; 

passam chefes, passam vaidades...

E o ego monta o arraial.


Porque o escutismo consiste em servir, 

não em disputar o poleiro.

Quem vive só para o cargo 

nunca será verdadeiro.

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